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Genuína conversão: uma perspectiva ontológico-existencial da conversão do pecador

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Escrito por João Uliana Filho, estudante do Programa de Tutoria Filosófica – Turma 2021

INTRODUÇÃO

“Corando diante da verdade”. Assim Agostinho (354-430) descreve o instante da conversão de Vitorino, um antigo retórico romano que havia se convertido ao cristianismo por intermédio de Simpliciano, este, um sacerdote de Milão que certamente influenciou tanto Agostinho quanto Ambrósio. Pelo relato de Agostinho, Vitorino já lia as Escrituras, meditava sobre os escritos cristãos e estava convencido da verdade. Contudo, o fazia apenas em segredo, confiando na discrição de Simpliciano o seu cristianismo dissimulado. O que mais era preciso, afinal? Por acaso “as paredes das igrejas é que nos fazem cristãos?”, dizia ele[1].

Retomemos, pois, á questão de Vitorino – as paredes da igreja nos fazem cristãos? Quinze séculos depois de Agostinho escrever as Confissões, a pergunta ainda é necessária. Desse modo, pensamos no tema da conversão do descrente, que é bastante caro aos cristãos, não só por suas implicações práticas, mas principalmente pela sua própria configuração ontológica – o que é o cristão? De fato, em Agostinho parece que essas duas perspectivas não se separam, ao menos quando se fala da genuína conversão, aquela que faz o Homem corar.

1. QUANDO A RAZÃO É INSUFICIENTE PARA A CONVERSÃO

Compreender o que significa a conversão do descrente não é uma tarefa tão simples. Talvez possamos apontar a conversão como mudança de opinião, que muda mediante um convencimento argumentativo. Neste caso, pouca coisa importaria, visto que opiniões não são absolutamente necessárias. Pode-se passar toda uma vida desconhecendo a maioria das opiniões dos Homem sem qualquer prejuízo. A opinião deve ser regida pela razão, afirmam os racionalistas, de Platão a Locke, e até hoje[2].

Contudo, para o nosso teólogo-filósofo Agostinho, a verdade, seja ela mera opinião, ou ainda que seja conhecimento verdadeiramente racional embasada por todas as fulgurantes mentes dos mais doutos Homens, permanece desconhecida até que ela própria se revele. Sua revelação ilumina o coração dos Homens, dando as condições necessárias para o conhecimento dela. Ainda nas Confissões, ele diz:

“E ouvi como se ouve no coração, e já não tive motivo para duvidar. Mais facilmente duvidaria de estar vivo do que da existência da verdade, a qual se apreende através das coisas criadas”.[3]

Nota-se que, falar sobre o conhecimento da verdade ou sobre o conhecimento de Deus, é falar sobre o mesmo movimento da alma. Conhecimento de Deus e conhecimento da verdade – ou, diga-se, o conhecimento de si mesmo – não se separam, visto que mesmo da existência, só temos certeza, a partir do conhecimento de um Deus que se revela a nós. Sem a iluminação divina a dúvida impera, seja como no ceticismo de Pirro ou como na metodologia de Descartes. Toda elaboração mental, por mais estruturada que seja, é circular, e carece de intervenção externa.

O conhecimento da verdade, então, constitui-se como a mais elevada atividade humana. Algo que não se pode escapar, como um movimento involuntário do coração humano. Porém, este conhecimento não pode ser reduzido ao seu aspecto racional. Opiniões e argumentações, não podem saciá-lo, visto que opiniões e argumentações, como as concebemos, não são sequer permanentemente válidas. Como descansar naquilo que pode ser perdido na intervenção de uma mosca?[4].

É possível concluirmos parte deste ensaio dizendo que a verdade não pode ser buscada pelas forças humanas. Tampouco a conversão pode ocorrer deste modo.

2. O ESTADO DE PECADO

É preciso uma digressão. Se a conversão sugere uma mudança qualquer, devemos nos perguntar sobre sua real necessidade. Anteriormente dissemos que nossa busca é pela verdade. Pois bem, o que nos afasta da Suprema Verdade? Respondemos – nos afastamos da verdade por nossa própria culpa[5], e mais, pelas nossas próprias forças, somos incapazes voltar a ela. Gordon Clark sintetiza brilhantemente a questão:

“O principal obstáculo a esse conhecimento é o pecado do orgulho. O Homem não se dispõe a se submeter a um superior. Ele pretende ser o único comandante de sua alma. Assim, filosofar é fundamentalmente uma atividade moral, e o conhecimento tem um propósito prático, em vez de puramente especulativo”[6].

Se filosofar é uma atividade moral, como disse Clark, a epistemologia – a doutrina do conhecimento, está inserida no mesmo drama da antropologia. Conversão implica mais do que mero conhecimento, justamente porque nossa constituição natural está obscurecida, impedindo o conhecimento direto da verdade. É preciso a intervenção da graça divina para que o Homem se levante deste estado.

