O oceano numa colher de chá: a humildade perante a multiforme expressão do Reino

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Escrito por David Nunes Balotin, estudante do Programa de Tutoria – Turma Avançada 2020

INTRODUÇÃO

Após criar o homem, Deus diz que não é bom que o homem viva sem companhia (Gn 2:18). Podemos então presumir que o homem fora criado para viver não sozinho, mas gozando de uma vida comunitária. Além do exemplo mais óbvio sobre o amor ao próximo, que podemos encontrar desde o decálogo até mesmo na primeira epístola universal de João (1Jo 4:20), o próprio conceito de ‘corpo de Cristo’, apresentado por Paulo (1Co 12:27) nos fala muito sobre a importância da comunhão mesmo em meio a diversidade. Quando falamos sobre comunhão, estamos falando de realização em comum pelas partes presentes, de envolvimento, de interação, portanto, obviamente o diálogo terá um papel fundamental nesta relação.

Mas sabemos que o ser humano é complexo em seus entendimentos e em suas expressões, e quando falamos acerca de nosso conhecimento e interpretações sobre Deus a tendência desta complexidade é se aprofundar ainda mais. O objetivo deste breve ensaio é justamente abordar o conhecimento de Deus pelas nossas limitadas mentes e o diálogo com o próximo.

1. O CONHECIMENTO DE DEUS E A MENTE HUMANA

A busca pelo divino é uma tônica inegável da humanidade que se desenha de diversas maneiras. Talvez a mais evidente seja o fato de que mesmo tribos e civilizações isoladas sempre têm suas expressões religiosas, e este não é um caso isolado que ocorre ocasionalmente, na verdade esta é a regra da natureza humana. Obviamente alguém poderia alegar aqui que a natureza humana, devido ao pecado, se encontra caída, portanto, tende ao erro, porém isto só seria válido se partíssemos do pressuposto bíblico que nos relata sobre esta Queda, onde um Deus criou a humanidade e, em determinado momento, esta, a humanidade, se afastou do que lhe havia sido ordenado, caindo no pecado, logo esta é uma hipótese auto excludente, pois para negar o ponto, acabaria confirmando-o.

Entendendo este desejo humano, expresso amplamente por toda a nossa história, percebemos então que não só a busca pela religiosidade existe por nossa parte mas que, se fomos cuidadosamente engenhados por Deus, este nos preparara com estas funções cognitivas as quais são capazes e anseiam por conhecer a Deus, portanto o interesse nesta relação nos vem principalmente pela natureza que em nós fora desenvolvida pelo próprio Deus, por isso talvez esta crença não seja racionalmente desenvolvida, antes é formada em nós (PLANTINGA, 2014, p. 18). Então Deus teria intenção de se revelar e relacionar, ou seja, não é um ponto que parte de nós, antes nos vem pela formação divina.

A grande questão agora seria, portanto, como colocar o oceano, a saber, o conhecimento de Deus, em uma colher rasa de chá, neste caso, nossa mente. Mas então, estaríamos fadados a não entender nunca sobre Deus? Plantinga mesmo nos diz que Deus visaria que fôssemos capazes de estar cientes das verdades principais acerca dEle (PLANTINGA, 2014, p. 25). Perceba que mesmo apenas uma colher de chá do oceano contém, essencialmente, o oceano, porém não contém nem de perto toda a plenitude que nele há.

Qual a saída? Ora, conseguir mais colheres! Cada colher ainda conterá água, e muitas coisas em comum com todas as outras, mas terá também partículas e elementos únicos, e esta é a maior beleza da pluralidade, poder abarcar e enriquecer ainda mais a diversidade de conteúdo, e talvez esta seja a mais bela verdade sobre o corpo de Cristo, sua diversidade é também uma força que nos leva a, pouco a pouco, cada vez mais, nos relacionarmos com Deus também no conhecimento deste, porém, inegavelmente chegaríamos num ponto complicado de colocar uma baleia azul, a qual pode chegar a medir até trinta metros, em uma colher, e a partir daqui precisaríamos estar cientes de que talvez fosse algo muito além de nossa colher.

2. DIÁLOGO E IMAGINAÇÃO

Perceba quão infantil seria se, no exemplo anterior, fosse levantada uma discussão para saber qual das colheres haveria mais do oceano, se a que possui algumas algas ou a que possui simplesmente água. Ora, em uma colher de chá cabe o que cabe em uma colher de chá, e ponto, logo a qualidade de ‘oceano’ garantido ao que se encontra na colher não deve ser tomado pela sua quantidade, mas sim pela sua essência. É precisamente o que ocorre repetidas vezes em nossos debates, não estamos preocupados em estabelecer um diálogo, estamos preocupados em estabelecer quem tem mais oceano em sua colher.

Deus nos diz para amarmos o nosso próximo, logo, quando vemos pessoas passando fome, a atitude de amor seria estender a mão de alguma forma para auxiliar. Quem ama mais, quem tira o alimento de sua casa para ajudar um faminto, ou quem doa parte de seus bens que não lhe faltam para levar alimento ao faminto? Claro que a pessoa que sacrifica mais obviamente pode estar sendo movida de um amor maior, mas eu não posso dizer que a pessoa que também ajuda, porém com sacrifício menor, não esteja sendo movida por amor, na verdade apenas Deus pode julgar esta situação, porque até mesmo quem deixa de se alimentar para dar o alimento ao próximo pode o estar fazendo como um sacrifício egoísta, achando que isto é o necessário para alcançar uma eternidade confortável com Deus. O que determina se há ou não oceano na colher não é a quantidade, mas a qualidade.

