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O cânon bíblico no direcionamento dos cânticos de louvor: um exemplo no Salmo 147

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Escrito por Leonardo Leone Alves, estudante do Programa de Tutoria – Turma Avançada 2021

INTRODUÇÃO

Você já pensou sobre a ordem bíblica de cantar? 

Não há como escapar do fato de que o canto é uma forma vital de louvor. Do livro mais longo da Bíblia, os Salmos, pode-se dizer que é um livro de canções.

Mas como a igreja está cantando hoje? Como o salmista que cantava os louvores, contando as maravilhas, os feitos, as obras e a revelação do Senhor, ou como mero copista de versículos bíblicos, muitas vezes desconexos, enaltecendo a criatura, suas experiências e tradições religiosas?

Nesse contexto, o presente artigo aborda a necessidade do não reducionismo da doutrina na vida da igreja, da abordagem teodramática do evangelho e da necessidade de uma teologia firmada no cânon, proposta por Kevin J. Vanhoozer em seu livro intitulado O drama da doutrina: uma abordagem canônico-linguística da teologia cristã. Por fim, valendo-se do Salmo 147, busca-se por meio do exemplo bíblico direcionar a igreja nos cânticos de louvor a Deus.

1 SUPERANDO O REDUCIONISMO DA DOUTRINA

Muitos cânticos do nosso tempo estão cheios de meras proposições bíblicas, adornados de muita experiência humana e práticas eclesiais, mas com pouco das maravilhas do Senhor e da sua Palavra revelada.

A igreja precisa cantar sua fé e sua fé está na Bíblia. Toda letra de cântico deve ser submetida ao crivo bíblico. O certo não é o que a pessoa sente nem se o que ela canta lhe faz bem. O certo é o que está de acordo com a Bíblia (ISALTINO, 2008).

Todavia, somente cantar meros versículos ou passagens da Bíblia, não é suficiente:

Devemos estar conscientes de que novas canções populares surgem num ambiente hermenêutico, que desconecta passagens isoladas da Escritura de seu significado contextual. De forma semelhante, até mesmo uma música “baseada num texto da Escritura” (isto é, usando integralmente palavras da Escritura) pode se mostrar antibíblica, porque é cantada como uma partícula repetitiva e, portanto, transmite uma sensação que fica muito distante de seu significado bíblico. (CARSON et al., 2017, p. 168).

É preciso de doutrina. Na verdade, ela é indispensável. No dizer de Kevin J. Vanhoozer, ela é um ingrediente vital para o bem-estar da igreja, uma ajuda essencial para o seu testemunho público (VANHOOZER, 2016, p. 12).

Sem a doutrina, a igreja não consegue encenar o reino de Deus corretamente, tendo seu papel reduzido a discussões filosóficas, ideológicas e políticas. A ausência ou debilidade da doutrina reflete de imediato naquilo que só a igreja tem a dizer e, portanto, no seu cântico.

Logo, sendo a doutrina de suma importância, onde podemos encontrar a sua fonte, ou onde está a matéria prima para construirmos a doutrina da igreja e por consequência auxiliá-la em suas respostas corretas às ações divinas e a seus cânticos de louvor?

Para Vanhoozer, a resposta pode ser encontrada e reformulada a partir dos tipos teóricos proposicionalista-cognitivo, expressivista-experiencial e linguístico-cultural, propostos por George Lindbeck no livro denominado A Natureza da Doutrina.

Para os proposicionalistas, as frases bíblicas dão dados cognitivos a respeito de Deus, razão pela qual a origem da revelação está nas proposições bíblicas que informam o cognitivo humano. Já para os expressivistas, o início da doutrina está ligado no sentimento de pertencimento, resultado dos sentimentos e atitudes interiores de uma pessoa: sentir é crer. Por último, para corrente linguístico-cultural, o nascedouro da doutrina envolve uma análise social de como a igreja falava sobre Deus em determinada época, envolvendo vivência da sociedade, seus usos e discursos. 

Preservando o melhor das três correntes, Vanhoozer defende uma teologia canônico-linguística como uma teologia dramática, uma abordagem que valoriza a diversidade de gêneros textuais encontrados no cânon, com a compreensão de que a Bíblia é o lócus final de autoridade divina e testemunha da ação dramática de Deus ao longo da história e, principalmente, na Igreja.

Assim, a resposta para a origem da doutrina está nas Escrituras, nos atos de fala divinos, no que Vanhoozer chama de teodrama.

2. TEODRAMA

Vanhoozer propõe um novo paradigma para a compreensão da teologia baseada no drama como sua metáfora estrutural. Para ele, o evangelho é o “teodrama” triúno da redenção, que é a “ação comunicativa” de Deus em Jesus Cristo, ou seja:

O ponto de partida adequado para a teologia cristã é Deus em ação comunicadora. O que isso significa na prática é que os cristãos não devem pensar sobre Deus sem as Escrituras nem sobre as Escrituras sem Deus. (…) o primeiro princípio de que necessitamos é um sensus scripturalis: o senso de que a Bíblia é “de Deus” e, portanto, autoridade para a igreja. (VANHOOZER, 2016, p. 78,79)

A Bíblia desempenha no teodrama um importante papel. As Escrituras canônicas são o roteiro da igreja, a versão autorizada do teodrama, a constituição da igreja e o lócus de autoridade quando se trata de direção doutrinária para a participação adequada da igreja no drama em andamento.

