fbpx

Traduttore (non) traditore: um ensaio sobre a tradução

Share on telegram
Share on whatsapp
Share on facebook
Share on twitter
Share on linkedin
Share on email

Escrito por Erlan Pereira Frade Tostes, estudante do Programa de Tutoria Filosófica – Turma 2021

INTRODUÇÃO

Se é possível hoje ler em língua portuguesa as obras escritas originalmente em outro idioma é porque alguém se propôs à árdua tarefa de transposição e adaptação de códigos linguísticos. Todo um universo cultural foi adaptado através de uma ponte imaginária composta por padrões equivalentes. Traduzir é reconstruir, restabelecer, mas sobretudo, interpretar. Seria possível, portanto, insinuar que o tradutor, em certa medida, é também filósofo? Este ensaio apresenta-se simultaneamente como uma ode aos tradutores e como uma proposta de reflexão da atividade missionária da Igreja de Cristo.

1. O CONSTRUTOR DE PONTES

O tradutor, ao aproximar conceitos de idiomas diferentes, constrói estradas cognitivas e democratiza o acesso ao conhecimento. Contudo, não é uma tarefa simples, pois traduzir envolve fatores linguísticos, comunicativos e culturais. O dito de São Jerônimo parece encaixar com o posto tradutório: “Labor durus est aggredere” (Trabalhe duro para [poder] atacar) [1]. A cada sentença, o tradutor sentencia. Há orações em que só lhe resta orar. A cada período, dúvidas periódicas. O professor da Universidade de Rovira i Virgili, Anthony Pym, ao definir tradução, assevera [2]:

“Por extensão, pode-se falar de “língua de partida” e “língua de chegada”, ou ainda, “cultura de partida” e “cultura de chegada”. “Traduzir” seria, então, um conjunto de processos que conduziriam à passagem (de textos, da língua, da cultura) de um lado para outro.”

Humboldt (1998) discorre sobre uma pretensa impossibilidade da tradução [3]:

“Toda tradução me parece simplesmente uma tentativa de resolver uma tarefa impossível. Todo tradutor está condenado a ser liquidado por uma de duas pedras de tropeço: ou ele ficará muito próximo do original, às custas do sentido e da língua de sua nação, ou ele irá aderir muito às características peculiares de sua nação , ao custo do original. O meio entre os dois não é apenas difícil, mas totalmente impossível.”

Desta forma, verifica-se a importância do tradutor. O propagador do conhecimento, edificador de pontes e, acima de tudo, destruidor de barreiras.

2. O TRADUTOR ATLÂNTICO

O Oceano Atlântico possui esse nome em referência a dois titãs da mitologia Grega: Oceano, filho de Urano e Gaia, e Atlas, filho de Jápeto e Ásia. Ao findar o conflito entre deuses e titãs, a Titanomaquia, o vitorioso Zeus condenou Atlas a sustentar o peso de todo o mundo em suas costas.

O ofício do tradutor também carrega consigo um peso homérico. Sua capacidade de escolha dos termos em sua tradução é real, porém deve ser atinada e respeitar todo um conjunto de regras. KLEIN (1992) afirma que “o que torna especial a tradução é o fato de o tradutor […] não ter a liberdade de colocar em palavras o que ele pensa, mas sim o que ele diz é pré-determinado em formas de palavras e orações, só que em outra língua” [4].

Nem todos se deparam com a boa fortuna de encontrar uma estrela em Roseta, com traduções e interpretações já decifradas [5]. Um pouco de perspectiva faz com que se valorize o trabalho de tradutores como Boécio e Dom Pedro II, que verteram grego e árabe, em latim e português, respectivamente [6]. Outro tradutor que merece destaque é o nestoriano Hunayn ibn Ishaq (809 d.C. — 873 d.C), em cuja conta estão a tradução ao árabe de mais de cem obras, incluindo Timeu de Platão, Metafísica de Aristóteles, o Antigo Testamento e diversos livros de matemática e medicina.

3. A ENCARNAÇÃO TRADUZIU

A doutrina da encarnação diz respeito de Jesus Cristo ter adquirido uma nova natureza – humana – e unindo-a hipostaticamente à sua divindade. A ideia transcende os limites da lógica, sendo sui generis em toda a história da humanidade. Críticos, tal qual Morris (1986), a rejeitam como “impossível, contraditória, incoerente, absurda e até ininteligível” [7]. Todavia, defender tal preceito é muito caro aos fundamentos do cristianismo e é fruto das resoluções da cristandade, sobretudo, ao concílio de Calcedônia (451 d.C.). Para os que creem no relato bíblico, não resta dúvidas da encarnação. É neste sentido que o evangelho segundo o apóstolo João afirma que “o Verbo se fez carne, e habitou entre nós” [8].

