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Vivendo entre eras: Ambrósio, Pai da Igreja

Ensaio escrito por Wladymir Soares de Brito Filho, estudante do Programa de Tutoria Filosófica 2024


Introdução

Viver entre o fim de uma era e o começo de outra não é uma tarefa simples. Construir uma linha de pensamento de segunda ordem coerente, fiel e compreensível em meio a ideias estruturalmente antagônicas é um empreendimento prático e teórico que exige o máximo da capacidade intelectual de um ser humano. Neste contexto, o presente ensaio busca examinar a vida de Aurélio Ambrósio de Milão, considerado um dos Doutores da Igreja. Para tal, primeiro se buscará reconstruir o contexto político do século IV d.C. no qual Ambrósio exerceu seu ministério. Na sequência, após breves notas biográficas, busca-se identificar a relação entre seu motivo-base religioso cristão e a filosofia helenista de seu tempo.

O surgimento de uma nova era

Durante os primeiros trezentos anos de vida da igreja, o ambiente cultural do Império Romano foi hostil à fé cristã. Quando o imperador Constantino se converteu ao cristianismo e o legalizou em 313, e, depois disso, quando o imperador Teodósio tornou o cristianismo a religião oficial do império, em 380, a igreja passou da periferia para o centro (GOHEEN; BARTHOLOMEW, 2016, p. 123). Neste contexto, o século IV d.C. foi um período de intensa produção cultural, filosófica e teológica. No seio do Império Romano, que dentro em breve seria cindido em Império do Ocidente (Roma) e Império do Oriente (Constantinopla), três cidades disputavam a primazia da produção filosófica e teológica: Atenas, Alexandria e Roma.

Com o fim da perseguição oficial aos cristãos, a teologia passa a ganhar importância política cada vez maior no Império (RUSSELL, 2015, p. 46) e nenhuma questão gerava mais divisão do que a Trindade. Assim, por convocação de Constantino, em 325 é realizado em Niceia o primeiro concílio ecumênico da igreja, com o propósito de discutir o significado da divindade de Jesus (NOLL, 2020, p. 52). A doutrina de Ário de Alexandria acerca da natureza criada do Filho foi condenada pela esmagadora maioria dos 230 bispos reunidos em Niceia. Firmou-se, assim, a “ortodoxia nicena”, segundo a qual o Pai e o Filho são iguais e têm a mesma substância, constituindo, porém, pessoas distintas (RUSSELL, 2015, p. 46). Eis a síntese de Justo González acerca da doutrina cristã da Trindade:

Portanto, o Credo niceno declarou que o Filho foi “gerado, não feito” — isto é, não é uma criatura, nem mesmo a primeira das criaturas. O texto acrescenta ainda que o Filho é “Deus de Deus, luz da luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus”. Embora qualquer dessas declarações seja suficiente para excluir o arianismo, o interesse imediatamente recaiu sobre a afirmação de que o Filho é “da mesma substância — homoousios do Pai”… o termo logo tornou-se a marca característica da ortodoxia nicena (GONZÁLEZ, 2015, p. 98).

Esta controvérsia religiosa foi o estopim para o ressurgimento de questões políticas até então adormecidas no seio do Império Romano, que se viu diante de um impasse: Constantinopla e Ásia se inclinaram ao Arianismo, enquanto o Egito e o Ocidente aderiram aos decretos do Concílio de Niceia (RUSSELL, 2015, p. 47). É neste contexto de defesa da ortodoxia nicena que Aurélio Ambrósio exerce o seu ministério, contribuindo para consolidar a independência da Igreja em relação ao Estado secular, que perdurará por toda a Idade Média (RUSSELL, 2015, p. 49).

Ambrósio, Doutor da Igreja

Aurélio Ambrósio nasceu em 334 na província de Tréveris, no seio de uma família romana cristã. Seu pai fora um oficial de alto escalão do Império, prefeito pretoriano de Gália (RUSSELL, 2015, p. 50). Aos treze anos, chegou em Roma, recebendo ali educação em gramática, literatura greco-romana e retórica, além de sólida formação religiosa para catecúmenos (VIEIRA, L.; VIEIRA, V., 2020).

