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A doutrina cristã: seu início, queda e uma proposta de como trazê-la de volta à igreja

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Escrito por Pedro Augusto Oliveira Paiva, estudante do Programa de Tutoria – Turma Avançada 2021

1. INTRODUÇÃO

A doutrina sempre foi um dos pilares da religião cristã. Desde o início do cristianismo vemos servos de Deus se esforçando para tirar princípios gerais das Escrituras de modo que facilitasse o entendimento dos novos convertidos e para defender a verdadeira religião contra as heresias.

Porém, há alguns séculos a doutrina tem sido vista como algo legado aos seminários e sem uso na prática diária da igreja. Os novos cristãos têm sido apresentados a uma religião com bases ralas e são privados do alimento sólido, permanecendo apenas no leite espiritual. Temos em nossas igrejas eternas crianças espirituais por falta de ensinamento doutrinário. Segundo o ensino do apóstolo Paulo: “Quem se alimenta de leite ainda é criança, e não tem experiência no ensino da justiça. Mas o alimento sólido é para os adultos, os quais, pelo exercício constante, tornaram-se aptos para discernir tanto o bem quanto o mal” (Hebreus 5:13,14).

Nesse breve artigo trabalharemos um pouco sobre a história da doutrina e sua degeneração. E, principalmente, trataremos de uma nova abordagem que tem como objetivo transpor o fosso entre teoria e prática ancorado na autoridade das Escrituras.

2. O INÍCIO DA DOUTRINA

Desde o começo do cristianismo a doutrina teve grande importância nessa religião. Diante disso iremos iniciar observando de forma resumida o avanço da teologia nos primeiros anos da Igreja Cristã.

Logo após o período apostólico surgiu na história da teologia cristã um período chamado de Patrístico. Esse período durou do término dos documentos do Novo Testamento (ap. 100 d.C) até o Concílio de Calcedônia (ap. 451 d.C) [1]. Esse foi um período de vasto crescimento da doutrina cristã. Logo no início desse período surgiram alguns marcos doutrinários: o Credo dos Apóstolos e o didaquê. O primeiro foi o primeiro credo ecumênico escrito e surgiu, provavelmente, devido a necessidade de se diferenciar o cristianismo do judaísmo[2]. Já o segundo é um catecismo escrito no final do primeiro século que tinha como intenção instruir aqueles que desejavam ser batizados[3].

Como pode-se notar os primeiros cristãos sentiam forte necessidade de ensinar a doutrina cristã aos seus iniciantes. Nisso eles seguiram a ordem dada pelo apóstolo Paulo ao seu discípulo Tito: Você, porém, fale o que está de acordo com a sã doutrina. (Tito 2:1).

Junto a isso os pais da igreja foram os responsáveis por defender a doutrina da Trindade, um ponto base da fé cristã. Realizaram, também, os primeiros concílios ecumênicos, que moldaram os primeiros acordos universais sobre questões doutrinárias[4].

Assim, a manutenção da sã doutrina, principalmente na forma dos primeiros credos, é tida como um dos mais importantes fatores que contribuíram para que o Cristianismo se sustentasse e se espalhasse pelo mundo. Segundo o historiador cristão Mark Noll: “Juntamente com o episcopado e o cânon das Escrituras, os credos primitivos tornaram-se as âncoras que estabilizaram a Igreja na sua história sub-apostólica mais antiga.”[5]

Se continuássemos estudando a história da igreja veríamos que a doutrina teve importância por todo esse tempo: na Patrística, Idade Média, Renascimento, Reforma e Pós-reforma. Portanto, ela é um dos pilares da religião cristã e não pode ser deixada de lado.

3. DEIXADA DE LADO

Apesar de toda essa importância na história do cristianismo, a doutrina tem sido deixada de lado por muitos seguimentos cristãos nos dias atuais. Tal tendência começou a se apresentar mais significativamente no início do século XX. Tal desconsideração por esse aspecto tão importante do cristianismo está criando uma igreja sem forma e vazia de sentido. Kevin Vanhoozer em seu livro O drama da doutrina: uma abordagem canônico-linguística da teologia cristã atribui isso a alguns fatores. O principal deles é a dissociação teórico-prática.[6]

Essa divisão entre teoria e prática pode ser encontrada inicialmente na história da Igreja no período medieval, onde as escolas das catedrais se desenvolveram e deram origem às primeiras universidades.[7] Assim, podemos dizer que a teologia teórica foi para a universidade, enquanto a teologia prática foi para os mosteiros.

Segundo Vanhoozer em seu outro livro, O pastor como teólogo público: recuperando uma visão perdida, escrito com Owen Strachan, atribui a divisão definitiva a Friedrich Schleiermacher. Este, no início do século XIX reestruturou o currículo teológico da Universidade de Berlim conforme a divisão quádrupla: estudos bíblicos, história da igreja, teologia sistemática e teologia prática.[8]

Assim, uma distinção acadêmica se transportou para o ministério pastoral e para toda a vida da Igreja, criando uma visão nociva de que a doutrina pertence unicamente aos acadêmicos, que são os responsáveis pela teologia teórica. Segundo Vanhoozer: “Poderes institucionais e principados acadêmicos têm separado o que originalmente havia sido unido sob a benção de Deus: a teologia e a vida da igreja, estudos bíblicos e teologia, pastor e teólogo”.[9]

4. REVOLUÇÃO

Diante desse quadro de menosprezo pela doutrina na comunidade cristã surge o teólogo reformado Kevin Vanhoozer com uma proposta inovadora de como interpretar a doutrina. Em seu livro O Drama Da Doutrina, Vanhoozer elabora a abordagem canônico-linguística da teologia cristã.