Se um tradutor é quem faz a mediação entre duas esferas culturais, transmitindo uma mensagem da primeira para a segunda, o quão apropriado seria acrescentar a Jesus Cristo o título de tradutor? Se o Verbo Divino pré-existia antes de se encarnar –  e a tradição cristã afirma que sim – então é possível afirmar que sua encarnação traduz seu ser a uma camada diferente da de origem, a saber, a material. Jesus traduz o ser de Deus aos homens de uma maneira experiencial. É natural ao filho que compartilhe de seu pai características ontológicas. Javé se anunciou a Moisés como o verbo conjugado na primeira pessoa: “Eu Sou” [9]. Jesus, seu Filho, é o próprio Verbo divino, tradicionalmente concatenado à legenda de “Segunda Pessoa da Trindade”. Esta sublime Palavra, em sua encarnação, tornou-se tangível, concreta e acessível à humanidade que com ela passou a coexistir no mesmo plano. O eco da frase “Jesus traduz” supera sua graciosa cacofonia e alcança implicações meta gramaticais. Um verbo que se auto-traduz torna obsoleta qualquer ferramenta de tradução, por mais avançada que seja. Não à toa, Ele é o “único mediador entre Deus e os homens”. [10] Jesus transcende a ideia de palavra gramatical e se torna o Verbo relacional. KUHN e TOMPKINS (2016) seguem este mesmo raciocínio ao associarem Cristo à tradução [11]:

“Cristo se torna e é a tradução de Deus em uma realidade audível, visível e palpável para a humanidade. Assim, Cristo não é apenas a realidade por meio da qual todos devem compreender a Escritura e normatizar toda a hermenêutica para compreendê-la, ele é também o hermeneuta por excelência.”

Ainda sobre a encarnação, Walls (1996) afirma que “por meio da encarnação, Jesus se traduz em realidade humana” [12].

4. A IGREJA TRADUZ

Missão é o motivo pelo qual determinada entidade justifica sua existência. Sem uma missão, qualquer organismo perde sua essência, seu fundamento, seu propósito. A missão prioritária da Igreja é anunciar o Reino de Deus na Terra. Este anúncio requer o uso de signos escritos, visuais, sonoros ou não-verbais. A tradução de uma linguagem celeste para o mundo material se faz necessária. SMITH (2003) traz uma perspectiva interessante sobre o tema [13]:

“Compartilhar a mesma cultura significa ter a mesma base categórica para organizar os conhecimentos. […] A linguagem reflete a maneira como certa cultura organiza a experiência.”  

O apóstolo João escreve em sua primeira epístola algo que neste contexto se torna um divisor de águas: “Ninguém jamais viu a Deus; se nós amamos uns aos outros, Deus está em nós, e em nós é perfeito o seu amor” [14]. Comunicar aberta e publicamente é essencial para se fazer entendido. A Igreja usa de sermões e pregações como forma de exposição e transmissão da mensagem do Evangelho, orientada ao cumprimento de seu chamado. Contudo, há um elemento crucial que não é alcançado apenas com a linguagem ou na emissão verbal: o exemplo. É através da prática do amor, passível de verificação, reprodução e assimilação que o Rei eterno, imortal, invisível, Deus único [15] se torna visível. Quem contribuiu no entendimento dessa necessidade foi Francis Schaeffer (1983) [16]:

“Se alguém vai passar uma longa temporada no exterior, é de se esperar que aprenda a língua do país a que se destina. Mais do que isso, entretanto, faz-se necessário ele poder realmente comunicar-se com aqueles no meio dos quais viverá. Impõe-se-lhe aprender ainda outra língua – a das formas de pensamento das pessoas com quem falará. É somente assim que conseguirá real comunicação com eles e a elas. O mesmo se dá com a Igreja Cristã. Sua responsabilidade não é apenas professar os princípios básicos da fé cristã, à luz das Escrituras; cumpre-lhe comunicar estas verdades imutáveis à geração em que se situa.”

É comum no meio tradutório que se diga que a nota de rodapé é o atestado de incompetência do tradutor, ou que todo tradutor é um traidor [17]. Schopenhauer é mais duro ainda ao afirmar que “toda tradução é uma obra morta” [18]. É bem verdade que a Igreja tem suas notas no rodapé sendo escritas a partir de sua pluralidade confessional, que manifesta diferentes traduções da mesma realidade. Entretanto, estendendo um pouco mais a metáfora, no capítulo sobre os fundamentos da fé, as milenares traduções amparadas pela ortodoxia confluem na escolha de uma única palavra: Jesus. Decerto pode-se subverter o ditado italiano em “traduzione, tradizione”, ou seja, para uma correta tradução, deve-se respeitar a tradição.

