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Um ponto cego: tecnologia e o reino de Deus

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Escrito por Marlon Girardello, estudante do Programa de Tutoria – Turma Avançada 2020

“Nada importa senão o reino, mas por causa do reino tudo importa.”

Gordon Spykman

INTRODUÇÃO

A Tecnologia está presente e influencia de maneira determinante a realidade na qual vivemos. Na verdade, ela abarca uma ampla gama de atividades humanas. Carl Mitcham descreve os objetos da tecnologia de maneira ampla, incluindo todos os “produtos materiais fabricados pelo homem cuja função dependa de uma materialidade específica em si”[1]. No que tange a tecnologia, não há neutralidade, ela é produzida por indivíduos que possuem pressupostos, que moldam e são moldados por essas produções, mesmo que isso até seja inconsciente.

A maneira que a tecnologia influencia nossas vidas é tanto naquilo que escolhemos, quanto naquilo que nos omitimos em escolher, é sempre uma relação ativa. O relacionamento com a tecnologia exige tanto dos consumidores quanto dos produtores uma posição crítica, buscando entender quais seus impactos. Marshall McLuhan nos dá quatro leis, em forma de perguntas, para que analisemos esse impacto: (1) O que o produto amplia ou melhora? Qual capacidade humana é amplificada? (2) O que o produto recupera do passado?  (3) O que o produto torna obsoleto? (4) Quando levado ao extremo, um produto tende a inverter suas características originais. No que ele se transforma?[2]

Tendo essas quatro leis em mente, podemos então aprofundar isso para entender como a tecnologia tem impactado o reino de Deus. Delas podemos derivar quais premissas que necessitam ser utilizadas para se ter uma abordagem genuinamente cristã que parte de uma teologia encarnacional. Dessas quatro leis de McLuhan, surgem outras quatro ligadas a uma perspectiva cristã de reino: (1) Quais os pressupostos desse artefato tecnológico? (2) Podemos viver sem esse artefato tecnológico e o que isso diz sobre nós? (3) Como esse artefato interfere em nossos relacionamentos? (4) Como este artefato tecnológico redefine nossa compreensão da adoração corporativa e individual?[3]

TECNOLOGIA É NEUTRA?

Como um peixe que nasceu em um pequeno aquário, a geração atual se relaciona com a tecnologia como se tudo estivesse funcionando perfeitamente. Sendo gerado apenas evoluções e nunca involuções. Nunca percebem sua própria escravidão, estão anestesiadas pelo contexto tecnológico-científico no qual estão inseridas. Derek Schuurman afirma que “a tecnologia não é neutra; é uma atividade cultural carregada de valores em resposta a Deus que molda a criação natural”[4].

Segundo Verkerk et al., a tecnologia não é meramente uma caixa de ferramentas neutras que os seres humanos podem escolher usar ou não. A tecnologia determina a totalidade da cultura na qual vivemos e forma o padrão de interpretação a partir do qual pensamos[5]. É importante, portanto, partimos de um pressuposto que não existe neutralidade na tecnologia, ela é carregada de vieses de quem as produz. Sem esse ponto de partida, toda a discussão será superficial e falseada. A tendência de considerar a neutralidade da tecnologia é fruto de uma abordagem que desassocia o mundo espiritual do mundo físico. O dualismo de natureza e graça acaba colocando a tecnologia em um patamar acima de qualquer suspeita. Com isso adotamos novas tecnologias sem realmente compreender como elas nos influenciam, e se adaptando a elas sem uma consciência. Aceitamos acriticamente as adaptações com, no máximo, uma argumentação de que não podemos fazer nada para mudar isso.

No entanto, é, no mínimo, inocência pensar que a tecnologia é neutra. Os criadores dos artefatos tecnológicos imprimem seus valores pessoais e corporativos em suas criações. Não se trata de apenas estarmos usando um artefato para o bem ou para o mal. Em sua essência os artefatos já visam alcançar determinados objetivos. Eles são inclinados a certos usos, levando o usuário de diversas formas a utilizar determinado dispositivo. A maneira que as ferramentas tecnológicas são geradas já o são prevendo comportamentos padrões do usuário. Elas moldam nossas preferências, nos induzem ou ampliam nossas percepções, se utilizam das nossas habilidades e contextos para alcançar seus objetivos. Longe de ser uma “mão invisível” que rege as tomadas de decisão, os artefatos tecnológicos são intencionais em influenciar e direcionar nossos pensamentos, ações e emoções. Derek Schuurman cita o crítico cultural Neil Postman, ao afirmar que “as novas tecnologias alteram a estrutura dos nossos interesses: as coisas sobre as quais pensamos. Alteram o caráter dos nossos símbolos: as coisas com as quais pensamos. E alteram a natureza da comunidade: a arena na qual as ideias se desenvolvem”[6].