Nesse passo, muito mais que um livro sagrado, a Bíblia deve ser tida como um “documento de aliança”:

As Escrituras são sagradas não simplesmente porque seu conteúdo é revelado ou porque Deus de vez em quando usa seu conteúdo para se revelar. Antes elas são sagradas porque fazem parte do plano mais amplo de Deus que visa a nos dar acesso a si mesmo por meio de Jesus Cristo. (VANHOOZER, 2016, p. 61 e 62)

Como documento de aliança, a Bíblia é um ato performativo do Deus triúno que promove a piedade e a prática cristã. É o veículo vivo da Palavra e do Espírito. Sola scriptura, portanto, é a participação capacitada pelo Espírito nas práticas cristológicas das Escrituras. 

3 GÊNEROS LITERÁRIOS

Daí a necessidade de se valorizar a diversidade de gêneros textuais encontrados no cânon. Os gêneros literários contribuem para entendermos as regras do jogo de fala divino. As estruturas literárias do cânon são importantes para saber praticar, e no caso do presente, ensinar a igreja a cantar louvores.

Da perspectiva do drama, os gêneros fornecem direção para a participação adequada, seja por palavra, seja por ação, em determinados tipos de situações sociais: “…os gêneros servem como chaves que fazem entender como participar das ações de uma comunidade”.  Esse último ponto marca a ruptura decisiva com a abordagem linguístico-cultural de Lindbeck. Não se trata de a participação na comunidade contemporânea ajudar a esclarecer o significado da narrativa bíblica, mas de as práticas literárias do cânon nos ensinarem a participar da comunidade eclesial moldada pela história. Os gêneros literários da Bíblia não são apenas veículos para agrupar informações, mas meio de ação social em si mesmos, que exigem um tipo específico de resposta do intérprete, a saber, a interpretação da Encenação I. (VANHOOZER, 2016, p. 231)

Por tudo isso, precisamos pensar os pensamentos de Deus em conformidade com Ele, e, também, falar as Palavras de Deus e atuar os atos segundo ele:

A adoração é a resposta apropriada da criatura ao Criador. A adoração não cria algo novo; ao contrário, é uma resposta transparente ao que é um reconhecimento do nosso status de criatura diante do próprio criador. (CARSON et al., 2017, p. 27)

4. SALMO 147: UM EXEMPLO DE DIRECIONAMENTO

Nos Salmos, encontramos exemplos inspirados do que podemos e devemos dizer a Deus.

O Salmo 147 faz parte da grande doxologia que conclui o saltério, sendo notável por celebrar a grandiosidade e a bondade do Senhor. Ele começa nos chamando para o louvor: Aleluia! Como é bom cantar louvores ao nosso Deus! Como é agradável e próprio louvá-lo! (versículo 01).

Cantar e celebrar a supremacia de Deus é “bom”, “agradável” e “apropriado”. Notemos, então, como o Salmo 147 direciona os cânticos de louvor nesse sentido: 

Primeiro, o Senhor é digno de adoração pelo que Ele fez. Ele edificou Jerusalém e congregou Israel no passado. Hoje, Ele atua na edificação da igreja e na reunião dos pecadores. 

Segundo, o Senhor deve ser louvado por se associar aos fracos, escolher a sua companhia e permanecer com eles até que os cure com seus confortos (versículo 03). A maior demonstração disso ocorreu quando Deus enviou seu Filho. Jesus foi enviado exatamente para curar os de corações quebrantados e a pôr em liberdade os oprimidos (Lucas 4:18).

Terceiro, os versículos 04 a 06 dão mais motivo para adoração. Ao mesmo tempo que cuida dos desamparados, Deus atribui às estrelas o seu lugar no céu com poder. Ele é “grande”, “abundante em poder”, e seu conhecimento não tem limites. Ainda assim, ele se rebaixa para exaltar os humildes e trazer julgamento sobre os ímpios. Na medida em que Deus é grande, Ele deve ser louvado.

Quarto, a base do louvor está enraizada no cuidado providencial que Deus tem pela obra de suas mãos (versículos 8 e 9). Nada é deixado ao acaso. Nos versículos seguintes, do 10 ao 17, Deus é o autor da paz, a fonte do alimento, o criador da neve, a origem do granizo e aquele que sopra o vento. Por tudo isso, louvado seja o Senhor.

Quinto, a revelação especial de Deus evoca louvores. O fato de que o povo da sua aliança foi o único destinatário de sua lei é uma demonstração inconteste do amor de Deus (versículos 19 e 20). As Escrituras se tornam vantagem grandiosa e preciosa para todos que a recebem, conduzindo ao verdadeiro cântico de louvor. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A mera citação de versículos, a experiência pessoal ou a tradição acumulada ao longo do tempo não permitem que a igreja cante louvores corretamente.

Para encenar o reino de Deus, para fazer a diferença no mundo, a igreja precisa saber antes de tudo o uso que Deus faz das Escrituras – daí a importância da Doutrina.

Na abordagem teodramática a Bíblia é um instrumento da economia comunicadora do Deus trino e uno muito mais de que um depósito de verdades reveladas. Assim, a igreja como “o teatro do evangelho”, que deve apresentar, traduzir, representar e devolver a Palavra salvadora de Deus no poder do Espírito.

Cantar louvores é em última análise uma confissão ou afirmação de quem é Deus e do que ele faz e está fazendo pela igreja. Assim cantemos.


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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FILHO, Isaltino Gomes Filho. A força da ignorância (ou: socorro, não agüento mais cantar corinhos!). Disponível em https://www.isaltino.com.br/2008/11/a-forca-da-ignorancia-ou-socorro-nao-aguento-mais-cantar-corinhos/. Acesso em 25 jan. 2021.

CARSON, D. A., et al. Louvor: análise teológica e prática. Trad. Wilson de Almeida. – 1. ed. – Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.

VANHOOZER, Kevin J. O drama da doutrina: uma abordagem canônico-linguística da teologia cristã. Trad.  Daniel de Oliveira. São Paulo: Vida Nova, 2016.

1 comment

  1. Lívia Santos

    Que texto rico e belo!

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