O Livro sem palavras: a defesa da fé na linguagem da criança

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Escrito por Ana Ester Correia Madeira de Souza , estudante do Programa de Tutoria – Turma Avançada 2020

INTRODUÇÃO

Você já tentou enganar uma criança? Enquanto adultos muitos de nós não fugiríamos de uma “boa conversa” para garantir um determinado comportamento de uma criança – seja para comer comidas saudáveis ou para aprender a dividir um brinquedo. Agora, tente o contrário: por mais que uma criança procure, ela não consegue fazer o oposto, não é difícil perceber quando ela está tentando enganar, porque são cheios de sinceridade.

Mas por que falar disso? Charles H. Spurgeon, o príncipe dos pregadores, no auge do seu ministério se importou com as crianças, pois entendia que se a conduzisse a crer em Cristo iria interferir diretamente na vida adulta, tornando-os mais constantes e firmes em suas convicções (cf. Provérbios 22:6). E Deus o inspira a criar o que, talvez, possa ser a forma mais simples de explicar Cristo e sua missão para qualquer pessoa: o Livro Sem Palavras. Inicialmente, só tinha quatro cores, mas mesmo sendo adaptado ao longo dos anos, nunca perdeu a sua essência, ele carrega consigo o poder restaurador do Evangelho. Sua simplicidade apresenta um elo com o método trinitário de apologética, revelando que a defesa da fé em Cristo diante do mundo tem relação não somente com a nossa experiência, mas também com as Escrituras: é a fé e a razão andando juntas. Michael Reeves, em Spurgeon sobre a vida cristã comenta que

ele escrevia e falava com tal naturalidade, que facilmente poderia ser confundida com frívola simplicidade. Spurgeon sabia que considerar a dificuldade de estilo o verdadeiro indicador de profundidade não passa de um erro dos intelectualmente orgulhosos (REEVES, 2019, p. 22).

Nesse artigo, a intenção é traçar um paralelo entre o Livro Sem Palavras e o Método Trinitário de Apologética (BRAUN JUNIOR, 2019), buscando identificar não somente um “método” de defesa da fé, mas o quando o compartilhar da fé pode ser simples e sincero se pensado na perspectiva da criança. Não se trata de elaborar grandes argumentos, trata-se de ter a Trindade como parâmetro único e suficiente para apresentar Cristo para o mundo.

APOLOGÉTICA TRINITÁRIA: DO QUE SE TRATA?

A apologética trinitária é o equilíbrio de duas tradições apologéticas que tinham enfoques diferentes e que não deixam de ter a sua importância: o enfoque defendido principalmente por Cornelius Van Til e o outro defendido por Herman Dooyeweerd, cada um deles com outros autores. Os pontos de contato entre Van Til e Dooyeweerd fundamenta uma ideia importante nesse artigo, no sentido de entender a apologética a partir da Trindade que atua como condição de possibilidade.

A apologética lida com conflitos. Para Cornelius Van Til ela não pode existir como fonte de evidências, porque segundo ele qualquer princípio da natureza ou da história não pode ser corretamente interpretado por um não cristão. Portanto, Braun Junior (2019) observa que Van Til parte da teologia e faz uma crítica transcendente para defender que só é possível defender a fé se você passou pelo processo de conversão, passando a confundir o conhecimento teológico com o filosófico, produzindo uma racionalidade absoluta e levando a abordagens dogmáticas e reducionistas, porque passa a não abranger a totalidade do que são as Escrituras, ao contrário da crítica transcendental, ponto de vista defendido por Dooyeweerd.

Partindo da filosofia, Herman Dooyeweerd observa que a posição de Van Til é dogmática, ou seja, não passou por uma crítica. Para ele, um apologista cristão precisa ser mais crítico com a autonomia do pensamento, porque a nossa capacidade teórica foi afetada pela queda. Isto quer dizer que é necessário um diálogo maior com os não cristãos, algo que uma a crítica transcendental pode gerar, porque a Bíblia é mais que um livro teórico, ela nos resguarda da apostasia e revela a importância da ordem criada que pode ser utilizada como ponto de contato com os não-cristãos.