O mundo que outrora experimentou uma linguagem única, possui atualmente uma miríade de idiomas e uma população, que pode até não saber, mas anseia por um Pentecostes em que todos passem a ouvir uma mensagem centralizada de salvação, convergente em Cristo. Cabe à Igreja o papel de traduzir a mensagem [da] cruz a todos os povos. 


Quer uma curadoria de conteúdo Teológico?
Clique aqui e participe do nosso Canal no Telegram.


5. REFERÊNCIAS

[1] HERBERT, P. E. Selections from the Latin Fathers with Commentary and Notes. Eugene: Wipf & Stock Publishers, 1924, p. 71.

[2] PYM, Anthony. Explorando as teorias da tradução. Trad. Fernando Ferreira Alves e Victor Ferreira. Editora Perspectiva S/A. Edição do Kindle.

[3] HUMBOLDT, Wilhelm von. Über die Verschiedenheit des menschlichen Sprachbaues und ihren Einfluß auf die geistige Entwicklung des Menschengeschlechts. Paderborn: Schöningh, 1998.

[4] KLEIN, W. Was kann sich die Übersetzungswissenschaft von der Linguistik erwarten?. In: Zeitschrift für Literaturwissenschaft und Linguistik. Vandenhoeck & Ruprecht, 1992, n. 84, pp. 104-123.

5] A chamada “Pedra de Roseta” foi encontrada em 1799 em Roseta, no Egito, por soldados franceses do exército napoleônico. Cunhado em sua superfície está o mesmo texto em três grafias: hieróglifos, grego antigo e demótico. A partir desse achado, foi possível decodificar os milenares hieróglifos egípcios.

[6] O romano Boécio (480 d.C.- 525 d.C.) pretendeu traduzir toda a obra de Platão e Aristóteles para o latim. Foi executado antes de concluir sua empreitada, porém, os filósofos posteriores, na Idade Média, foram agraciados com suas traduções. Pedro II (1825 d.C – 1891 d.C), regente brasileiro, era poliglota e como exercício em suas aulas de árabe, fez a primeira tradução das 1001 Noites para a Língua Portuguesa.

[7] MORRIS, Thomas V. The Logic of God Incarnate. Ithaca: Cornell University Press, 1986, p. 18.

[8] BÍBLIA, N. T. O Santo Evangelho Segundo João. In BÍBLIA. Bíblia de Estudo Palavras-Chave Hebraico Grego. 4. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2011, p. 1104.

[9] ______, A. T. O Segundo Livro de Moisés Chamado Êxodo. In BÍBLIA. Bíblia de Estudo Palavras-Chave Hebraico Grego. 4. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2011, p. 71.

[10] ______, N. T. Primeira Epístola do Apóstolo Paulo a Timóteo. In BÍBLIA. Bíblia de Estudo Palavras-Chave Hebraico Grego. 4. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2011, p. 1262.

[11] KUHN, W; TOMPKINS, A. Theology on the Way: Hermeneutics from and for the Frontline. Journal of Adventist Mission Studies, v. 12, No. 1, Art. 2, 2016, p. 10.

[12] WALLS, A. F. The Missionary Movement in Christian History: Studies in the Transmission of Faith. Maryknoll, NY: Orbis Books, 1996, p. 26.

[13] SMITH, F. Compreendendo a leitura. Trad. Daíse Batista. 3.ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 2003.

[14] BÍBLIA, N. T. Primeira Epístola Universal do Apóstolo João. In BÍBLIA. Bíblia de Estudo Palavras-Chave Hebraico Grego. 4. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2011, p. 1312.

[15] ______, N. T. Primeira Epístola do Apóstolo Paulo a Timóteo. In BÍBLIA. Bíblia de Estudo Palavras-Chave Hebraico Grego. 4. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2011, p. 1261.

[16] SCHAEFFER, Francis. A Morte da Razão. Trad. João Bentes. São Paulo: ABU/FIEL, 1983, p. 5.

[17] “Traduttore, traditore” é um provérbio italiano cujo significado aponta para a ideia de que nenhum tradutor consegue manter o significado e a profundidade original do termo traduzido, sendo portanto um “tradutor, traidor”.

[18] SCHOPENHAUER, Arthur. A Arte de Escrever. Trad. Pedro Süssekind. Porto Alegre: L&PM, 2014, p. 150.