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Teologia Bíblica: uma resposta aos desafios das igrejas nos dias de hoje

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Escrito por Pedro Rendeiro, estudante do Programa de Tutoria – Turma Essencial 2021

As leituras do Antigo Testamento (AT) e do discipulado cristão têm pelo menos uma característica em comum: ambas tendem a ser subvalorizadas pelas igrejas de modo geral. Partindo da premissa de que as duas práticas supracitadas são instruções bíblicas, é de suma importância resgatá-las de volta para o cotidiano do povo de Deus. O objetivo deste artigo, portanto, é sugerir o estudo da teologia bíblica do AT como uma das ferramentas necessárias não apenas para a valorização do texto veterotestamentário, mas também para a formação de bons discipuladores cristãos.

A melhor maneira de iniciar essa discussão é explicar o que é teologia bíblica. Geerhardus Vos (2019, p. 16) a define como o “ramo da teologia exegética que lida com o processo da autorrevelação de Deus registrada na Bíblia”. O autor também reconhece que o termo “teologia bíblica” pode causar alguma confusão, e até sugerir a falsa ideia de que as demais disciplinas teológicas não precisam ser fundamentadas na Bíblia. Para evitar esse e outros problemas, é preferível “História da Revelação Especial” para nomear a matéria (VOS, 2019).

A fim de demonstrar a relevância da teologia bíblica para nossos propósitos, é interessante destacar o caráter orgânico do processo de revelação. “O progresso orgânico vai do estado germinal até atingir o crescimento pleno” (VOS, 2019, p. 18). É como uma árvore, que, embora comece como uma semente, desenvolve raízes, tronco, árvore e folhas ao longo do tempo (VOS, 2019). Isso significa que, ao longo do curso da história, Deus revelava a si próprio de maneira gradual, mas nunca de modo que uma revelação posterior (galhos e folhas) anulasse uma anterior (tronco e raízes). Um dos motivos pelos quais a revelação se deu dessa maneira é que “tudo o que Deus desvendou de si mesmo veio em resposta às necessidades religiosas práticas de seu povo à medida que essas emergiam no curso da História” (VOS, 2019, p. 20).

Com isso em vista, podemos identificar dois benefícios que a teologia bíblica pode proporcionar à leitura do AT. Em primeiro lugar, o leitor familiarizado com a teologia bíblica é capaz de compreender a ação de Deus no curso de toda a história bíblica. Cada forma de revelação comunicou ideias diferentes e complementares acerca da natureza divina, e é de interesse da teologia bíblica identificar como essas ideias foram transmitidas àqueles que originalmente as receberam. Em segundo lugar, essa compreensão deve levar o cristão a valorizar o Antigo Testamento, uma vez que este contém verdades cruciais sobre o Deus a quem serve. Tais verdades não apenas reaparecem no corpo do Novo Testamento (NT), bem como são a base sobre a qual este foi escrito. Passemos agora para a outra grande área que pode ser beneficiada pela teologia bíblica do Antigo Testamento: a do discipulado cristão.

Para definir discipulado, Jonas Madureira faz uma útil distinção (MADUREIRA, 2019). A palavra “discipulado”, no português, é usada para designar duas coisas diferentes, a saber: (1) o ato de seguir a Jesus, e (2) o ato de ajudar pessoas a seguirem a Jesus. O primeiro ato focaliza o cristão como seguidor (discípulo) de Cristo. Esse processo se inicia com a regeneração, mas perdura a vida inteira (cf. Mc 2:13-14). O segundo, por sua vez, refere-se à ordem de formar outros discípulos, dada a todos aqueles que já seguem a Cristo (cf. Mt 28:18-20). Este artigo trata acerca desse último sentido do discipulado.