O ponto de encontro dessas duas abordagens encontra-se na visão de Stoker que observa que uma complementa a outra ao entender que sem Deus realmente não conhecemos as coisas, ao mesmo tempo em que uma compreensão entrelaçada da criação rompe com a ideia de que o pecado estragou tudo, porque mesmo tendo afetado a criação, ele não mudou o plano redentivo de Deus. O homem mantém o contato com o Criador, mas o interpreta de maneira errônea (cf. Romanos 1.25).

Sem deixar de partir de um ponto de vista reformacional, Stoker aproxima-se da crítica transcendente vantiliana através da primazia da fé religiosa em relação à teoria filosófica. Também destaca a unidade entre revelação, revelada e receptor que mantém indissociável a revelação bíblica daquela presente na experiência temporal, bem como as consequências niilistas de tentar compreender a realidade sem os pressupostos bíblicos (DULCI, 2020).

A realidade nos mostra que só conseguimos entendê-la de um ponto de vista trinitário. Isto quer dizer que defender a fé sem a Trindade é apenas teoria, assim como defender a fé sem pontos de contato com não cristãos é entrar num ciclo dogmático que não passou por uma crítica transcendental.

O LIVRO SEM PALAVRAS: APOLOGÉTICA É PARA CRIANÇAS

O Livro Sem Palavras é conhecido em meio ao Ministério Infantil, mas talvez poucos saibam da sua criação. Charles Spurgeon o apresentou como um sermão em 1866 e, em 1880, o material era amplamente divulgado em orfanatos, escolas dominicais e missões transculturais. Mas qual é o seu conteúdo? O príncipe dos pregadores contava que “esperava que todos o conhecessem e o entendessem, mas que não continha nem uma só palavra” (SPURGEON, 1866, p. 2).

Inicialmente composto por três páginas: preta, vermelha e branca, lembrando a criação afetada pelo pecado, o plano redentor de Cristo e a justificação por meio do Seu sacrifício. Hoje, alguns movimentos de evangelização infantis, acrescentam outras cores como o dourado, a cor da Cidade Celestial (cf. João 14.1-2), e o verde, indicando nossa responsabilidade no processo de santificação (cf. 2 Pedro 3.18).

O Livro Sem Palavras carrega consigo uma forma completa de entender o plano da salvação, compreensível, inclusive às crianças. Um sermão completo porque evidencia nosso início em Deus, nossa condição causada pela queda e a nossa redenção por meio de Jesus, um plano que restaura nossa relação com Deus, conosco e com o próximo – as três relações fundamentais do indivíduo. Essa completude do plano da salvação, como Spurgeon bem a expõe, tem tudo a ver com a compreensão trinitária da fé cristã.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A doutrina da Trindade é o ponto de partida insubstituível para o apologeta, e o Livro Sem Palavras carrega em si essa completude, porque enfatiza as ideias-base distintas (da revelação, da lei e da criação) apresentadas na filosofia calvinista. Sendo assim, esse pequeno sermão carrega a simplicidade de um plano complexo, compreensível à linguagem não só da criança, como também do adulto.

Defender a fé para uma criança é apresentar a ela um caminho difícil de se trilhar, mas incrível quando se trata de participar de uma nova vida em Cristo. Para viver uma vida plena com Deus, consigo mesmo e com o próximo, é preciso enxergar-se numa realidade caída, mas que a Trindade, como condição de possibilidade para toda existência resgata através do sacrifício de Cristo.


REFERÊNCIAS

BRAUN JUNIOR, Guilherme. Um método trinitário neocalvinista de apologética: reconciliando a apologética de Van Til com a filosofia reformacional. Brasília, DF: Monergista, 2019.

DULCI, Pedro Lucas. Videoaulas do Módulo 05 da Tutoria Avançada do Invisible College, 2020.

REEVES, Michael. Spurgeon sobre a vida cristã: Vivificado em Cristo. Trad. Hélio Kirchheim. Brasília, DF: Monergismo, 2019.

SPURGEON, Charles H. O livro sem palavras. Projeto Spurgeon: pregamos a Cristo crucificado, Traduzido por Armando Marcos Pinto, Sermão 3278, Volume 47.

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