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O drama da doutrina e sua relação com os hábitos cotidianos

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Escrito por Alessandra Rigazzo, estudante do Programa de Tutoria Avançada 2022


Introdução

Talvez um dos conceitos mais falados no período de isolamento da pandemia da Covid-19, em que foi necessário criar uma rotina em casa, tenha sido a formação de hábitos. Foi possível conhecer diferentes abordagens a respeito do desenvolvimento de práticas baseadas nas mais variadas narrativas. Parte da igreja cristã tem consumido toda essa categoria de conteúdo, não apenas nas redes sociais, como também em suas reuniões, permitindo substituições no lugar que é exclusivo das Sagradas Escrituras.

O presente trabalho busca discutir a formação dos hábitos do ser humano, as influências das narrativas concorrentes nessa formação e, sobretudo, a relação entre as escolhas feitas nos dias comuns e o Teodrama apresentado por Kevin J. Vanhoozer na obra O drama da doutrina: uma abordagem canônico-linguística da teologia cristã. Afinal, quais as implicações disso para quem deseja viver para a glória de Deus, como ator/discípulo escalado pelo Dramaturgo para participar do drama da redenção?

1. Hábitos, dieta e doutrinas

Hábitos são construídos por aprendizado e repetição, mesmo não conscientemente. A habilidade de formar hábitos é muito útil, pois com ela economizamos tempo e energia nas inúmeras tomadas de decisões. De outro modo, teríamos que aprender tudo novamente a cada dia. Contudo, é preciso lembrar que estamos falando a respeito de seres humanos marcados pelo pecado, o que deve nos levar ao questionamento sobre as marcas deixadas em nossas escolhas e construções.

Com uma antropologia agostiniana, James Smith destaca em suas obras que o coração é a sede de nossos desejos. É dele que vêm nossas ações, ou seja, são os nossos amores que mostram a direção para um telos.

Portanto, quando dizemos que ser humano é amar, desejar o reino, estamos dizendo que essa visão da vida feliz do reino se inscreve e se infunde em nossos hábitos e disposições e, portanto, fica entretecida em nossa (segunda) natureza pré-cognitiva. (SMITH, 2018, p. 57)

Portanto, os hábitos revelam o que nosso coração prioriza. Analisando nossas escolhas mais comuns conseguiremos identificar onde o coração inquieto busca pela paz que, entretanto, só será encontrada em seu Criador.

Kevin J. Vanhoozer, em sua abordagem canônico-linguística, compara o cultivo de hábitos santos a uma dieta de doutrina, que prepara o ator/discípulo para sua atuação na peça, fazendo-o entrar em forma espiritualmente. Segundo o autor, a dieta da doutrina satisfaz duas necessidades: verdadeiro conhecimento e bons hábitos e integra teoria e prática (VANHOOZER, 2016, p. 388–390).

Essa questão será alvo de discussão neste trabalho mais à frente. No entanto, em resumo, verifica-se que há uma relação entre o que absorvemos da sã doutrina (conhecimento) e nossos hábitos (práticas) e, de modo contrário, nossos maus hábitos (vícios), contrários às Escrituras (não canônicos) também revelam como somos doutrinados pelas narrativas concorrentes.

James Smith descreve bons hábitos (virtudes) como uma disposição interna para o bem, traços de caráter que passam a fazer parte de quem somos. Essas virtudes não são a lei, mas a internalização da mesma (SMITH, 2018, p. 38). Semelhantente, Vanhoozer afirma que a doutrina contribui para a boa forma espiritual ao cultivar bons hábitos, a saber, disposição para ver, julgar e agir de acordo com padrões e práticas canônicos. Em suma: a dieta da doutrina leva à boa forma espiritual incentivando hábitos e padrões de pensamento sadios (canônicos), que, no que lhe concerne, dão origem a hábitos e padrões de vida sadios (contextuais) (VANHOOZER, 2016, p. 390).

Portanto, pode-se afirmar que, conforme internalizamos a sã doutrina, nossos hábitos devem ser moldados às Escrituras, gerando um ciclo de virtude. Em contrapartida, se internalizarmos narrativas concorrentes (padrões seculares de pensamento), desenvolveremos maus hábitos (vícios), que nos deixarão em péssima forma espiritual, gerando um círculo vicioso. Logo, nossos hábitos revelam muito de quem somos e tornam visível o que ganha a atenção do nosso coração: ou a sã doutrina, ou as narrativas rivais.

2. Roteiros concorrentes

Em nossa cultura, é comum ouvirmos a respeito da importância de desenvolver hábitos saudáveis. Há muitas técnicas e discursos para nos convencer sobre sua relevância, sobretudo tendo em vista a busca por produtividade, sucesso financeiro e bem-estar físico. O objetivo final é a busca por felicidade e a saciedade do coração. O problema é que muito das informações a que somos expostos e conceitos que incorporamos acriticamente são secularizações que tomam o lugar da doutrina cristã em nosso coração e consequentemente em nossos hábitos. Passamos então, a seguir um roteiro concorrente.

O método de arrumação de Marie Kondo, que adentrou as casas por meio dos livros, série na Netflix e até mesmo de exposição nas igrejas nos chamados “culto de mulheres”, promete uma transformação de vida mediante a organização do espaço. Enquanto ensina práticas baseadas na filosofia oriental, destacando a religião xintoísta (com a prática do animismo), indiretamente propaga ensinamentos pautados em ideias consumistas. Ela aborda a ideia de que se um objeto não traz mais felicidade, nos desfazemos dele com a possibilidade de substituí-lo por outro objeto que trará uma felicidade momentânea. O problema aparente do acúmulo e da falta de organização é resolvido por meio de uma pergunta: “Isso nos traz felicidade?” Seguindo o mesmo princípio, que pode transformar-se em hábito, justifica-se uma prática consumista de produtos e de relacionamentos.

