Praticando o cânon: oração, teodrama e a espiritualidade cotidiana

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Escrito por Bruno Mambrim Maroniestudante do Programa de Tutoria 2020 – Turma Avançada


Introdução: vivacidade teológica, Vanhoozer e o Drama da Doutrina

A relação teologia e espiritualidade comunitária, concreta e cotidiana costuma ser vaga, pragmática e até inoperante. A essa interação “sem jeito” subjaz a separação entre teoria e prática. Isso implica em impasses tanto teológicos quanto eclesiásticos e de discipulado. Este dilema é corriqueiro: “O que as Escrituras e doutrina têm a ver com o ordinário da vida cristã?”. Um autor contemporâneo que muito contribui no tratar dessa questão é Kevin J. Vanhoozer, particularmente em sua obra paradigmática O Drama da Doutrina: Uma Abordagem Canônico-Linguística da Teologia Cristã

Quem é Kevin Vanhoozer? Vanhoozer, atualmente, atua como professor e pesquisador de Teologia Sistemática na Trinity Evangelical Divinity School (TEDS). Seu trabalho acadêmico e publicações, com início na segunda metade da década de 80, têm se concentrado nas áreas de teologia sistemática, método teológico, hermenêutica e pós-modernismo – além de implicações em eclesiologia e discipulado. É um pesquisador e autor erudito e versátil. Entre os principais títulos de sua bibliografia estão: Há Um Significado Nesse Texto? Interpretação Bíblica: Os Enfoques Contemporâneos; Teologia Primeira: Deus, Escrituras e Hermenêutica; O Pastor Como Teólogo Público: Resgatando Uma Visão Perdida; Encenando o Drama da Doutrina: Teologia a Serviço da Igreja; e, claro, O Drama Da Doutrina. Do que se trata esse último? 

O Drama da Doutrina: Uma Abordagem Canônico-Linguística, é sobre metodologia teológica, um empenho metacrítico, um metadiscurso. Nele, Vanhoozer discorre a respeito do ponto de partida teodrámático evangélico para o labor teológico (a proeminência das Escrituras), a vitalidade e necessidade da doutrina, o risco da ocupação de correntes filosóficas, culturais e ideológicas na produção teológica (vazio de referências), a singularidade da mensagem cristã, entre outros desdobramentos. Vanhoozer pretende responder às questões tais como: qual o princípio primário da teologia? O que a igreja tem a dizer com exclusividade? Onde se encontra a revelação?

1. O contexto da obra: George Lindbeck, o lócus da revelação e o teodrama

Qual o contexto da obra? Vanhoozer publicou O Drama da Doutrina em resposta à obra de George Lindbeck, A Natureza da Doutrina, publicada em 1984. O que propôs Lindbeck? 

O objetivo dele foi analisar três tipos teóricos que explicam onde diferentes grupos encontram a revelação. Ele elenca três modos: 1) proposicionalista-cognitiva, 2) expressivista-experiencial, 3) linguístico-cultural. O primeiro refere-se às doutrinas como afirmações de verdade, proposições informativas. O segundo enfatiza doutrina como símbolo dos sentimentos e atitudes interiores de uma pessoa. E para o terceiro, que Lindbeck subscreve, doutrinas resultam da vivência comunitária/social, seus usos e discursos. Lindbeck se posiciona no pós-liberalismo (terreno da teologia narrativa). Essa abordagem pressupõe que a análise linguística-narrativa compõe as formulações teológicas – daí o nome “linguístico-cultural”. A crítica e contraponto de Vanhoozer, porém, é que apesar da validade do aspecto linguístico, a norma da teologia não é cultural, mas canônica. Essa ênfase reaviva o Sola Scriptura, não como conceito, mas prática e atuação.  Assim, onde está a revelação? Está nas Escrituras, nos atos de fala divinos – no teodrama. Por que teodrama? Vanhoozer desenvolve sua proposta orientada pela metáfora teatral. Wesley Hill explica:

Quando fala acerca da vida da igreja, Vanhoozer sugere que o pastor é o    diretor de palco que assegura que os artistas saibam todas as suas linhas e consigam improvisar quando necessário. Os cristãos individualmente são os atores. A Escritura oferece o roteiro. O teólogo é o ‘dramaturgo’, usando conhecimento especializado sobre atuação e interpretação clássica para orientar a ação do diretor. Existe o teatro de obra-prima (os credos). Existe o teatro local (a congregação) bem como o teatro regional (a denominação ou confissão a que pertence a congregação).

