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Conhece-te a ti mesmo

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Escrito por Daniel Ponick Botke, estudante do Programa de Tutoria Filosófica 2021

Conhecer a si mesmo foi o anseio motivador de muitos filósofos na história. A frase “conhece-te a ti mesmo” é um aforismo grego encontrado no pronau do templo de Apolo, em Delfos, o qual, segundo Platão, foi utilizado por Sócrates para descrever uma vida que valeria a pena ser vivida, uma vida de reflexão. A partir do conhecimento de si mesmo, poder-se-ia conhecer o mundo e os deuses. Isto se dá, pois, ao conhecer a si mesmo honestamente, o homem terá de admitir que nada sabe, assim como Sócrates, podendo, a partir de então, livre de preconceitos, obter o verdadeiro conhecimento. Nesta filosofia reflexiva, nascida a partir do olhar para si mesmo, olhar para o eu, faz-se necessário estabelecer o que significa de fato conhecer alguma coisa, para, assim, estabelecer todos os tipos de conhecimento. A força motriz da filosofia é, portanto, o “conhece-te a ti mesmo” do próprio conhecimento, é o pensamento voltado para si, buscando no entendimento as bases que fundamentam o saber.

A versão platônica desta busca pode ser encontrada no mito da caverna, na qual o conhecimento da realidade dos prisioneiros é, na verdade, um conhecimento falso. Sua concepção de realidade é sombra da verdade concreta. Para obter-se conhecimento verdadeiro é necessário libertar-se das suas cadeias para então conhecer todo o mais. (PLATÃO, 1949, pp. 315-407). Para Platão, esse conhecimento verdadeiro dava-se pelo conhecer o mundo das ideias, o qual seria plenamente possível apenas quando livres das “cadeias do corpo material”. Avançando muito na história, Hume, com o seu ceticismo, aparentemente “joga a toalha” na busca por esse conhecimento, e assume que não podemos conhecer nada realmente, apenas ter experiências sensoriais das coisas em si, experiências estas enganosas, pois os sentidos são enganosos.

Em resposta ao ceticismo humeniano, Kant estabelece que este conhecimento do real dar-se-ia por meio do conhecimento dos númenos, uma vez que aquilo que o homem experimenta e ingenuamente conhece são apenas fenômenos. O grande problema é que estes númenos não podem ser conhecidos, temos de nos contentar apenas com representações destes, ideias apenas, nos mantendo presos em um solipsismo cartesiano racionalista. A cortina de separação entre o real e o conhecido se manteve.

A história da filosofia continua, e, para Hegel, este é um aspecto muito importante do conhecimento: a história. Segundo ele, o espírito do tempo organiza os acontecimentos com o fim de desenvolver um conhecimento racional da realidade, tornando, assim, tudo o que é real em racional e vice-versa. Com isso, Hegel desenvolve uma filosofia historicista, defendendo que o espírito do tempo organiza todas as coisas para que a verdade se desenvolvesse e crescesse durante os séculos através da dialética das ideias (tese, antítese e síntese). Este conhecimento desenvolvido historicamente trata-se do auto desvelamento do espírito, um auto revelar-se do ser idealizador de todas as coisas. Desta forma, não se pode falar de filosofia sem falar-se de história, e não se pode falar sobre verdade sem falar sobre filosofia.

Karl Marx, herdeiro e estudioso da filosofia hegeliana, discorda de Hegel principalmente por entender que este, com seu historicismo e com a fenomenologia do espírito, acaba por engolir o ser individual em categorias abstratas, excluindo o indivíduo do pensamento filosófico. Enquanto para Hegel, em seu idealismo, tudo era fruto do Espírito, portanto de uma partícula metafísica, para Marx tudo é uma realização de um homem de carne e osso lutando por sua própria sobrevivência em seus meios materiais. Assim sendo, para Marx, é a condição material do indivíduo que vai realizá-lo no mundo, criando os processos históricos. Enquanto o resultado da dialética hegeliana idealista é uma superestrutura metafísica produzindo uma infraestrutura material, no materialismo histórico-dialético de Marx, é a infraestrutura material que produzirá a superestrutura.

Assim como Marx, o dinamarquês Søren Kierkegaard também foi um pós-hegeliano crítico à filosofia de Hegel. Mas, diferente de Marx, Kierkegaard resiste ao pensamento historicista de Hegel através do indivíduo em sua existência real. Para Søren, o sistema inteiro de Hegel era irrepetível e desprezível. Dizia-se saber de tudo, mas caía no ridículo de esquecer do indivíduo.

O que fica bastante evidente é que a chave hermenêutica da filosofia existencial, da maneira como Kierkegaard a compreende, deve ser a decisão apaixonada do existente na transformação da própria existência, visto que toda decisão essencial se dá na subjetividade. Com isso, a filosofia sai do campo de uma mera abstração estéril e assume a perspectiva de um diálogo íntimo e profundo do eu consigo mesmo. (SILVA, 2013, p. 3)

Ou seja, a verdade que para Platão, Kant e Hegel era metafísica e idealista, que para Hume era inacessível, e para Marx era fruto de uma consciência de si pela consciência da classe, para o filósofo dinamarquês toda verdade é subjetividade. A existência humana na sua busca pela verdade é subjetiva, é uma viagem para dentro do eu subjetivo, não atuando nem no juízo racional, nem mesmo sensorial. Ela é experimentada na subjetividade.