Indo ainda mais longe, Marshall McLuhan afirma sua célebre frase: “o meio é a mensagem”, sugerindo que as mensagens incrustadas nas criações tecnológicas são tão importantes quanto o conteúdo que possam transmitir. Não encontramos essa mesma dinâmica em Jesus? Ele não apenas pregou e viveu uma mensagem, Ele era a mensagem! Há, portanto, um messianismo nos artefatos tecnológicos. Uma esperança em que a tecnologia, em algum momento, resolverá e redimirá todos os problemas. Uma nova realidade onde a tecnologia vencerá a morte, retirará a dor, gerará uma satisfação plena em um futuro.

MOLDANDO E SENDO MOLDADOS PELA TECNOLOGIA

A distinção entre estrutura e direção é necessária ao analisar a tecnologia, pois sem essa distinção poderíamos cair no erro de considerar que a criação é má. Temos que evitar o dualismo entre saber se a tecnologia é boa ou má, pois ela não é provida apenas de uma estrutura, mas também de uma direção. Albert Wolters descreve que a estrutura denota a “essência” de algo criado. A direção, pelo contrário, refere-se ao desvio pecaminoso dessa ordenança estrutural e conformidade renovada a ela em Cristo[7]. Ou seja, quanto a direção, refere-se à maneira como qualquer coisa na criação pode ser dirigida em obediência ou desobediência à lei de Deus. A tecnologia é então desdobrada em maneiras obedientes e menos obedientes ao Senhor.

Em busca de controlar o ambiente em que vivemos, acabamos criando um deus onde depositamos nossa confiança e damos o nome de tecnologia. A tecnologia acaba sendo tornada um tipo de cosmovisão onde o progresso gerado por ela é sempre o melhor caminho a se tomar. A busca do homem por conforto, utilidade e eficiência o tornou refém dos artefatos que geram tais efeitos, pois esse caminho acaba sendo o de menor resistência. O pior é que a comodidade torna-se tão importante que perdemos o interesse naquilo que é essencial. Conforme Verkerk et al. argumentam, utilizando o pensamento de Hannah Arendt, não se sabe mais se a tecnologia serve a um propósito real ou se ela tornou-se o próprio propósito[8]. A tecnologia muda a maneira como pensamos e estruturamos o mundo ao nosso redor. John Culkin escreve que: “Moldamos nossas ferramentas e, depois, elas nos moldam”[9]. A tecnologia acaba criando necessidades humanas que só podem ser supridas pela tecnologia.

Até a maneira que nós aprendemos está sendo moldada pela tecnologia, estamos constantemente online, sempre em contato com algum artefato tecnológico. Se não refreamos ou aprendemos a lidar com isso, vamos nos tornando superficiais, apressados, distraídos e precipitados. Pensamos raso e acabamos imersos em uma vida rasa. Os seres humanos antes de pensarem em moldar o mundo, precisam em primeiro lugar, se desenvolverem e se controlarem.

O relógio é um exemplo contundente de tecnologia que moldamos, mas que nos moldou e molda profundamente. Derek Schuurman escreve que os relógios foram criados originalmente para melhorar as práticas devocionais, mas terminaram influenciando quase todos os aspectos da vida[10]. Verkerk et al. ao citar Lewis Mumford afirmam: “O relógio preparou os seres humanos para a ‘batida e o ritmo regular da máquina’. O relógio não é apenas um meio para medir o tempo; ele também é um instrumento para controlar o comportamento dos seres humanos e sintonizá-los uns com os outros”[11]. Parece que o relógio é uma extensão do corpo humano, ninguém mais se imagina alheio à marcação de tempo. O relógio inclusive está embarcado em boa parte dos artefatos tecnológicos. Possuímos uma dependência determinante da batida e do ritmo que os dispositivos nos fornecem em formato de horas, minutos e segundos. Verkerk et al. afirmam que: “A tecnologia torna-se um monstro assim que as pessoas não dão mais atenção ao seu funcionamento e suas condições”[12]. 

O REINO E A TECNOLOGIA

Depois de entender que a tecnologia não é neutra e que nos molda, surge a pergunta: o que a tecnologia tem a ver com as crenças cristãs? Partimos da ideia que a tecnologia não é autônoma, é uma área onde exercemos liberdade e responsabilidade. Há o que ser feito, não estamos condenados a sermos reféns dos artefatos tecnológicos. O envolvimento responsável é indispensável, pois a tecnologia é uma extensão da criação. Portanto, precisamos ser capazes de usá-la de maneira que glorifique a Deus e promova seu reino por meio da obediência ao mandato que foi nos dado em Gênesis 2:15. Somos chamados a guardar e cultivar toda a criação, como mordomos e despenseiros da graça. Para isso precisamos “levar todo pensamento cativo à obediência de Cristo” (2 Coríntios 10:5).