Outro exemplo, diretamente ligado à formação de hábitos é a prática da ayurveda, fundamentada no hinduísmo, que promete significativa mudança de vida por meio de hábitos simples implantados na rotina de um dia comum.  É possível citar, ainda, experiências pessoais transformadas em doutrina por líderes religiosos que enfatizam atos meritocráticos, o ativismo em uma corrida desenfreada por produtividade entendida como produção de resultados mensuráveis além da capacidade humana saudável. Excesso de informações rápidas e rasas, entretenimento sem vínculo afetivo, acessível a qualquer instante. Competitividade e individualismo como estilo de vida, declarações que colocam o homem como ator e dramaturgo de sua própria história. Consumo de guloseimas e ultraprocessados na busca rápida por satisfação. Todos esses são exemplos de valores, práticas e maus hábitos que construímos com base no que aprendemos e desejamos no mundo caído que, contudo, nos impedem de interpretar o papel de discípulos de Jesus e nos deixam alheios ao que Deus está fazendo no mundo e quer fazer por nós.

3. Doutrina como hábitos teodramáticos: preparação para o papel

Em contrapartida aos exemplos anteriormente citados, se desejamos participar corretamente do drama da redenção, “devemos nos unir às missões do Filho e do Espírito com todo nosso ser: mente, mãos e coração” (VANHOOZER, 2016, p. 122). Nesse contexto, conforme mencionado anteriormente, Vanhoozer aponta o conceito de dieta da doutrina, ligando o conhecimento das Escrituras ao cultivo de bons hábitos.

Indo um pouco além, o autor argumenta como o Espírito usa a doutrina para fazer discípulos com boa forma espiritual, transmitindo-lhes hábitos intelectuais e imaginativos íntegros. A ideia básica é que as doutrinas sejam hábitos imaginativos, indispensáveis para o entendimento do significado do teodrama e o preparo para desempenho do nosso papel. Para exemplificar, o autor cita a doutrina da criação, que não é uma simples proposição sobre a origem do cosmos. Essa doutrina dirige os discípulos para que criam, vejam, sintam e julguem tudo o que existe como obra de um Deus pessoal, amoroso e sábio. Desse modo, a doutrina da criação nos educa para nos imaginarmos como de fato somos, dependentes de Deus, não = autores, mas receptores da nossa natureza e destino. Ela também nos dirige para associarmos tudo o que existe, incluindo a nós mesmos, às noções de contingência, finitude, mas também de bondade. Como consequência, ela promove certas práticas, como, por exemplo, a oração, um hábito que expressa nossa total dependência de Deus. Essa doutrina forma outros hábitos também. Como exemplo, segundo o autor, os que tem entendimento dessa doutrina poderão ver, sentir e julgar a natureza como dimensão da ordem criada de Deus, sendo menos propensos a explorá-la, desperdiçá-la ou destruí-la. (VANHOOZER, 2016, p. 392-393). A contribuição do autor mostra como a absorção da doutrina (criação) produz hábitos, como a oração e o cuidado com toda a natureza. 

Portanto, ao invés de nos rendermos à doutrina humanista, devemos cuidadosa e intencionalmente garantir a centralidade do Evangelho em nossas igrejas, inclusive nas reuniões de mulheres e de crianças, bem como em nossa vida ordinária. A partir disso, confiar que o Espírito Santo por meio da sã doutrina, gerará hábitos em nós que serão expressões da internalização da doutrina e que nos capacitarão para nossa atuação no teodrama. “O drama da doutrina consiste na direção do Espírito Santo para que a igreja participe corretamente da ação evangélica por meio da encenação de seu roteiro oficial.” (VANHOOZER, 2016, p. 118)

Se pensarmos na prática das disciplinas espirituais apontadas por Richard Foster, veremos que há aquelas que nos auxiliam a aprofundar o conhecimento, como o estudo, assim como há aquelas como serviço, respostas à compreensão de quem somos em Cristo e, portanto, do nosso papel oficial no drama das Escrituras. 

Considerações finais

Nossa cultura está carregada de roteiros opositores que concorrem pela nossa atenção. Ao mesmo tempo, observa-se nos últimos anos uma secularização da doutrina nas igrejas cristãs com disseminação de práticas humanistas estranhas às Sagradas Escrituras. Precisamos de conhecimento da doutrina para escolher um estilo de vida contracultural. É necessário combater essa secularização dando centralidade às Escrituras em nossas reuniões, permitindo que o Espírito Santo produza em nós hábitos condizentes com nossa atuação como discípulos de Cristo no teodrama.


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Referências Bibliográficas

FOSTER, Richard. Celebração da disciplina: o caminho do crescimento espiritual. Tradução: Marson Guedes. 2. ed. São Paulo: Editora Vida, 2007. 304 p.

SMITH, James K. A. Desejando o Reino: culto, cosmovisão e formação cultural. Tradução: A. G. Mendes. 1. ed. São Paulo: Editora Vida Nova, 2018. 240 p.

SMITH, James K. A. Você é aquilo que ama: o poder espiritual dos hábitos. Tradução: James Reis.1.ed. São Paulo: Editora Vida Nova, 2017. 256 p.

VANHOOZER, Kevin J. O drama da doutrina: uma abordagem canônico-linguística da teologia cristã. Tradução: Daniel de Oliveira. 1.ed. São Paulo: Editora Vida Nova, 2016. 512 p.