Fomos dotados por Deus de uma imaginação incrível, e talvez a intenção dEle tenha justamente sido nos dar a liberdade de expressar o seu reino de maneiras distintas, sem que estas firam o mandamento original. Uma pessoa que se alegra expressa esta alegria de diversas maneiras (GOHEEN, BARTHOLOMEW, 2016, p. 69), e nenhuma delas necessariamente significa mais ou menos alegria, ou ainda tristeza, é apenas mais um sinal da riqueza da criação de Deus! Portanto levando em conta a imensidão de Deus, compreendemos que a nossa imaginação é uma ferramenta belíssima pela qual Ele nos garante as multiformes expressões de seu reino.

3. A FORMA DO CONHECIMENTO DE DEUS E A RÉGUA DAS TRÊS PERSPECTIVAS

O perigo da liberdade reside na falta de instrução. Se dissermos então, que toda colher de chá conterá o oceano, claramente não demoraria muito para colheres cheias de sabe-se lá o que alegarem conter também o oceano. Rapidamente então cairíamos novamente no debate de qual colher tem mais do oceano. O problema não está em dizer que há um Deus, que há Verdade, e que há maneiras certas e erradas de se fazer a coisa, o problema está em colocar uma forma como Deus, o que acaba trazendo uma absolutização errônea, como nos alerta Dooyeweerd (DOOYEWEERD, 2018), só que esta nos vem com um rótulo de cristianismo.

Paulo lutou praticamente toda a sua vida apostólica contra os judaizantes que, dizendo estar pregando a Lei, usavam a religiosidade para criar distinção entre os judeus e gentios. Paulo nos alerta, na carta aos Gálatas que estas obras não procediam do Espírito, antes eram obras da carne. Perceba, que mesmo algo que poderia supostamente ser bom, se envenenava em sua fonte simplesmente por suas motivações estarem enraizadas em motivos básicos idólatras, que colocavam a Lei como a salvação.

Uma contribuição muito interessante da pós-modernidade foi justamente a ideia de que não há neutralidade (VANHOOZER, 2003, p.3), até mesmo o modo de apresentar demonstrará a preferência de quem as apresenta. Até mesmo em Dooyeweerd já podemos encontrar facilmente esta ‘não neutralidade’, quando este nos traz o conceito de motivo básico (DOOYEWEERD, 2018). Não existem ideias ‘neutras’, as ideias seguirão a mesma motivação que seus pregadores carregam. Portanto devemos sim estar mais abertos para a pluralidade, porém com julgamento e atitude adequada.

John M. Frame nos conta de um debate entre Gordon H. Clark e Cornelius Van Til (FRAME, 2010, p. 37) onde claramente o maior envergonhado foi o testemunho cristão. Tentar entender o conteúdo da colher do meu irmão com humildade e mansidão é uma postura desejável e cristã a qual não podemos continuar relegando, de igual maneira partir do pressuposto de que eu sim estou correto, tornando obviamente meu irmão errado, já claramente demonstra que não estou sendo movido por um espírito manso, e nem que estou preocupado em ouvir meu irmão.

Ainda que meu irmão realmente venha discordar de mim de maneira inegavelmente herética, totalmente fora de qualquer conciliação com a palavra, esfregar a ortodoxia na cara dele provavelmente não será a maneira adequada de dialogar. Se há um motivo básico proveniente de um coração apóstata, sabemos que todo o conceito que move nosso irmão será pré-teórico, demonstrar discordância com mansidão, expondo o ponto, e seguindo a vida em paz, aguardando que o Espírito mude o coração de nosso irmão me parece muito mais efetivo, e inteligente, do que tentar debater o argumento de fora para dentro.

CONCLUSÃO

Deus dotou o homem de imaginação, e a igreja, enquanto corpo de Cristo, tem muitos membros, os quais operam cada um dentro de sua função. O cristianismo exercido na Alemanha deve ser, na essência, o mesmo exercido em Gana, que por sua vez deve ser, na essência, o mesmo exercido no Brasil, porém, em cada colher há uma pequena porção do oceano, em cada situação Deus opera de uma maneira específica, e cada membro do corpo age de uma maneira específica, isto não faz com que cada colher tenha menos do oceano, e nem que um membro faça menos parte do corpo que outro, por isso cabe a nós entendermos esta pluralidade e partirmos o nosso diálogo não de um ponto onde evidentemente estamos corretos e nosso interlocutor está errado, mas sim de um ponto onde a nós interessa conhecer nosso irmão.


BIBLIOGRAFIA

BÍBLIA, Antigo e Novo Testamento; tradução King James Atualizada – São Paulo: Abba Press, 2012

FRAME, John M. A doutrina do conhecimento de Deus. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010.

PLANTINGA, Alvin; TOOLEY, Michael. Conhecimento de Deus. São Paulo: Vida Nova, 2014.

VANHOOZER, Kevin J. The Cambridge Companion to Postmodern Theology. Cambridge: Cambridge University Press, 2003.

DOOYEWEERD, Herman. No crepúsculo do pensamento ocidental: estudo sobre a pretensa autonomia do pensamento filosófico, tradução Guilherme de Carvalho e Rodolfo Amorim de Souza – Brasília, DF: Editora Monergismo, 2018.

GOHEEN, Michael W.; BARTHOLOMEW, Craig G. Introdução à cosmovisão cristã: vivendo na intersecção entre a visão bíblica e a contemporânea. Tradução de Marcio Loureiro Redondo – São Paulo: Vida Nova, 2016.

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