A noção bíblica de mordomia nos chama a um “processo de abertura” onde são abertas possibilidades na criação. Isto também se aplica à tecnologia. Ao contrário do Zeitgeist, a criação e o estabelecimento do reino de Deus nos permitem criticar. Eles nos dão ferramentas para apresentar uma visão que “abre” possibilidades em uma cultura fechada, ou de túnel. Egbert Schuurman sugere que “a perspectiva dominante técnico-científica deve dar lugar a uma perspectiva da Terra como um jardim a ser trabalhado ou cultivado para que possa florescer”[13].  Schuurman afirma que o pensamento do homem como centro da criação não é bíblico, mas provém de ideias do Renascimento e do Iluminismo. O “eu” humano tornou-se o ponto de partida para pensar e agir. Sendo precisamente essa atitude que levou os tempos modernos à crença no progresso[14].

Se conforme McLuhan o meio é verdadeiramente a mensagem e o nosso chamado é descansar na presença de Cristo, sendo presença fiel no mundo, então nossas tecnologias devem ser parte dessa vocação ou não têm lugar em nossas vidas e/ou igrejas. As tecnologias, portanto, devem obedecer três perspectivas: (1) Integridade, que é uma oposição à fragmentação. McLuhan acreditava que quanto mais extensões o homem possui, mas fragmentado ele era. (2) Presença, em oposição ao isolamento, não apenas na questão de isolamento físico, mas também está relacionado a presença mental e emocional. (3) Realidade, em oposição à fantasia, pois a tecnologia proporciona meios facilitados que não reproduzem e não são baseados na realidade[15]. Se a igreja não tratar a tecnologia e sua tendência desencarnacional e tecnicista, é questão de tempo para que os cristãos se tornem cada dia mais reféns dos artefatos tecnológicos. A teologia precisa se aproximar das implicações da tecnologia e apresentar uma solução robusta que parte de uma abordagem genuinamente cristã baseada no mandato cultural, na lei de Deus e refletida em Mateus 22:37-39. Uma tecnologia encarnacional é regida primeiro pelo amor à Deus e aos seus preceitos, e em segundo em amor ao próximo. A igreja não pode se dobrar e aceitar artefatos que esvaziam a criação de Deus e escravizam o próximo. Mais do que resistência, é necessário sabedoria, para utilizar e ressignificar os artefatos. A igreja deve operar com “capital emprestado” sabendo que toda a criação tem em sua estrutura as digitais do Criador e pode ser utilizada para obedecer a Ele.

CONCLUSÃO

Os cristãos, portanto, não devem depositar sua fé e esperança em avanços tecnológicos, pois a perfeição não será alcançada aqui nesta realidade temporal. Em uma postura crítica, sabendo que a tecnologia não é neutra e que os molda, não devem buscar a tecnologia por si só, mas devem visar desenvolver e utilizar a tecnologia de formas normativas que cumprem o mandato de cultivar e guardar a criação. Ou seja, que demonstrem amor e cuidado com o próximo e com o restante da criação.


[1] Schuurman, 2019. n. p.

[2] Schuurman, 2019. n. p.

[3] Huntrods, Jessica. The technological Church –  Theology and technological idiocy. Disponível em: <https://common.center/theology-technological-idiocy >. Acesso em 26 de dezembro de 2020.

[4] Schuurman, 2019. n. p.

[5] Verkerk et al, 2018 p. 259.

[6] Schuurman, 2019. n. p.

[7]  Wolters, 2019, p. 86.

[8] Verkerk et al, 2018, p. 320.

[9] John M. Culkin, “A Schoolman’s Guide to Marshall McLuhan”, Saturday Review, Março 18, 1967, p. 70.

[10] Schuurman, 2019. n. p.

[11] Verkerk et al, 2018, p. 312.

[12] Verkerk et al, 2018, p. 312.

[13] Schuurman, 2016, p 14.

[14] Verkerk, Maarten J.  As raízes mais profundas do problema climático: sobre culpa, arrependimento e renascimento. Disponível em: https://www.cristaosnaciencia.org.br/as-raizes-mais-profundas-do-problema-climatico-sobre-culpa-arrependimento-e-renascimento/  Acesso em 26 de dezembro de 2020.

[15]  Huntrods, Jessica. The technological Church –  Technological Heresy. Disponível em: <https://common.center/technological-heresy>. Acesso em 26 de dezembro de 2020.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

SCHUURMAN, Derek C. Moldando um mundo digital: Fé, cultura e Tecnologia Computacional; Trad. Leonardo Bruno Galdino. Brasília, DF: Monergismo, 2019 Não paginada.

SCHUURMAN, Egbert. Fé, esperança e tecnologia: ciência e fé cristã em uma cultura tecnológica. Trad. Thais Semionato. Viçosa, MG: Ultimato, 2016.

VERKERK, Maarten J. et al. Filosofia da Tecnologia: uma introdução. Trad. Rodolfo Amorim Carlos de Souza – Viçosa, MG: Ultimato, 2018.

WOLTERS, Albert M. A criação restaurada. Trad. Denise Meister. São Paulo: Cultura Cristã, 2019.

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