O filósofo luterano Sören Kierkegaard nos ajuda a clarear essa condição, chamada por ele de “estado anterior” (anterior à conversão). No primeiro capítulo da obra Migalhas Filosóficas, somos levados à pergunta socrática: “Em que medida pode-se aprender a verdade?”. Refletindo sobre a resposta socrático-platônica, Kierkegaard mostra-nos a incoerência da teoria da “reminiscência”, segundo a qual, nossa mente é capaz de se lembrar das formas perfeitas do mundo suprassensível, já que ela esteve lá antes de estar presa ao corpo material. Conhecer a verdade, à vista disso, é recordar, e a capacidade para isso está no próprio Homem.

Kierkegaard, ademais, demonstra com maestria que à maneira socrática torna-se impossível aprendermos o que não sabemos. Perceba que, se não sabemos algo de antemão, como poderemos procurar pelo que não sabemos? Não saberíamos o que procurar. Por outro lado, se já sei de algo, não preciso buscar conhecer, visto que já o sei.

Nessa dialética kierkegaardiana o Homem está “definido como fora da verdade”, contrariando a tese socrático-platônica. O que o torna incapaz de [se] achegar à verdade “como um prosélito”, pois é como alguém que “se afasta dela” – da verdade, “como não-verdade”. Vê-se então a impossibilidade do Homem, na condição de não-ser – e reconhecendo que se não for assim cairemos de volta no socrático, de sequer buscar a verdade, a não ser que seja-lhe dada a condição de buscá-la. Isso implica uma verdadeira mudança de direção, de caráter ontológico, do não-ser para o ser[7].

Etienne Gilson e Philotheus Boehner, comentando as obras de Agostinho afirmam que “o pecado tem início quando nos esquecemos de Deus, em consequência do amor desordenado às criaturas”[8]. Isso nos diz que o pecado consiste justamente na dedicação do amor que deveria ser dirigido a Deus, sendo dado àquilo que Deus criou, e mais, esquecendo-se de Deus de tal maneira que deixamos de ver o mundo e a nós mesmos como criação de Deus, mas como existentes em si mesmos. Assim é que prescindimos de Deus.  Eis a completa desordem do não-ser, da não-verdade, com a qual convivemos diariamente. Chamamos incredulidade exatamente este movimento de descrença na única verdade que verdadeiramente importa, e em nosso pecado, cremos naquilo que é inferior à verdade. A necessidade é esta, abandonar profundamente aquilo que é não-deus, voltando àquilo que é Deus.

3. VENCENDO A DISTÂNCIA

Uma mudança profunda é, portanto, necessária. Conhecer os escritos cristãos, e mesmo meditar sobre eles, como fazia Vitorino, não fazia dele um verdadeiro discípulo da Verdade – agora com V maiúsculo. Aquilo sequer o confrontava, era-lhe igual, o que nos levaria de volta ao socrático que já rejeitamos. Blaise Pascal, em seu agostinianismo jansenista, empenhado em excluir do pensamento cristão qualquer traço de humanismo, em Sur La Conversion du Pécheur [Sobre a Conversão do Pecador], acertadamente diz que:

“A primeira coisa que Deus inspira na alma, na qual ele se digna a tocar verdadeiramente, é um conhecimento, e uma visão extraordinária, pela qual a alma considera tanto as coisas como a si mesma de uma maneira totalmente nova. Esta nova luz lhe dá medo e traz uma perturbação que atravessa todas as coisas nas quais anteriormente ele se deleitava”[9].

A antiga vida já não faz mais sentido. O ser humano cora – como Vitorino – quando percebe o abismo infinito no qual se encontra, ajoelhado perante uma criação que ele mesmo elegeu como seu deus, e na mentira na qual se divertia. Ali está o mal, “uma perversão da vontade que, ao afastar-se do ser Supremo, […] se volta para as criaturas inferiores; e, esvaziando-se por dentro, pavoneia-se exteriormente”[10].

Há, em vista disso, uma fenomenologia posta na conversão, e este é o local e também o limite da atividade humana nessa transformação. Como fomos alertados por Kierkegaard, a condição para a Verdade – fé – só pode ser dada por Deus em sua graça, e com isso concorda a tradição agostiniana. Em decorrência disso, exige-se um movimento existencial. Exatamente o que faltava a Vitorino antes do confronto, narrado da seguinte forma: “temeu ser negado por Cristo diante dos santos anjos, se receasse confessá-lo diante dos Homens. Sentiu-se culpado”[11].

Tudo o que dissemos repousa, cremos, nas palavras de incentivo do apóstolo Paulo aos Filipenses, quando diz: “Assim também operai a vossa salvação com temor e tremor; porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade”[12]. Estamos, pois, no terreno da teologia bíblica, não meramente na especulação filosófica.