Essa obra é uma espécie de resposta ao livro The Nacture Of Doctrine (A natureza da doutrina) de George Lindbeck. Este livro, publicado em 1984, marcou a primeira ocorrência da virada linguístico-cultural na teologia[8]. Nele Lindbeck propõe uma abordagem linguístico-cultural da doutrina, desse modo “atribuindo à cultura singular dentro e somente da qual a Bíblia é usada para moldar a identidade cristã”.[10]

Nesse modelo Vanhoozer defende que a autoridade dentro da teologia cristã pertence às Escrituras. Segundo ele, todo o cosmos deve ser visto como o drama divino, onde a Bíblia é o roteiro. “Como coleção de direções de palco autorizadas para a encenação do modo de vida cristão na verdade, o roteiro demanda não só a leitura receptiva, mas também a ação e a corporificação receptivas”.[11]

Dentro da abordagem de Vanhoozer, o que mais nos interessa aqui é a força que sua proposta  tem de transpassar o fosso entre prática e teoria. Adotando o modelo canônico-linguístico conseguimos entender mais adequadamente a doutrina e colocá-la novamente na vida da igreja. Ao trazer todas as coisas para o teodrama conseguimos ver a importância que a doutrina tem para que sigamos corretamente o roteiro. A intenção principal é unir ortodoxia e ortopraxia de maneira integral, formando a ortokrisis.[12] Assim podemos entender melhor que “a doutrina não procura simplesmente afirmar verdades teóricas, mas corporificar a verdade em modos de vida”.

O fim principal de se ver a doutrina de forma dramática “diz respeito ao processo pelo qual se lava o cascalho do conhecimento textual e se chega ao ouro da sabedoria cristã colocando-se em prática a interpretação das Escrituras”.[13] Por a igreja ser o povo de Deus, ela tem o privilégio e responsabilidade exclusivos de encenar as Escrituras e dar continuidade ao caminho iniciado pelo Senhor Jesus Cristo.

5. CONCLUSÃO

Diante do exposto, percebemos que Vanhoozer colabora com a igreja trazendo essa nova forma de enxergar a doutrina. Ele nos apresenta uma forma de a trazermos novamente para a prática cristã, interpretando-a no dia-a-dia.

Aliás, essa contribuição faz parte da tarefa que o próprio Vanhoozer definiu para teólogo, pois, segundo ele, o teólogo trabalha para a igreja. Então, aproveitemos seu trabalho e renovemos nossa visão de doutrina trazendo-a novamente para dentro de nossas igrejas.


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6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

[1] MCGRATH, Alister E.. Teologia: Sistemática, Histórica e Filosófica: uma introdução à teologia cristã. São Paulo: Shedd Publicações, 2005. 664 p. Tradução de Marisa K. A. de Siqueira Lopes.

[2] MCGRATH, Alister E.. Teologia: Sistemática, Histórica e Filosófica: uma introdução à teologia cristã. São Paulo: Shedd Publicações, 2005. 664 p. Tradução de Marisa K. A. de Siqueira Lopes.

[3] DIDAQUÊ: A instrução dos doze apóstolos. A instrução dos doze apóstolos. Disponível em: http://www.escolacharlesspurgeon.com.br/files/pdf/DIDAQUE_-_A_Instrucao_dos_Doze_Apostolos.pdf. Acesso em: 26 jan. 2021.

[4] MCGRATH, Alister E.. Teologia: Sistemática, Histórica e Filosófica: uma introdução à teologia cristã. Tradução de Marisa K. A. de Siqueira Lopes. São Paulo: Shedd Publicações, 2005. 664 p.

[5] NOLL, Mark A.. Momentos Decisivos na História do Cristianismo. Tradução de Alderi Souza de Matos. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2000. 384 p. 

[6] VANHOOZER, Kevin J.. O Drama Da Doutrina: uma abordagem canônico-linguística da teologia cristão. Tradução de Daniel de Oliveira. São Paulo: Vida Nova, 2016. 512 p.

[7] VANHOOZER, Kevin J.; STRACHAN, Owen. O Pastor Como Teólogo Público: recuperando uma visão perdida. Tradução de Marcio L. Redondo. São Paulo: Vida Nova, 2016. 256 p. 

[8]  Ibid.

[9]  Ibid.

[10] VANHOOZER, Kevin J.. O Drama Da Doutrina: uma abordagem canônico-linguística da teologia cristão. Tradução de Daniel de Oliveira. São Paulo: Vida Nova, 2016. 512 p.

[11] Ibid.

[12] Ibid.

[13] Ibid.

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