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Apologética Cosmovisionária pra Vida Ordinária: a esperança da eternidade em meio ao sofrimento temporal

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Escrito por Kaiky Fernandez, estudante do Programa de Tutoria – Turma Essencial 2021

1. Introdução

Em algum nível, toda e qualquer pessoa já passou por uma experiência de sofrimento. Isso faz parte da nossa realidade. É algo que não podemos ignorar, tampouco escapar, ainda que esse talvez seja o nosso desejo em muitas situações. 

Seja a nível coletivo, como uma pandemia, ou a nível individual, como um problema de relacionamento, o sofrimento sempre estará presente em nossa vida. 

2. Fazendo as perguntas certas

O dicionário Michaelis¹ define o termo “sofrer” como “ser atormentado por dores físicas e morais; padecer; aguentar algo com conformação e paciência; tolerar; ser alvo de algo”. Nesse sentido, acho que fazer duas perguntas podem ser importantes para nós. Primeiramente, “por quê?”. Em segundo lugar, “o quê?”.

Se o sofrimento é algo que nós suportamos, que nós aguentamos, então precisamos compreender o porquê (sua causa) e o que (o objeto dele). Parecem duas coisas semelhantes, mas existem suas distinções.

O autor Lesslie Newbigin (2016, p. 31) nos chama a atenção para uma questão muito importante: “O modo como entendemos a vida humana depende da concepção que temos da história humana. Qual é a verdadeira história da qual minha história faz parte?”

Compreender essa metanarrativa na qual nossa história faz parte é fundamental para responder à primeira pergunta. Michael Goheen e Craig Bartholomew (2016, p. 62) nos ajudam a compreendê-la de forma simples:

“No anúncio da chegada do reino temos o grande enredo do drama das Escrituras: (1) Deus (em Cristo e pelo Espírito) cria o mundo; (2) o pecado debilita, deturpa e arruína a criação; (3) Deus age para curar, endireitar e restaurar; (4) Deus finalmente reconcilia todo o cosmo consigo mesmo.”

Dessa forma, respondemos ao “por quê?” entendendo que o pecado corrompeu toda a criação, o que nos inclui. Em última instância, todo o nosso sofrimento, toda a nossa dor, todo o mal que assola a nossa vida é em virtude do pecado que deturpa a boa criação de Deus.

Para a segunda pergunta — “o quê?” — não existe uma única resposta. O objeto do nosso sofrimento é algo variável de pessoa para pessoa, de situação para situação, de momento para momento. Mas mesmo não tendo uma única resposta geral, é importante que saibamos identificá-la(s) na nossa vida. Compreender a questão é fundamental para lidar com ela de maneira mais apropriada.

3. A falta de respostas últimas

Talvez pareça que “culpar” o pecado pela existência do sofrimento não é uma resposta satisfatória. Talvez pareça que ainda falta algo. “Por que o Deus cristão, reconhecido pela sua bondade e amor, não faz nada?”, alguns podem perguntar.

Dentro da teologia, muitos argumentos dos mais diferentes tipos já foram elaborados em defesa de Deus. Alguns defendem que o mal não é algo real, outros o livre-arbítrio, outros o caráter de Deus… são vários argumentos. Escolha aquele que mais lhe agrada nessa prateleira da apologética e seja feliz.

No final das contas, a realidade é que, em certo sentido, a Escritura se cala quanto a isso. Ela não explica o problema do mal. É um mistério para nós. E agora, como podemos lidar com isso?

Embora ela não traga uma explicação para a questão, ela traz uma solução: a obra redentora de Cristo. Embora ela não defenda Deus diante das acusações de sua suposta incoerência, falta de bondade ou falta de poder, ela mostra aquilo que Deus já fez por nós: o envio de Jesus para morrer em nosso lugar, pagando todo o preço pelo pecado, e ressuscitar, declarando a sentença de morte da morte.