CONCLUSÃO

Para não deixarmos brechas para mal-entendidos, gostaríamos de concluir retomando a questão de Vitorino, quando questiona se “as paredes das igrejas é que nos fazem cristãos”. De maneira alguma damos margem para o pensamento de que o pertencimento à igreja seja irrelevante. A atitude existencial em resposta ao chamado da fé para a Verdade deverá ser sempre uma humilde submissão. E mais, tal atitude impera uma busca contínua dos meios de graça, em sentido abrangente, que nos mantém diante de Deus, justamente para não voltarmos à posição em que nos encontrávamos no estado anterior. Sabemos das nossas fraquezas. Mais uma vez Pascal nos ajuda, dizendo que a alma do converso “reconhece que deve adorar a Deus como criatura, agradecê-lo como endividado, satisfazê-lo como culpado e orar como indigente”[13]. Desde a modernidade, a suficiência da razão tem roubado dos Homens o compromisso existencial e humilde da fé, bem como sua expressão prática, a vida em comunidade. A questão levantada por Vitorino ainda ecoa.

Eis a condição que faz o Homem corar, não diante de Homens, nem diante do espelho de sua consciência depravada, tampouco diante de asserções dogmáticas e realizações lógicas. Mas sim diante do próprio Deus, que o confronta nacontingência da vida, e que fez Agostinho lamentar e exultar ao mesmo tempo –“Tarde vos amei”[14].

Em tempo, conta-se que o ainda jovem poeta britânico do século XVIII Lord Byron, em Oxford, certa vez, precisava escrever um ensaio sobre o milagre de Caná. Após um longo tempo refletindo, escreveu as poucas palavras: “E a água encontrou o Senhor, e enrubesceu”. Se a história é verídica, é difícil afirmar, mas a água corou, e disso temos certeza.


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[1] Cf. Confissões, VIII, 2, 4.

[2] Cf. PLANTINGA, A. Crença Cristã Avalizada. São Paulo: Vida Nova, 2018, especialmente o capítulo 3: A Justificação e a Imagem Clássica, pp 91 ss.

[3]  Cf. Confissões VII, 10, 16.

[4] Cf. B. Pascal. Pensamentos, Laf. 22. Conforme o fragmento de Pascal, as moscas têm a sutil capacidade de impedir a ação da alma, e de interromper a ação de um general de guerra.

[5] A tradição cristã, passando por toda a tradição agostiniana, inclusive nos Reformadores, jamais perdeu de vistas a perspectiva da responsabilidade humana quanto ao pecado original, bem como de suas implicações.

[6] CLARK, G H. De Tales a Dewey. Trad. Wadislau Gomes. São Paulo: Cultura Cristã, 2012, pp 191.

[7] Os três últimos parágrafos podem ser muito bem aprofundados em KIERKEGAARD, S. Migalhas Filosóficas. Petrópolis: VOZES, 2008.

[8] BOEHNER, P. e GILSON, E. História da Filosofia Cristã. Petrópolis: Vozes, 2012, pp 186.

[9] PASCAL. B. Sur La Conversion du Pécheur. Editions La Bibliothèque Digitale, Kindle, position 13. Trad. livre.

[10] Confissões, VII, 16, 22.

[11] Confissões, VIII, 2, 3.

[12] Bíblia Sagrada, Filipenses 2, 12-13.

[13] PASCAL. B. Sur La Conversion du Pécheur. Editions La Bibliothèque Digitale, Kindle, position 75. Trad. livre.

[14]  Confissões, X, 27, 38.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BÍBLIA SAGRADA: Almeida Corrigida Fiel.

BOEHNER, Philotheus; GILSON, Etienne. História da Filosofia Cristã: desde as origens até Nicolau de Cusa. Tradução de Raimundo Vier, 13ª edição. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.

CLARK, Gordon H. De Tales a Dewey. Tradução Wadislau Gomes. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.

KIERKEGAARD, Sören. Migalhas Filosóficas: ou um bocadinho de filosofia de João Clímacus. Tradução de Ernani Reichmann e Álvaro Valls, 2ª edição. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008.

PASCAL, Blaise. Sur La Conversion der Pécheur. [French Edition]. Editions La Bibliotèque Digitale. Edição Kindle.

PLANTINGA, Alvin. Crença Cristã Avalizada. Tradução Desidério Murcho. São Paulo: Vida Nova, 2018.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. Filosofia: Antiguidade e Idade Média, vol. 1. Tradução José Bortolini. São Paulo: Paulus, 2017.

SANTO AGOSTINHO. Confissões. Tradução de Maria Luiza Jardim Amarante. São Paulo: Paulus, 2002.

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