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Contemplando a criação com o olhar redimido

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Escrito por Abraão Soares Silva, estudante do Programa Tutoria Turma Avançada 2020

INTRODUÇÃO 

Se olharmos o mundo à nossa volta logo perceberemos a beleza e a variedade da natureza. Milhares de espécies de animais, incontáveis árvores e plantas, cada um com sua cor e formato que ornamentam nossa paisagem. Será que existe um propósito nisso tudo, ou uma grande coincidência do acaso? 

Crer no Deus e Pai do Senhor Jesus Cristo implica acreditar que toda nossa realidade foi criada por ele, o que inclui a Natureza. Mas de que forma isso muda nosso relacionamento com a criação? 

Será que todas essas coisas belas foram feitas para nos chegarmos mais ao criador? 

A INEVITÁVEL BUSCA PELO TRANSCENDENTE 

Por mais que vivamos em uma era Secular, em que a razão humana é elevada a níveis de submeter toda a realidade à capacidade da mente, a busca pelo transcendente não para. Deus continua presente e inevitável.

“Apesar de tudo, continuamos a falar sobre Deus. Mesmo em épocas aparentemente sem Deus, ele permanece como uma presença atraente, impossível de ser erradicada pela mais cruel das ideologias ou dos mecanismos tecnológicos.” (MCGRATH, p. 33)

Essa necessidade humana de apontar para algo além de si, mostra a relevância da teologia natural no auxílio de uma interpretação apropriada dos sinais de Deus na criação.  Quem nos ajuda a perceber isso é o teólogo Alister McGrath, em sua obra Teologia natural, que propõe uma reformulação de abordagens antigas, tendo o objetivo de enxergar a natureza através de pressupostos cristãos. A finalidade não é provar a existência de Deus, contudo fazer uma teologia “de cima para baixo”, perceber a realidade com os “óculos” da fé cristã. Ver a natureza orientado pela Palavra de Deus.

“Uma teologia natural cristã, portanto, está relacionada à observação da natureza de maneira específica, que torna possível identificar a verdade, a beleza e a bondade de Deus e que reconhece a natureza como um indicador legítimo, autorizado e limitado do divino. Isso não significa que a teologia natural “prove” a existência de Deus ou de uma esfera transcendente com base na razão pura nem que veja a natureza como meio de acesso a um sistema teísta completo. Em vez disso, a teologia natural aborda questões fundamentais sobre a revelação divina e a cognição e percepção humanas.” ( MCGRATH, p. 17). 

Vejamos o que está escrito em Eclesiastes 3:11: “Deus fez tudo formoso no seu devido tempo. Também pôs a eternidade no coração do ser humano, sem que este possa descobrir as obras que Deus fez desde o princípio até o fim.” 

Salomão declara a beleza em toda criação de Deus, além disso, que Deus pôs a eternidade no coração do ser humano. Isso explica o nosso desejo por aquilo que vai além da nossa experiência cotidiana e que nos faz perceber que por mais que as coisas dessa terra sejam boas não, conseguem suprir esse anseio pelo divino. Mesmo assim, as obras do Senhor permanecem incompreensíveis aos que tentam decifrá-las através da razão e observação do universo. O que pode ser recebido somente pela fé revelada nas Escrituras Sagradas. 

CUIDADO COM A CRIAÇÃO

Uma das consequências da secularização é o distanciamento quase que completo do cristão para com a natureza. É perceptível a carência de uma maior sensibilidade para com a criação. Não apenas uma preocupação de ordem científica, mas um sentimento de responsabilidade e deslumbre. John Stott nos ajuda a entender que o dever com a criação foi estabelecido por Deus para os seus discípulos. Ele explica que “A Bíblia nos diz que, na criação, Deus estabeleceu para os seres humanos três tipos fundamentais de relacionamento”: com Deus, com o próximo e com a “boa terra e as criaturas sobre os quais ele os estabeleceu.” (2011, p. 43). Ao crermos que Deus é o criador de todas as coisas isso implica nosso cuidado com a natureza e não a sua deificação. Sobre isso, Stott explica que “nós respeitamos a natureza porque Deus a fez; não a reverenciamos como se ela fosse Deus”. No que diz respeito a “dominar” a terra e “sujeitá-la” (Gn 1.26-28), ele nos alerta que “o domínio que Deus nos deu deve ser visto como uma mordomia responsável, não como um domínio destrutivo.” (2011, p. 46). Esse chamado ao cuidado com a natureza, mais que um trabalho, é uma expressão de adoração.