Já adulto, Ambrósio voltou-se ao Direito, área em que prosperou. Aos 34 anos de idade, contudo, abandona sua posição de prefeito consular da Ligúria e Emília, e, assumindo grande risco pessoal, é aclamado Bispo pelo povo da cidade de Milão, em 374. Doa, então, todos os seus bens aos pobres e passa a dedicar sua vida ao serviço da Igreja, fazendo isso até sua morte, em 397 (RUSSELL, 2015, p. 50). Ambrósio dedicou seu tempo e habilidades para moldar e esclarecer princípios da ortodoxia nicena por meio de epístolas, sermões, tratados e, principalmente, hinos populares. Suas obras apresentavam preocupações teológicas, morais e políticas e traziam explicações sobre a natureza divina e sobre a Bíblia (POHLMANN, 2018).

A rica correspondência entre Ambrósio e os imperadores romanos Flávio Graciano, Valentiniano II e Teodósio I, em muito preservada, nos revela um multifacetado pastor, erudito e homem de ação. Durante todo o seu período de bispado em Milão, fica clara sua firme convicção de que o cristão deveria seguir as leis civis – se estas não ferissem as leis divinas (RUSSELL, 2015, p. 55). Um destes episódios marcantes da luta de Ambrósio pela independência da Igreja frente ao poder do Império se deu no “Conflito das Basílicas”, cujo desfecho é assim comentado por Janira Pohlmann:

Locais de culto estavam em jogo. Autoridades foram testadas e reconstruídas. Ambrósio foi bem-sucedido ao não entregar nenhuma de suas igrejas aos arianos. Como já observamos, estes confrontos foram registrados por Agostinho e Paulino, o que fez a vitória de Ambrósio sobre o partido ariano e as forças imperais ser propagada pelas letras. A autoridade episcopal foi fortalecida, os espaços físicos para a pregação da fé nicena ambrosiana foram preservados e a ortodoxia desta crença ganhou pontos positivos no jogo pela conquista da legitimidade (POHLMANN, 2018).

Este esforço de Ambrósio em preservar certa autonomia da igreja é também exemplificado pelo episódio da “Penitência de Milão”, assim relatado por Mark Noll:

Após uma disputa entre o imperador e o bispo envolvendo a conduta de Teodósio quanto a uma colônia do império, Ambrósio recusou-se a permitir que Teodósio participasse da comunhão até que o imperador confessasse publicamente a sua ação pecaminosa. Quando Teodósio resistiu, Ambrósio supostamente respondeu: “O imperador está na igreja, não acima dela.” Em outras palavras, quando se tratava dos ritos mais sagrados da igreja, Ambrósio queria tratar até mesmo o imperador como um cristão comum (NOLL, 2020, p. 65).

Do ponto de vista filosófico, a vida de Ambrósio é igualmente interessante. John Rist relata que havia em Milão, à época o mais importante centro do pensamento cristão do Ocidente, um importante e influente círculo de literatos e filósofos interessados pelo neoplatonismo de Porfírio, discípulo de Plotino (RIST, 1996, p. 464). Dentre os integrantes deste círculo neoplatônico de Milão estava Simpliciano, sacerdote responsável pelo batismo de Ambrósio e influente sobre a vida de Aurélio Agostinho. É possível que daí venha o diálogo de Ambrósio com o neoplatonismo, perceptível pela sua referência a conceitos como o corpo enquanto cárcere da alma e o desejo de fuga deste mundo (MORESCHINI, 2008, p. 432).

Há também uma influência da Estoa de Zenão em suas obras, quando este apregoa a extirpação das paixões e a busca das virtudes como meios do indivíduo alcançar a felicidade (VIEIRA, L.; VIEIRA, V., 2020). Em sua vertente latina, já com Cícero, o conceito greco-romano de officium é ressignificado por Ambrósio, conforme apontam Dario Antiseri e Giovanni Reale:

A originalidade de Ambrósio é detectada sobretudo nos escritos ético-pastorais. A esse respeito, deve-se assinalar o seu De Officius ministrorum (que, além disso, se inspira em Cícero), no qual identifica o officium médium, com os mandamentos divinos, que valem para todos, e o officium perfectum, com os conselhos de perfeição, que valem para os santos. Com Ambrósio, o conceito greco-romano de officium (criado pela Antiga Estoa, posto em primeiro plano pelo filósofo médio-estoico Panécio e, em âmbito latino, por Cícero) é assim repensado em chave cristã e se torna categoria moral estável do Ocidente (REALE; ANTISERI, 2017, p. 442).

