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A ataraxia evangélica e os epicureus renovados

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Escrito por Irving Araújo Damasceno, estudante do Programa de Tutoria em Filosofia de 2021

INTRODUÇÃO

Uma ideia muito comum ao longo da filosofia helenística é a ideia da ataraxia. A ataraxia é definida como a imperturbabilidade da alma, a tranquilidade, a liberação tanto do corpo, quanto da alma, de perturbações. Esse estado está intrinsecamente associado à busca do prazer e, também, a eudaimonia – que é o bem-estar, o estado de felicidade. As correntes filosóficas que mais utilizaram esse termo foram a epicurista, a estoica e a cética. Cada uma delas apresenta uma correlata visão de mundo que associa ética, epistemologia, e até uma teologia, com a busca da imperturbabilidade. A ideia deste ensaio é associar a busca helênica desse prazer, como telos de vida, com o ingresso na vida cristã.

Muitos associam que uma vida com Deus é uma vida sem problemas, tranquila, imperturbável. Assim, não é de se surpreender, por exemplo, que muitos utilizam o livro de Provérbios como se fossem as Meditações, só que, ao invés do autor ser o Marco Aurélio, é o rei Salomão. O cristianismo se torna “regra de boa convivência” e acaba sendo encontrado em pessoas que sequer conhecem as doutrinas básicas de sua fé, mas se determinam “cristãs” por buscarem essa vida ascética e ataráxica.

Além disso, livros e pregações de púlpito acabaram se tornando uma autoajuda que utiliza a piedade cristã como forma de garantir uma vida tranquila e estável (financeiramente, emocionalmente, socialmente etc.). Contudo, ao encarar a realidade – perseguições, chacotas, problemas, dificuldades – esses “cristãos” acabam por desistir do Caminho com a ilusão de que foram enganados, de que essa não é a melhor forma de buscar essa vida tranquila e que encontrarão isso, de forma mais fácil, em outras filosofias.

O HEDONISMO HELENÍSTICO

A fim de melhor compreendermos a ataraxia, precisamos entender em que se baseia a busca pelo prazer. Em uma sociedade marcada pela psicanálise freudiana e lacaniana, com o endeusamento sexual e materialista, o prazer torna-se algo fútil e até bestializado, associado inteiramente com o sexo. Entretanto, isso não é atual: desde a época de Epicuro (341 a.C. – 270 a.C.), seus contemporâneos buscavam o prazer de forma desenfreada, com bebidas, sexo, glutonaria e jogos. Para o filósofo do Jardim, o prazer era o princípio e o fim de uma vida abençoada – é o nosso bem primeiro e natural. Outrossim, ele não pregava essa vida de voluptuosidades. Para ele, a vida prazerosa é uma vida sábia, com sobriedade, honra e justiça. Assim, Epicuro sustenta a argumentação de que prazer, quando compreendido de forma correta, coincide com a ataraxia – o foco da vida, então, é o que experimentamos por meio do livrar-se da dor e do estresse. Ou seja, esse é o prazer catastemático, é o estado de satisfação plena.

Os estoicos, contemporâneos dos epicureus, apresentavam certas semelhanças com estes1, contudo defendiam que a vida boa é identificada com as virtudes. Justiça, moderação, coragem, é tudo que é necessário para a felicidade. Dessa forma, a felicidade não está associada com a sua saúde, riqueza ou prazeres. A felicidade é possuir e exercitar essas virtudes. Na prática, sua ataraxia se dava por meio da apatheia, que seria o estado livre de paixões: as paixões, ou os impulsos moralmente errados, estão na raiz de confundir o bom e o mau. Já os céticos pirrônicos, herdeiros acadêmicos de Platão, com influência direta de um pensamento socrático de questionamento de todo tipo de conhecimento, e das bases para assim obtê-los, viam sua filosofia não como uma teoria, mas como uma atitude mental para se opor a todo conhecimento que vai além do aparente, que lida com o não evidente. Para eles, essa suspensão de julgamentos leva a própria ataraxia, a quietude, a um estado de paz mental.  Para os propósitos desse ensaio, seguiremos com a abordagem epicurista da ataraxia, haja vista que esta é a mais próxima do contraponto que queremos fazer.

A RECEITA DA FELICIDADE

Para Epicuro, a técnica de conquista da felicidade, ou do que ele entende como felicidade, são quatro passos que o filósofo denominou de tetrapharmakon (um “quádruplo remédio”). Ele consiste em: (1) Não se deve temer a morte; (2) é fácil alcançar o bem; (3) não se deve temer os deuses; (4) as boas lembranças ajudam a superar a dor. Em sua visão, o tetrafármacon é uma disciplina interior, na qual o praticante há de substituir as dolorosas sensações do presente pelas recordações agradáveis do passado, até que o passado se torne presente e, assim, o presente desvaneça sob a visão do passado.