O mesmo mundo que foi criado por Deus e corrompido pelo pecado, também será plenamente redimido por Cristo! Nos lembremos da metanarrativa na qual nossas histórias fazem parte.

4. O sofrimento como um problema temporal

John Frame (2010, p. 139) apresenta uma reflexão interessantíssima diante desse quadro todo: “Tenho sempre dito que os muitos grandes mistérios da teologia acabam sendo o mistério do tempo. (…) Certamente, uma grande parte do problema do sofrimento reside no fato de que nosso sofrimento ocorre em nosso tempo.”

Precisamos reconhecer que nossa perspectiva é limitada. Somos criaturas limitadas pelo tempo. Mas também precisamos nos lembrar que servimos ao Senhor de toda a existência. Isso significa que o próprio tempo está nas mãos daquele que transcende a temporalidade, que é eterno. O mal é um problema temporal porque nossa perspectiva é limitadamente temporal.

Sabendo dessa limitação, a forma como nós enxergamos o tempo — ou seja, a forma como acessamos o passado ou o futuro — é através da nossa imaginação. O próprio John Frame (2013, p. 359) argumenta que é a imaginação que completa nossa sequência temporal, uma vez que, para nós, apenas o presente existe. Nem o passado e nem o futuro existem na nossa limitada perspectiva.

Ampliando o entendimento sobre a imaginação, Kevin J. Vanhoozer (2018, p. 16) indica que ela é a capacidade com a qual nós enxergamos sentido e coerência na realidade:

É a capacidade cognitiva que nos permite sintetizar coisas diferentes. Pense na imaginação como um poder ‘formador’: habilidade de criar ou perceber totalidades dotadas de sentido e forma coerentes. (…) Precisamos da imaginação a fim de perceber o sentido.”

Ele continua sua explicação afirmando que a imaginação não é apenas algo cognitivo, mas uma faculdade que envolve a mente, a vontade e as emoções, tendo, portanto, uma relação direta com o entendimento bíblico de “coração”, ou seja, o núcleo integrador do ser humano.

5. Reorientando a dor com a imaginação

Portanto, se o problema do sofrimento é uma questão temporal, e se o tempo é acessado pela nossa imaginação, que é a forma pela qual enxergamos sentido e coerência na realidade, e se a imaginação está diretamente relacionada com o nosso coração, podemos concluir que o nosso compromisso religioso impacta diretamente na nossa forma de lidar com o mal.

Se meu coração é orientado por uma metanarrativa que compreende que o mundo foi corrompido pelo pecado, mas que ele será plenamente redimido na obra de Cristo, então eu posso sofrer do jeito certo.

Se somos o povo daquele que segura o tempo nas mãos — furadas pela crucificação —, então somos o povo que enfrentamos a dor olhando para a esperança. A eternidade é o nosso antídoto e a nossa resposta para o sofrimento de agora.


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FRAME, John. A doutrina da vida cristã. Tradução: Jonathan Hack – São Paulo: Cultura Cristã, 2013.

FRAME, John. Apologética para a glória de Deus. Tradução: Wadislau Gomes – São Paulo: Cultura Cristã, 2010.

GOHEEN, Michael; BARTHOLOMEW, Craig. Introdução à cosmovisão cristã: vivendo na intersecção entre a visão bíblica e a contemporânea. Tradução: Marcio Loureiro Redondo – São Paulo: Vida Nova, 2016.

KEVIN J. VANHOOZER. Quadros de uma exposição teológica: cenas de adoração, testemunho e sabedoria. Tradução: Fabrício Tavares de Moraes – Brasília, DF: Editora Monergismo, 2018.

NEWBIGIN, Lesslie. O Evangelho em uma sociedade pluralista. Tradução: Valéria Lamim Delgado Fernandes – Viçosa, MG: Ultimato, 2016.


¹ https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/sofrer <Acesso em 04 de junho de 2021>