DESLUMBRAMENTO PELA CRIAÇÃO

Um aspecto muito importante que precisa ser resgatado é o deslumbramento, o encanto pela criação. Crer que Deus é criador pressupõe que tudo foi feito de maneira intencional. A beleza que nos deixa maravilhados não está aqui por acaso, mas para o nosso deleite. Lembro como foi maravilhoso ver meu filho com alguns meses de nascido contemplar pela primeira vez a natureza, seus olhos fixos e animados observando as folhas  das árvores que balançavam por causa do vento, ou quando viu formigas caminhando para lá e pra cá, ou quando lhe mostrei a brilhante lua no céu. Foi notório seu semblante de encanto por avistar aquilo tudo. Talvez essa seja uma das razões que Jesus disse que o reino dos céus é dos que se assemelham às crianças (Mt 19.14). McGrath nos explica que “Quando observado com base na fé cristã, o mundo natural pode ser “visto” sob uma nova perspectiva, o que leva a uma nova apreciação mais profunda de sua beleza.” (2019, p. 254). Em Notas da xícara maluca, Nathan David Wilson nos desafia a olhar para o mundo de uma forma tão bela e distinta com um sentimento de maravilhamento nos detalhes da criação que muitas vezes passam despercebidos à nossa frente.

“O que é este lugar? Por que é este lugar? Quem o aprovou? Os investidores estão felizes? Os acionistas? Esse comportamento cósmico era esperado? Eu deveria levar isso a sério? Como poderia? Presenciei peixes dourados fazendo bebês e formigas executando pequenas lacraias. Vi uma mosca dar cria enquanto sua cabeça era comida por um louva-a-deus.”  (WILSON, 2017, n.p).

Contudo, a razão principal pela qual devemos observar a natureza com uma perspectiva diferente é que “Jesus usou a natureza como um meio de ensinar sobre o reino de Deus.” (MCGRATH, p. 119). Nas parábolas percebemos o uso constante dos aspectos naturais para explicar as coisas espirituais. Quando Jesus em Mateus 6.25-34 exorta aos seus discípulos a não andarem ansiosos, como prova do cuidado de Deus, ele pediu para que eles olhassem para as aves nos céus, olhassem para os lírios nos campos. Quando bem interpretada, a natureza se torna um “canal para as boas novas do reino de Deus.” (MCGRATH, p. 126). 

CONCLUSÃO

De forma intencional Deus criou todas as coisas para sermos atraídos a contemplar a grandeza das suas obras sendo fiéis ao mandato cultural de cultivar com responsabilidade. A natureza nos foi dada também para podermos desfrutar e entender que, apesar de numerosas coisas aprazíveis que encontramos aqui, apenas anunciam uma glória vindoura, e essa não terá fim.


Esse conteúdo é um oferecimento de The Pilgrim App, a principal plataforma de streaming de conteúdo cristão do Brasil.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

MCGRATH, Alister. Teologia natural: uma nova abordagem; tradução de Marisa K. A de Siqueira Lopes. – São Paulo: Vida Nova, 2019.

STOTT, John. O discípulo radical; traduzido por Meire Portes Santos. – Viçosa, MG: Ultimato, 2011. 

WILSON, Nathan D. Notas da xícara maluca: Maravilhe-se de olhos bem abertos no mundo falado por Deus. Tradução Josias Cardoso Ribeiro Júnior – Brasília, DF: Editora Monergismo, 2017.