A defesa do filósofo, então, é a de buscar as lembranças como uma forma de auxiliar a luta presente. Além disso, ver a morte como um destino comum entre todos auxilia o indivíduo a não a temer, assim como entender que a participação dos deuses não tem influência em nossos destinos atuais, afinal, para ele, a religião era o que gerava o medo da morte, quando afirmava a vida (e os castigos) da vida-após-a-morte. Logo, bastava desvencilhar-se dessa mitologia2 para então alcançar a eudaimonia e, com a ajuda das lembranças, superar a dor.

O PAPEL DO DESEJO NA BUSCA PELO PRAZER

Assim, seu materialismo atomista influenciou grandemente sua ética, que, como vimos, defendia a fuga da dor em prol da busca pelo prazer. Epicuro associa diretamente o desejo ao prazer. Seu hedonismo concedia uma importância à distinção que se podia fazer aos tipos de prazer e de desejo – aquele está relacionado à satisfação deste. Assim, ele realiza uma distinção entre os desejos, que podem ser “necessários”, como beber enquanto tem sede; “necessários, mas não naturais”, são como o desejo de um tipo específico de comida – não é necessário para a sobrevivência, nem para afastar a dor; e os “não necessários, e não naturais”, como um desejo por ouro ou pelo celular mais novo do mercado – esses são desejos que, quando em ação, agem com intensidade e de forma prejudicial.

Logo, diante desses desejos, há dois tipos de prazer envolvidos. Existe o prazer cinético e o prazer catastemático. O primeiro está associado a reposição, e pode, ou não, estar associado a dor, p. ex.: beber – se enquanto tem sede, o prazer aumenta conforme a dor diminui, contudo, se enquanto não tem sede, não se aumenta o prazer, mas varia o tipo: ao beber diferentes tipos de líquidos. Se o cinético se associa com a dor do desejo, o catastemático é definido pelo libertar-se da dor e da angústia. O prazer catastemático, conforme vimos, defendido por Epicuro, é a satisfação de desfrutar da condição natural do humano – livre do que o perturba.

Dessa forma, essa distinção é central no pensamento epicureu. Em sua visão, restringir-me de possíveis prazeres momentâneos que me tragam mais dor no futuro é mister. O prazer em que devemos focar é no prazer dado pela liberdade da dor corporal e do estresse mental.

O HEDONISMO CRISTÃO

Essa abordagem hedonista há muito vem adentrando-se no pensamento cristão ocidental. Existem casos mais claros, como o da teologia da prosperidade, que afirma a associação plena de bênçãos com o ingresso na fé cristã, mas existem formas mais sutis em que outras filosofias têm se travestido de cristianismo e defendendo a busca de “prazeres”.

De fato, a busca cristã do prazer é algo não só válido, como necessário para a fé cristã. Ao longo de toda a Escritura (Sl 16.11, Sl 37.4, Jo 15.11, Rm 15.13, por exemplo), temos visto que o prazer na vida cristã não é algo opcional, mas essencial. John Piper, um teólogo cristão, pontua o quão crucial para a fé é a vida em prol da alegria. Certamente, o tipo de alegria que ele fala não é a ataraxia, mas é a alegria de desfrutar da glória de Deus. Dessa forma, o fim último da adoração cristã é o prazer de estar em Deus. Assim, vemos que Epicuro estava correto ao apontar a busca universal pela felicidade como centro da ação humana, mas errado ao defender que essa felicidade se consolida na ataraxia, numa vida sem dor. A fé cristã apresenta uma resposta para o anseio humano por felicidade: essa busca é universal e não pecaminosa. Contudo, a felicidade profunda encontra-se em Deus e atinge sua consumação quando compartilhada com outros nos multiformes caminhos do amor.

O REMÉDIO CRISTÃO

Diante do exposto, conseguimos destrinchar o remédio proposto por Epicuro e como que, se não lermos a bula com atenção, podemos nos envenenar. O primeiro ponto de seu tetrafármacon é que “não se deve temer a morte”.  De fato, ao longo da história bíblica, vimos o quão Deus se alegra na morte dos seus santos (Sl 116.15). Não devemos temer a morte, pois já sabemos para onde iremos. A certeza de que a fé nos traz é a solução para a abstenção desse temor. Qualquer outro tipo de consolo é uma espécie de autoengano – um ídolo que colocamos em nossa frente e nos impede de ver a realidade, como uma música alta que nos impede de ouvir o barulho ao nosso redor. Não devemos temer a morte, pois ela não é o fim (Jo 11.25-26), o fim é o nosso encontro com o Salvador. E aquele que, com essa realidade já se deparou, não pode, a ela, fechar os olhos. Em segundo lugar, Epicuro afirma que “é fácil alcançar o bem”. Só podemos garantir essa facilidade devido a morte de nosso Jesus na cruz, “porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou antes para nós as praticarmos” (Ef 2.10). Precisamos nos abster de uma ideia abstrata de bem e entender que o bem supremo está em Cristo – e é esse bem que devemos buscar (Mt 5.16) brilhando em nós essa luz, para que essas boas obras glorifiquem ao nosso Pai.