No entanto, para entendermos melhor o seu pensamento, é necessário entendermos o seu conceito de homem. Para o dinamarquês, o homem, criado por um Deus infinito, é uma síntese do finito com o infinito, do eterno com o temporal. Em Deus, o Criador de todas as coisas, é onde se encontra toda plenitude de verdade. Assim, uma viagem para dentro de si per si, ausente de Deus, leva o homem ao desespero, o desesperar-se de si, a doença para morte como chama o filósofo, o querer e não querer ser você mesmo, ao mesmo tempo. Esta seria a condição geral do homem segundo ele, uma condição de desesperança, de perder o seu próprio eu, pois, nessa odisseia ao interior de si, encontramos um eu que não desejamos ser, ou que desejamos, mas não conseguimos ser.

A infelicidade de um eu desta espécie não está em nada ter feito neste mundo, mas em não ter tomado consciência de si próprio, em não se ter apercebido de que este eu é o seu, é um determinado preciso e, portanto, uma necessidade. Em vez disso, o homem perdeu-se deixando que o seu eu se reflita imaginariamente no possível. […] Um eu que se olha no seu próprio possível só é semiverdadeiro, porque, neste possível, está muito longe de ser ele próprio, ou só o é parcialmente. (KIERKEGAARD, 2010, p. 54)

Em vez de reportar o possível à necessidade, o desejo persegue-o até perder o caminho de regresso a si próprio. Na melancolia, sucede o contrário de maneira idêntica. O homem possuído por um amor melancólico empenha-se em perseguir um possível da sua angústia, que acaba por afastá-lo de si próprio e o faz morrer nessa angústia ou nessa extremidade, na qual ele tanto receava perecer. (KIERKEGAARD, 2010, p. 55)

A solução para este desespero encontra-se num salto, um salto de fé para fora do eu, um salto de fé para colocar-se frente a Cristo:

O crente vê e apercebe-se da sua perda (no que sofreu e no que ousou) como homem, mas crê. É o que o livra de perecer. Deixa a Deus o modo de socorro, e contenta-se em crer que a Deus tudo é possível. Crer na sua perda é-lhe impossível. Compreender humanamente isso é a sua perda e acreditar ao mesmo tempo no possível, é crer. (KIERKEGAARD, 2010 p. 57)

A verdade, portanto, deixa de ser um fundamento lógico, e passa a ser uma apropriação existencial que ocorre nesta dialética do finito e do infinito, do temporal e do eterno.

Sob essa ótica, o próprio ato de tornar-se cristão assume outro significado: tornar-se contemporâneo com Cristo. É, justamente, nesse sentido que, para Kierkegaard, o indivíduo se identifica à verdade. É quando o indivíduo, afastado da multidão, torna-se indivíduo coram Deo. (SILVA, 2013, p. 5)

Através das Sagradas Escrituras entendemos que pode até ser que o homem dê um salto de fé em direção a Deus, mas para tal é necessário antes que Deus se revele ao homem. É preciso que Deus venha ao seu encontro primeiro para que ele possa ir até Deus.

Na verdade, falamos de sabedoria entre os que já são maduros; não, porém, a sabedoria desta era, nem dos seus governantes, que estão sendo reduzidos a nada. Mas falamos do mistério da sabedoria de Deus, que esteve oculto, o qual Deus preordenou antes dos séculos para nossa glória. Nenhum dos governantes desta era compreendeu essa sabedoria, pois se a tivessem compreendido, não teriam crucificado o Senhor da glória. Mas, como está escrito: As coisas que olhos não viram, nem ouvidos ouviram, nem penetraram o coração humano, são as que Deus preparou para os que o amam. Deus, porém, revelou-as a nós pelo seu Espírito. Pois o Espírito examina todas as coisas, até mesmo as profundezas de Deus. (ICo 2.6-10)

É em Cristo e por meio dele que temos nossa busca pela verdade saciada. É Ele quem nos reconcilia com Deus e com o mundo. Ele é quem nos liberta das cadeias do pecado, que abre nossos olhos para que possamos ver o conhecimento de Deus na face de Cristo, que é a verdade, para podermos conhecer a nós mesmos, entender o paradoxo da síntese do eterno e do temporal, do finito e do infinito, do material e imaterial em nosso ego. Por meio de Cristo entendemos o desenrolar da história, determinada por Ele desde o princípio até a consumação dos séculos, para a sua glória, glória a ser revelada aos seus filhos.

E ali dentro da caverna

Eu vivia de ecos

Ecos e sombras nas paredes!

Até tua bondade surgir como um leão

Até Você surgir como um leão!

Ferozmente, me arrebatou

Das trevas para a Sua luz!

Meu Bom Pastor, Seu leal amor

Certamente farejará minha jugular

Até meu último respirar (PALANKIN, 2019)

Que Deus nos salve de nossas cavernas solipsistas e nos arrebate para o reino de luz do seu amor.


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REFERÊNCIAS

KIERKEGAARD, Søren. O Desespero Humano. Trad. Adolfo Casais Monteiro. São Paulo: Unesp, 2010.

PALANKIN. Jugular. 2019.

PLATÃO. A República. Trad. Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1949.

SILVA, Rodrigo Melo da. O Indivíduo Coram Deo: Ética, Repetição e Liberdade na Filosofia Existencial De Søren Kierkegaard. Rio de Janeiro: PUC-Rio, 2013.