Drama é o curso de ação no teatro. Essa analogia é coerente a um aspecto crucial do evangelho: ele é ação –   palavras e atos de Deus (ou: atos por palavras) que convocam respostas do povo dele. As Escrituras transcrevem os feitos e falas de Deus, entradas e saídas do Senhor que podemos resumir em cinco atos principais. 1) Criação; 2) eleição, rejeição e restauração de Israel; 3) Jesus (o clímax teodramático); 4) Cristo ressurreto, o Espírito e a Igreja; 5) eschaton (consumação). É esse o enredo canônico (da Bíblia toda). Vanhoozer opta pelo drama à narrativa, porque, de acordo com ele, drama não só “diz”, mas “mostra”, o que rompe com a dicotomia teoria/prática. Além disso, desperta ações/respostas da igreja, como convite à participação.

Disso parte a teologia. A teologia encontra na revelação autocomunicativa de Deus seus recursos, afirmações e práticas. Assim, elaborá-la não se dá pelo falar sobre Deus autônoma e independentemente, mas ouvindo com humildade e obediência o que Ele fala sobre si mesmo.

2. Sobre práticas canônicas: roteiro, encenação e oração cristã

É notável que a abordagem canônico-linguística de Vanhoozer não tem limites informativos, mas um apelo prático à encenação. Se a norma teológica é o cânon, ele é, consequentemente, a autoridade que orienta a encenação: o roteiro – direção à linguagem, pensamentos e ações – para a participação no discurso divino e sua encenação (fiel e criativa) em cenários distintos. A encenação da igreja acontece por práticas canônicas. O que seriam? Práticas canônicas são “atividades sociocomunicadoras dirigidas pelo Espírito e regidas por regras, elaboradas com finalidade relativa à aliança” (VANHOOZER, 2016, p. 233). Vanhoozer expõe duas práticas canônicas para a igreja/vida cristã: o olhar para Cristo e a oração. Essa última é o foco deste texto. Em que sentido a oração é prática canônica?

Primeiro, claro, porque figura em todo o cânon, do Antigo ao Novo Testamento. Os Salmos são exemplos notáveis. Segundo: Cristo assegurou e encorajou a prática da oração (Mt 5.44). E sobre isso, Vanhoozer aponta três características marcantes do ensino de Jesus: ela identifica a paternidade divina, além disso, através dela compartilhamos da filiação e herança comuns a Jesus. Por último, as orações de Jesus testemunharam de sua identidade como Filho de Deus (2016, p. 241). Então, quais os frutos da oração – orar com Jesus? Reconhecer e experimentar, pelo Espírito, nossa identidade de filhos de Deus: a segurança da adoção. Vivenciar a família de Deus e reconhecê-lo como Senhor.

O que faz da oração prática canônica singular? Vanhoozer inicia a reflexão citando a obra Word and Church, de John Webster:

O leitor é um ator dentro de uma teia maior de eventos e atividades, no meio da qual é suprema a ação de Deus em que ele, por meio do texto da Bíblia, fala a sua palavra para o seu povo […]. A palavra é dirigida no texto ao leitor como participante desse processo histórico. (2016 apud 2001, p. 77). 

O leitor é participante. Sendo assim, no estopim (ponto crítico) teodramático está a questão: “responderemos ou não? Reconheceremos a Deus por quem ele é e a nós mesmos por quem somos? Oraremos ou não?” (VANHOOZER, 2016, p. 240). Vale destacar que as reações performáticas ultrapassam a cognição.

