Uma presença pública fiel

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Em Deus na era secular, Timothy Keller nos conta quando participou de um painel da universidade local de Manhattan, nos seus primeiros anos de ministério. Na ocasião teve a oportunidade de conhecer um importante professor universitário e membro daquele corpo docente, com quem teve um interessante diálogo. Embora se descrevesse como uma pessoa secular, o professor “se apegava com firmeza a diversos valores humanísticos” e por isso, complementou, evitava igrejas (2018, p. 245), para a surpresa de Keller.

Para aquele professor, só havia dois tipo de igrejas, dizia ele, a relativista e a legalista: “Ambas são más notícias. Quero uma igreja de mentalidade aberta, mas com valores reais, sólidos. Não consigo encontrar uma igreja com essa combinação” (2018, p. 245). Seu ponto era compreensível, embora, nas palavras de Keller, estivesse “bastante equivocado quanto à inexistência de alternativa para esses dois tipos de igrejas” (2018, p. 245). Há muitas igrejas que se encontram neste quadro, e objeções como a professor não podem ser negligenciadas. Será sempre danoso ao evangelho quando a igreja é criticada não tanto por pregá-lo, mas pela sua falta de coerência entre o seu testemunho ao mundo e as boas-novas que professa tanto acreditar.

Keller reconhece a questão ao colocar que “para cada pessoa que encontrei que se desviou da fé devido à maneira de pensar diferente e à falta de evidências, o número dos que a abandonaram por causa de pessoas da igreja se mostrarem arrogantes, excessivamente confiantes na própria justiça e autoritárias é muito maior” (2018, p. 245). Esse foi um dos motivos que o levou a escrever Deus na era secular.  Em que medida a igreja têm exercido a ordenança bíblica de “salgar” o mundo? “Bom é o sal, mas, se tornar-se insípido, como lhe restaurar o sabor?” (Mc 9:50).

Foi com essa metáfora bíblica em mente que Keller discursou aos membros do Parlamento britânico em julho de 2018 com o tema O que o cristianismo pode oferecer à sociedade no século 21?. Sem sombra de dúvidas as suas palavras são dignas de reflexão:

Quando o sal é disperso na carne (…) por um lado, é saboroso – realça o sabor, realça o melhor da carne. Mas, por outro lado, é um conservante – evita que se decomponha. Mas apenas se o sal for sal, ou seja, apenas se for quimicamente diferente da carne. Se não for quimicamente diferente da carne, então não tem uso algum. A metáfora que Jesus está usando é para dizer aos seus discípulos que os cristãos devem ser dispersos nas sociedades do mundo. (…) E em cada sociedade isso significa que Jesus diz: meus discípulos deveriam estar trazendo o melhor daquela cultura particular e prevenindo suas tendências piores também. Mas apenas se os cristãos permanecerem “sal”, o que é diferente do resto da cultura.¹

Do mesmo modo que o sal tem o papel de realçar aquilo que há de melhor no alimento e ao mesmo tempo preservá-lo para que não se decomponha, os cristãos são comissionados a pregar o evangelho, promover o bem comum e o desenvolvimento da sociedade em termos de “valores morais que cimentam a solidariedade entre as pessoas sobre uma disposição de se doarem em nome de amor, fidelidade, afeto e respeito mútuo” (2019, p. 23). Essa é a condição de possibilidade para a igreja “salgar” o mundo com uma presença pública fiel.


¹ Discurso para o Café da Manhã de Oração Nacional no Parlamento em julho de 2018, no Westminster Hall nas Casas do Parlamento. < https://www.christiansinparliament.org.uk/prayer-breakfast/past-events/>. Acesso em 22 de setembro de 2020.


REFERÊNCIAS

KELLER, Timothy. Deus na era secular: como céticos podem encontrar sentido no cristianismo. Trad. Jurandy Bravo. São Paulo: Vida Nova, 2018.

KUIPER, Roel. Capital moral: o poder de conexão da sociedade. Francis Petra Janssen. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2019.

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