Imediatamente, é necessário fazer uma segunda distinção. Observe parte da explicação de Jesus sobre o modo como se deve fazer discípulos: “ensinando-os a obedecer a tudo que lhes ordenei”. Com base nisso, Madureira também diferencia o “discipulado dramático” (MADUREIRA, 2019) do “discipulado gnóstico”. Enquanto este se contenta com a mera transmissão de doutrinas e aplicações teóricas, aquele se preocupa com a assimilação prática da Palavra de Deus na vida do discípulo. Portanto, o verdadeiro ato de ajudar pessoas a seguirem a Jesus é caracterizado por seu caráter dramático. A este ponto, a pergunta que deve ser feita é: “de que maneira a teologia bíblica do AT auxilia o discipulador no cumprimento de sua tarefa?” É a esse questionamento que buscamos responder a seguir.

“A teologia bíblica concede nova vida e vigor à verdade ao mostrá-la a nós em seu ambiente histórico” (VOS, 2019, p. 30). Nesse sentido, a teologia bíblica é um bom antídoto contra o gnosticismo, pois valoriza a doutrina dentro do ambiente de onde ela emergiu. Logo em sequência, Vos afirma que “a Bíblia não é um manual dogmático, mas um livro histórico cheio de interesse dramático. A familiaridade com a história da revelação nos habilitará a utilizar todo esse interesse dramático.” Além disso, quando analisamos o Antigo Testamento, a proeminência dessa dramaticidade na vida do povo de Deus é algo notável.

Um exemplo disso é o sistema religioso estabelecido durante o êxodo do Egito. A teocracia tornava impossível o distanciamento entre a vida cotidiana e a religiosidade de Israel, haja vista que o relacionamento com Deus se dava por meio de rituais que precisavam ser encenados. O elemento mais marcante desse sistema eram, possivelmente, os sacrifícios de expiação, nos quais “o animal sacrificial, na sua morte, toma o lugar do ofertante” (VOS, 2019, p. 205).

Ao perceber como o Antigo Testamento valoriza os elementos dramáticos, e ao considerar o fato que o Deus do AT é o mesmo do NT, os leitores contemporâneos aprendem a importância de serem melhores “atores”. O cristão de hoje tem dificuldade em perceber essa necessidade não porque o caráter dramático da Bíblia tenha diminuído no Novo Testamento, mas porque ele não é tão explícito quanto antigamente. Assim, para não esquecer que Deus chama seu povo como atores, e não apenas expectadores, nada melhor que meditar sobre a revelação de Deus no Antigo Testamento. Isso é fundamental para aqueles que são chamados a discipular outras pessoas, pois é necessário que alguém encene o Evangelho em sua vida a fim de realmente ajudar outros a também o encenarem (MADUREIRA, 2019).

Fica evidente, portanto, como a teologia bíblica do Antigo Testamento é vital para a saúde da igreja em duas áreas que têm estado deficientes. Por um lado, é importante para a compreensão e valorização do texto veterotestamentário; por outro, é útil para relembrar aos discipuladores a natureza dramática do evangelho, extraída das Escrituras desde o Antigo Testamento. Este texto foi uma breve reflexão, mas estou convicto de que ainda temos muito a refletir sobre estes temas que nunca devem ser negligenciados.


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REFERÊNCIAS

VOS, Geerhardus. Teologia Bíblica: Antigo e Novo Testamentos. Trad. Alberto Almeida de Paula. 2ª ed. – São Paulo: Cultura Cristã, 2019.

MADUREIRA, Jonas. O custo do discipulado: a doutrina da imitação de Cristo. – São José dos Campos, SP: Fiel, 2019.

3 comments

  1. Ana Cristina

    Texto muito bem explicado 🙏

  2. Lucas Ferreira Rodrigues

    Pedro, gostei demais do link que você fez entre a Teologia Bíblica, quer dizer, História da Revelação Especial, e o discipulado cristão. Destaco um trecho de seu texto que me chamou muita atenção: “…para não esquecer que Deus chama seu povo como atores, e não apenas expectadores, nada melhor que meditar sobre a revelação de Deus no Antigo Testamento. Isso é fundamental para aqueles que são chamados a discipular outras pessoas, pois é necessário que alguém encene o Evangelho em sua vida a fim de realmente ajudar outros a também o encenarem.”

    1. Pedro Rendeiro

      Oi, Lucas. Obrigado pelo comentário! Fico feliz que tenhas gostado do texto. Graças a Deus por isso 🙌

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