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Criados para criar

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Escrito por Vicente Alejando Alemán Daye, estudante do Programa de Tutoria Avançada 2022

Introdução

Inúmeras franquias clássicas da cultura pop estão perdendo pouco a pouco sua essência na medida em que procuram se adaptar às questões sociais e morais deste tempo. A militância e o apego ao politicamente correto tem feito com que muitos fãs insatisfeitos questionem as mudanças de rumo de grandes histórias, personagens e símbolos que influenciaram e marcaram suas vidas. Há uma dificuldade de  identificação com as mudanças nas jornadas desses grandes heróis, assim como com os novos personagens que estão sendo criados para substituí-los. Isso porque, frequentemente, eles vêm sendo representados a partir de preceitos libertários e progressistas de uma nova era. 

Dentre essas mudanças, poderíamos citar ícones culturais do mundo fantasioso como Marvel e DC, que trazem mudanças de gênero ou preferências sexuais de seus personagens, Star Wars, com mudanças de roteiro que interferem no cânon, e a empresa Blizzard Entertainment, que tem perdido a qualidade de suas histórias e a direção de projetos como World of Warcraft. Além desses, muitos outros poderiam ser citados como exemplos do que o escritor Gabriel García Márquez intitulou como crônica de uma morte anunciada.

Todas essas alterações de rumo e conteúdo da indústria de entretenimento refletem não só uma modificação estética em favor de minorias, mas também uma transformação de pensamento cultural, uma alteração na forma como a nossa era tem experimentado e vivido a pós-modernidade. Como foi expressado por Papa Wojtyla:

Cultura […] é em última análise o produto do culto. Como as pessoas pensam e o que adoram determina o que elas fazem e como vivem. A cultura, portanto, é o motor que guia os eventos e determina o destino. (WOJTYLA apud NAUGLE, 2017, p. 67)

Considerando a relevância da cultura pop sobre a vida das pessoas, isto é, a forma como ela reflete a cosmovisão e rege os propósitos do coração daqueles que a seguem, qual seria então o papel do cristão em relação à indústria de entretenimento e produção cinematográfica? Será que sua missão é realmente salvar e transformar a cultura pop? Esse é o debate ao qual se propõe o presente artigo.

Cristianismo e a cultura pop

Há muito tempo o debate dualista entre sagrado e secular tem afastado os cristãos do meio secular e os levado a viver em uma bolha cultural chamada “mundo gospel”. Quando convertidos ao cristianismo, o primeiro passo do jovem cristão é se purificar de toda cultura secular para se tornar um cristão santo e livre do pecado. Ainda que essa prática seja a mais comum entre os jovens cristãos brasileiros, ela não parece refletir a cosmovisão cristã.

David Naugle, em sua obra Cosmovisão: a história de um conceito, aponta que “as cosmovisões têm sua origem na busca da mente por uma estrutura que possa orientar as pessoas no mundo ao seu redor e nas questões últimas da vida” (NAUGLE, 2017, p. 30). Como igreja, ignorar os fatos que influenciam o mundo, além de um erro que levaria à destruição de muitas áreas da vida, é principalmente um pecado, dado que ignoramos o nosso chamado de pregar para toda língua e cultura.

É certo que, como afirma Francis Schaeffer (apud NAUGLE, 2017), todas as pessoas possuem uma cosmovisão. Absolutamente ninguém, não importa quem seja, pode viver sem uma. Toda cosmovisão é constituída a partir da experiência humana, o que significa que todas as pessoas que cresceram e aprenderam a descrever a realidade sem Deus precisam, a partir de sua conversão, rever sua forma de interpretar a realidade. Como afirma Cunningham:

Como imagem e semelhança de Deus, as pessoas estão no ápice da criação e, com base na dignidade intrínseca delas, devem se opor a todas as influências desumanizantes e agir para tornar o mundo um lugar melhor. Ao contrário do espírito de niilismo predominante na cultura atual, a criação de Deus está cheia de graça e significado. (CUNNINGHAM apud NAUGLE, 2017, p. 60)

Ainda que essa mudança na forma de interpretar a realidade seja necessária, isso não significa, no entanto, que todos devam rejeitar, desprezar ou até “transformar em gospel” tudo o que foi criado fora do contexto cristão. A cultura pop é cada vez mais parte do dia-a-dia dos seres humanos, um meio que, com as lentes bíblicas, ou seja, na medida em que é interpretada a partir de uma cosmovisão cristã, pode ser usada como ferramenta para a salvação de milhões de fãs, que só poderiam entender o evangelho a partir da linguagem utilizada por seu filme, seriado ou livro de ficção favorito.