O ponto mais problemático do remédio do filósofo do Jardim é a defesa de que “não devemos temer a divindade”. Ele entendia esse temor como o princípio da ansiedade e a paralisação da vida. Contudo, nosso ensino judaico-cristão não poderia ser mais distinto. O temor ao Senhor não é apenas algo recomendado, como é necessário para a sabedoria (Sl 111.10; Pv 9.10). Obedecer ao Pai, cumprindo seus mandamentos e andando em seus caminhos é a ética correta – e não “fugir da dor”. Por fim, o filósofo pontua que “as boas lembranças ajudam a superar a dor”. De fato, não há nada mais bíblico do que isso: trazer à memória aquilo que nos dá esperança (Lm 3.21). Manter em mente a palavra de Deus não só nos ajuda a manter a esperança, mas a também não pecar contra Ele (Sl 119.11). Dessa forma, compreendendo que o desejo é o princípio do prazer, entendemos que ele é, também, o princípio do pecado (Tg 1.14-15). Afinal, cada um de nós é tentado pelo nosso próprio desejo, pela nossa própria cobiça – e a realização desses desejos, quando não controlados e alinhados com a Palavra de Deus, consolida o pecado.

Além do tetrafármacon, a apatia é um conceito caro para a ataraxia, como vimos. Afinal, o estado imperturbável da alma é isso: estar distante e apático para não se envolver e sofrer. Apesar de haver certo louvor no que tange a manter a sanidade diante de várias notícias ruins, a estratégia cristã para isso não é a apathea/ataraxia, mas sim, o lamento. Existe sim, o tempo de choro, de lamento e de contrição (Mt 5.4, Ec 3.4) diante das situações que nos afligem. Além disso, é importante também que lamentemos com os que lamentam (Rm 12.15) – estarmos presentes e sofrermos com o próximo é crucial para uma vida em comunidade. Assim, vemos que a resposta cristã contém o lamento, mas é um lamento baseado na expectativa das promessas do Pai. Não choramos por chorar, algo sem motivo – o nosso choro é sucedido pela alegria (Sl 30.5), pois sabemos que nossa esperança está em Deus (Sl 33.20, 25.2-3, 39.7, 42.11, 62.5, 119.114).

CONCLUSÃO

Destarte, concluímos que o hedonismo é intrínseco ao pensamento cristão3. Contudo, ao longo da história, a forma ataráxica de hedonismo tomou lugar de peso nessa busca pelo prazer – defendendo que prazer é fuga da dor. A visão cristã entende que a busca pelo prazer é inevitável, contudo, ele não se satisfaz com a realização dos desejos nossos ou de forma catastemática, mas o prazer cristão é estar em Deus e se satisfazer nEle – em suas obras, em seus feitos, em sua Palavra, em sua essência. Assim, o fim último da felicidade do cristão não é a ataraxia, mas a glória de Deus, e o remédio que devemos buscar é um composto de: não temer a morte, alcançar o bem, temer ao Senhor e superar a dor por meio das boas lembranças e das boas expectativas – principalmente a do retorno do nosso Rei.


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NOTAS

¹ Apesar de estarmos focando na busca pelo prazer, é importante ter em mente que esses grupos filosóficos não focam apenas nisso. Como pincelado na introdução, suas filosofias são completas, e abordaram cosmogonia, metafísica, epistemologia, lógica, teologia etc.

² É evidente que, para contra-argumentar a existência dessa vida-após-a-morte, Epicuro precisou recorrer de um materialismo atomista, previamente visto em Demócrito. Para ele, a existência de tudo é proveniente das unidades básicas do mundo: os átomos perenes, imutáveis e indivisíveis. Assim, em sua visão, nossa livre agência era decorrente da inflexão dos átomos: somos senhores de nosso destino.

³ John Piper diz: “O Hedonismo Cristão é a convicção de que o objetivo final de Deus no mundo (sua glória) e nosso desejo mais profundo (ser feliz) são um e o mesmo, porque Deus é mais glorificado em nós quando estamos mais satisfeitos nele. Deus não é apenas a fonte suprema de satisfação para a alma humana, mas o próprio Deus é glorificado por estarmos satisfeitos nele. Portanto, nossa busca pela alegria nele é essencial.”.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AUDI, Robert. The Cambridge dictionary of philosophy. 3. Ed. Nova Iorque: Cambridge University Press, 2015.

CARVALHO, Olavo de. O Jardim das Aflições – de Epicuro à ressurreição de César: ensaio sobre o Materialismo e a Religião Civil. 3. Ed. Campinas: Vide Editorial, 2015. 

CLARK, Gordon Haddon. De Tales a Dewey. Tradução: Wadislau Gomes. 1. Ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.

FRAME, John M. A history of western philosophy and theology. 1. Ed. Nova Jersey: P&R Publishing, 2015.

KENNY, Anthony. Uma nova história da filosofia ocidental – Volume 1: Filosofia antiga. Tradução: Carlos Alberto Bárbaro. 2. Ed. São Paulo: Edições Loyola, 2011.

RUSSELL, Bertrand. História da filosofia ocidental – Livro 1: A filosofia antiga. Tradução: Hugo Langone. 1. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.

2 comments

  1. Maria

    Que texto maravilhoso!! Uma argumentação perfeita baseada em fatos bíblicos! Maravilhoso!!!

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