fbpx

Diagnóstico e intervenção em saúde: contribuições dos aspectos modais de Herman Dooyeweerd

Share on telegram
Share on whatsapp
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on email

Escrito por Cristina Valotta, estudante do Programa de Tutoria Avançada 2022


O profissional de saúde intervém com tecnologias específicas no desempenho da pessoa em todas as fases da vida, considerando seu diagnóstico1 e contexto socio-histórico-cultural. As pessoas e suas experiências de vida são os desafios da área.

A escuta e compreensão da queixa apresentada acontece pela análise dos motivos temporários ou definitivos do problema, resultando na elaboração da proposta terapêutica. O diagnóstico em saúde é um processo analítico, realizado com base no funcionamento das estruturas do corpo, das informações apresentadas pelo paciente e advindas da aplicação de instrumentos validados por métodos científicos. 

O aumento significativo de profissionais especializados, objetivando a melhor compreensão do funcionamento de cada parte da vida, levou a dificuldade na percepção integral da questão apresentada. As experiências cotidianas acontecem sob vários aspectos e somente a compreensão do todo, sem desconsiderar as partes, pode oferecer a visão para o diagnóstico situacional2 ou contexto humano integral. 

Cada indivíduo elege, de maneira consciente ou não, uma maneira de compreender a realidade e estabelecer prioridades e significados para o cotidiano. As experiências ordinárias são multifacetadas. Uma parte afetada, ou uma visão unilateral da situação, pode alterar o funcionamento e a compreensão do todo. O profissional especializado avalia o assunto do seu campo de formação, isto é, a sua parte e, percebendo um problema em outra parte, encaminha o paciente ao especialista correspondente. A falta da compreensão integral do sujeito é uma queixa majoritária, resultante da crescente especialização da intervenção em saúde e da escolha dos métodos científicos que direcionam o raciocínio clínico. As pessoas não se sentem compreendidas pelos profissionais, que consideram exames laboratoriais e protocolos pré-determinados por evidências clínicas para a conduta terapêutica, mas não estabelecem relação empática com a situação específica de quem é o protagonista da queixa.

A proposta filosófica reformacional de Herman Dooyeweerd (1894 – 1977) para interpretar a experiência humana possibilita a formulação integral do diagnóstico situacional. Harmonizando pensamento filosófico e religião, a filosofia da ideia cosmonômica critica a filosofia imanentista ocidental, especificamente a autonomia do pensamento filosófico. Não existe neutralidade nas proposições para compreender a experiência ordinária, pois toda ideia é direcionada por um motivo-base do coração, centro religioso da nossa existência. É inerente à condição humana escolher uma referência para a vida e esse motivo se torna o alvo da devoção, resultando numa relação religiosa. O ego não encontra explicação de maneira autônoma, nem na relação com o outro. Somente considerando a origem divina isto é, a teorreferência intrínseca ao indivíduo, podemos compreender significado e coerência para a identidade do sujeito. 

Dooyeweerd faz uma crítica ao pensamento ocidental, onde a ciência escolhe um aspecto para intervir no fenômeno. Em contraposição, ele adota o método transcendental para explicar a experiência humana e compreender a relação entre a razão, a moral, o direito e a fé. Propõe a análise dos aspectos modais para discernir a realidade, na perspectiva da ordenança criacional de Deus. A filosofia reformacional compreende a fonte divina (princípio de todas as coisas) como geradora de significado para a realidade. O pensamento imanentista busca esse sentido em uma parte da experiência, trazendo reducionismos e elevando esse fragmento priorizado a uma condição divina.

A escala modal e cada núcleo de sentido correspondente, propostos por Dooyeweerd para discernir a experiência, possuem atualizações por estudos mais contemporâneos. Sua configuração atual conta com quinze modos: quantitativo, espacial, cinemático, físico, biótico, sensorial, lógico, histórico, simbólico, estético, jural, ético e confessional. Um aspecto pressupõe o anterior. Por exemplo, o movimento cinemático (deslocamento) precisa acontecer no espaço e implica numa quantidade de um objeto. Os quatro primeiros podem ser aplicados aos objetos inanimados, funcionando ativamente. Para as plantas e animais como sujeitos da experiência, podem ser acrescentados os aspectos biótico e sensitivo. A partir do aspecto lógico, apenas o ser humano pode ser sujeito da experiência.

Avaliar os aspectos de uma situação é se atentar a descrição do “como” ou “de qual maneira” ela ocorre. Estruturas de Individualidade e aspectos não são termos sinônimos. Por exemplo, os fenômenos (físico-químicos) de vida na planta não são, em si, o aspecto biótico; eles são caracterizados por este aspecto. Portanto, a realidade é vivida de maneira singular. A identidade do sujeito não é definida por um aspecto isolado da experiência, nem a simples somatória deles. 

O diagnóstico em saúde com frequência isola um modo e nomeia a experiência do indivíduo. Este passa a compor sua identidade e influenciar toda a realidade vivida. O ser humano funciona em todas as modalidades de maneira integrada, inter-relacionadas na percepção das partes funcionando no todo encontrando identidade em sua origem transcendente. O diagnóstico em saúde não define a identidade do sujeito, apesar de interferir na experiência de vida.

A intervenção em saúde, tanto na elaboração do diagnóstico como na indicação do processo terapêutico, precisa considerar o ponto arquimediano e a origem da queixa apresentada. Dooyeweerd defende que essa busca deva ser transcendente, mais especificamente na esfera da religião. O profissional cristão encontrará o ponto de partida na revelação de Deus ao homem, sendo este o ponto fixo para compreensão do ego e da experiência ordinária. A filosofia da ideia cosmonômica considera a necessidade da análise e qualificação dos aspectos, mas sem aniquilar a identidade da experiência. Ela não diminui a importância do conhecimento especializado para a análise da situação, mas coloca o desafio ao profissional de saúde cristão de recompor a síntese da situação relatada pelo paciente, encaminhando propostas de saúde com implicações integrais e significativas para a vida. 


Quer estudar com a gente?
Conheça o Loop e tenha acesso a mais de 20 cursos!


1 DIAGNÓSTICO. In: WIKIPEDIA: a enciclopédia livre. 2020. Disponível em: Diagnóstico – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org). Acesso em 27 jun. 2022.

2 TITO, Juliana Contreras; MORAES, Gabriela Cruz de. Diagnóstico situacional: uma possibilidade de avaliação em terapia ocupacional. 2007. 4 p. Artigo acadêmico. CETO — Centro de Especialidades em Terapia Ocupacional. São Paulo (SP), 2007. Disponível em: Revista 2007 – CETO. Acesso em 27 jun. 2022.


Referências Bibliográficas

DOOYEWEERD, H. No crepúsculo do pensamento ocidental: estudos sobre a pretensa autonomia do pensamento filosófico. Tradução: Guilherme Vilela Ribeiro, Rodolfo Amorim Carlos de Souza. São Paulo: Hagnos, 2010.

KALSBEEK, L. Contornos da filosofia cristã. Tradução: Rodrigo Amorim de Souza. São Paulo: Cultura Cristã, 2015.

OUWENEEL, W. Coração e alma: uma perspectiva cristã da psicologia. Tradução: Afonso Teixeira Filho. São Paulo: Cultura Cristã, 2014.