Esse é um alerta recorrente na obra de Vanhoozer. Os atores respondem comunicativa e espiritualmente. A resposta do autor é decisiva. Orar é imprescindível para a participação dialógica com Deus que fala e age, é prática que supera a leitura passiva de um espectador frente ao cânon, o registro vivo do drama divino. Em Encenando o Drama da Doutrina (sequência de O Drama da Doutrina) ele considera: “A oração é um exemplo de fé que comunica entendimento e ação dialógica divina-humana que impulsiona o drama da redenção. […] Ao orar, o discípulo não apenas observa o teodrama, mas também assume suas falas” (2016, p. 292).  Eugene Peterson em A Oração Que Deus Ouve descreve com clareza e intensidade essa realidade:

Quando nos preparamos para orar em resposta às palavras de Deus endereçadas a nós, aprendemos que todas as palavras divinas possuem essa característica: são torah e nós somos o alvo. A palavra de Deus não é um livro guardado em uma biblioteca, que retiramos da estante quando precisamos de alguma informação. Não há nada de passivo ou formal nessas palavras. Palavras de Deus, cada uma delas criativa e salvadora, nos atingem onde estivermos. (2007, p. 43). 

Pela oração reconhecemos que o Eterno é autor do texto, acolhemos seu discurso e adequamos como atores nossos desejos – ver, sentir, experimentar – aos do dramaturgo, encarnando o evangelho e assumindo nosso papel. E mais: a oração  corresponde declaradamente à “transcendência e proximidade de Deus” (VANHOOZER, 2016, p. 240). Ou seja: orando nos adequamos e conformamos ao caráter do próprio Deus.

Considerações finais: a oração como experiência prosaica do teodrama

A proposta teodramática ressalta e chama atenção para o aspecto todo-abrangente, de proporções cósmicas, da ação de Deus no mundo. Essa metáfora se desdobra com sensibilidade estética e brilhantismo, capturando e comunicando, dentro dos limites epistemológicos e linguísticos dos empreendimentos intelectuais humanos, a magnitude teodramática. A teologia teodramática, com sua abordagem canônico-linguística, porém, resguarda-se de especulações herméticas, sem contato com a vida que corre. Pelo contrário. A teologia, para Vanhoozer, se ocupa com “nossa existência cotidiana (as coisas da vida diária) quanto da nossa cultura (a forma da vida diária com as pessoas). […] reconhece a importância do elemento ‘prosaico’: as práticas corriqueiras de linguagem e vida.” (2016, p. 325).

Vamos ao dilema inicial: “O que as Escrituras e doutrina têm a ver com o ordinário da vida cristã?”. Considerando o caráter ativo e relacional da revelação divina teodramática,  a pergunta deveria ser: “No que o ordinário da vida cristã não tem a ver com as Escrituras e a teologia?”. Absolutamente nada.

Orando, praticando o cânon, vivenciamos cotidianamente, organicamente, entre as contingências diárias, a beleza, amplitude e a glória do teodrama. Orando, respondemos e servimos em aliança o autor do drama todo-abrangente.


Referências bibliográficas

HILL, Wesley. Kevin Vanhoozer, o rei do drama. Disponível em <https://teologiabrasileira.com.br/kevin-vanhoozer-o-rei-do-drama/>. Acesso em 27 jan 2020.

PETERSON, Eugene. A oração que Deus ouve: o livro de Salmos como guia básico de oração. Trad. José Fernando Cristófalo. Curitiba: Palavra, 2007.

VANHOOZER, Kevin J. O drama da doutrina: uma abordagem canônico-linguística da teologia cristã. Trad.  Daniel de Oliveira. São Paulo: Vida Nova, 2016.

____________________. Encenando o drama da doutrina: teologia a serviço da igreja. Trad. A. G. Mendes. São Paulo: Vida Nova, 2016.

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