Se por um lado é possível identificar a influência de diversas correntes filosóficas no pensamento de Ambrósio, é também verdade que o Bispo de Milão se valia de maneira apenas instrumental da filosofia. Sobre esta rejeição de uma síntese entre cristianismo e neoplatonismo, observa Cláudio Moreschini: 

Se ele, apesar disso, não hesitou em se servir da filosofia, é um sinal da sua suprema confiança intelectual, baseada nas certezas da sua fé. Como observa P. Brown, Ambrósio se serviu da filosofia pagã e empregou suas conclusões, porquanto elas eram úteis para a sua oratória sagrada e o seu ensinamento moral. Pépin afirma que Ambrósio era um bispo a quem a atividade pastoral não impediu de dedicar tempo às suas leituras filosóficas: foi capaz de fazer uma escolha e de manusear de modo pessoal os elementos de diversas origens e de elaborar de modo inteligente observações que a tradição escolar não lhe oferecia naquela forma precisa. Portanto, não temos de lidar com uma síntese entre cristianismo e filosofia, à moda dos alexandrinos… O emprego da filosofia era influenciado por seu desejo de mostrar que essa síntese era impossível, por causa da imensa superioridade da religião cristã (MORESCHINI, 2008, p. 438-439).

Portanto, assim como Paulo se vestia das vestes da filosofia helenista para comunicar seu pensamento hebraico a um público maior (JOHNSON, 2022, p. 257), é possível identificar em Ambrósio similar esforço.

Conclusão

Identificar os legítimos pontos de diálogo e de antítese entre a fé cristã e o rio cultural no qual se está inserido é algo reservado aos grandes de cada época. A segunda geração de Pais da Igreja, não mais judeus ou falantes da língua grega, mas latinos, possui exemplos importantes desta empreitada. Os séculos de reflexão acerca da obra de Jerônimo, Gregório, Ambrósio e Agostinho são capazes de nos revelar os comprometimentos helenísticos no pensamento destes Doutores da Igreja. Isso não deve, contudo, ser motivo de menosprezo, mas, sim, de farol e incentivo a que os discípulos de Cristo hoje, mergulhados na pós-modernidade, honrem o Evangelho como estes irmãos do passado o fizeram. 


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Referências bibliográficas

GOHEEN, Michael W; BARTHOLOMEW, Craig G. Introdução à cosmovisão cristã: vivendo na intersecção entre a visão bíblica e a contemporânea. Tradução de Marcio Loureiro Redondo. Sâo Paulo: Vida Nova, 2016, p. 272p.

GONZÁLEZ, Justo L. Uma breve história das doutrinas cristãs. Traduzido por José Carlos Siqueira. São Paulo: Hagnos, 2015, p. 255.

JOHNSON, Dru. Filosofia bíblica: a origem e os aspectos distintivos da abordagem filosófica hebraica. Tradução de Igor Sabino. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2022, p. 400.

MORESCHINI, C. História da Filosofia Patrística. Trad. Orlando Soares Moreira. 2ª ed. – São Paulo: Edições Loyola, 2008, 784p. 

NOLL, Mark A. Momentos decisivos na história do Cristianismo. Tradução de Alderi Souza de Matos. São Paulo: Cultura Cristã, 2000, p. 384.

POHLMANN, J. F. Os hinos de Ambrósio e a formação de uma identidade cristã nicenaMosaico, v. 11, n. 2, p. 111, 21 ago. 2018.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. Filosofia: Antiguidade e Idade Média, vol. I. Tradução de José Bortolini. Ed. rev. e ampl. São Paulo: Paulis, 2017. 697 p.

RIST, John. Plotino e a filosofia cristã. In: GERSON, Lloyd P. (org.). Plotino. 2ª ed. Trad. Mauricio Pagotto Marsola. São Paulo: Ideias & Letras, 2017, p. 443-473.

RUSSELL, Bertrand. História da filosofia ocidental – Livro 1: A filosofia antiga. Tradução de Hugo Langone. 1ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015. 363 p.

VIEIRA, I. L.; VIEIRA, V. DA S. Patrística ambrosiana: aspectos filosóficos e contribuições para a Teologia. REFLEXUS – Revista Semestral de Teologia e Ciências das Religiões, v. 14, n. 2, p. 623–635, 14 dez. 2020.