O cristianismo não deve ser percebido somente como uma religião que aponta para as pessoas o que devem fazer para serem perdoadas. Mais do que isso, trata-se de uma visão completa do mundo e da vida. Como cristãos, todos devem perceber e compreender que sua fé tem muito a falar sobre tudo o que compete à vida humana. A cosmovisão cristã é a “única resposta crível para os profundos dilemas da vida secular moderna” (NAUGLE, 2017, p. 55).

A salvação da cultura pop

Se o papel do cristão não é desprezar ou rechaçar tudo o que foi produzido pela indústria de entretenimento a partir da cosmovisão secular, será então que seus esforços devem ser direcionados no sentido de salvar a cultura pop da degradação moral dos últimos tempos? De acordo com Naugle (2017), esse também não é o papel do cristão nesse contexto. 

Segundo o autor, para ser possível estar mais familiarizado com as transformações culturais presentes nos dias de hoje, a atenção do cristão deve ser direcionada no sentido de compreender “a cosmovisão, com sua ênfase nas diferentes formas que os seres humanos têm procurado descrever a realidade” (NAUGLE, 2017, p. 11). Além disso, para que sejam capazes de ressaltar e trazer visibilidade para as percepções contidas nessas outras visões que refletem e apontam para o evangelho. Como o próprio autor expõe:

O pensamento de cosmovisão modifica a abordagem do cristianismo com pontos de vista que lhe são divergentes. Não há por que rejeitar a priori ou se surpreender com verdades encontradas em outras filosofias e religiões; elas estão lá pela providência divina. E o cristianismo tampouco precisa ser modificado para acomodá-las. Ao contrário, ele valoriza as percepções genuínas contidas nas outras visões, ainda que separadas da sua fonte original” (NAUGLE, 2017, p. 32).

A visão de mundo cristã, na perspectiva do autor, é “o sistema superior que sintetiza e reunifica todas as verdades num todo vivo com o Cristo supremo” (NAUGLE, 2017, p. 32). Sendo assim, todos os esforços deveriam ser direcionados não para converter e santificar a cultura pop, mas, sim, para experimentar a vida com Cristo e desenvolver um coração suficientemente comprometido com as verdades bíblicas, que possa expressar uma cosmovisão cristã que extrai a essência divina dos lugares mais inusitados. Isso porque, como pode ser evidenciado nas palavras de Kuyper (apud, NAUGLE, 2017, p. 38), “não há uma só polegada quadrada no domínio total da […] existência humana sobre a qual Cristo, que é soberano sobre todas as coisas, não grite ‘Meu”’.

Além disso, é importante que o cristão entenda seu lugar de artista na criação e não permita que o dualismo entre o mundo material e espiritual o impeça de produzir arte e entretenimento a partir da cosmovisão cristã para um público não cristão. De acordo com Francis Schaeffer, “um artista faz um corpo de trabalho e esse corpo de trabalho mostra a cosmovisão do artista” (apud NAUGLE, 2017, p. 99).

 Sendo assim, não é necessário que o artista cristão se limite aos jargões e costumes culturais gospel para produzir sua arte, uma vez que isso pode levá-lo a desenvolver produções rasas e de baixa qualidade. O mundo material é também criação de Deus e deve ser percebido pelo artista como uma fonte inesgotável da revelação de Deus. Nas palavras de Naugle:

O mundo espiritual e o material estão intimamente conectados um no outro, eliminando qualquer divisão artificial entre eles. Deus não se opõe ao mundo material; o mundo material não se opõe a Deus. Visto que o mundo material é criação de Deus ele deve ser entendido como a fonte e a revelação da presença e provisão divinas. (NAUGLE, 2017, p. 74)

Conclusão

Considerando todo o exposto até aqui, vale ressaltar a importância de investir tempo e dedicação na construção de uma cosmovisão sólida, que esteja pautada no estudo bíblico e na dedicação a uma vida de intimidade com o Criador. Nas palavras de Naugle, “a ideia de cosmovisão é uma valiosa peça de ‘ouro egípcio’(…) podemos propor que os crentes precisam reivindicar a apropriação dessa ideia e convertê-la para o uso cristão”  (NAUGLE, 2017, p. 321, grifo do autor). 

A igreja deve ser luz daqueles que foram criados para criar, assim como o desenhador original propôs ao entregar a sua graça para que “a multiforme sabedoria de Deus se tornasse conhecida dos poderes e autoridades nas regiões celestiais” (Efésios 3:10). A partir dessa graça, cada seguidor de Cristo deve usar os seus talentos na elaboração de obras artísticas de todo tipo, que engrandeçam e reflitam o Criador.

Se aquele mundo de cultura pop tão aclamado está cada vez mais perdido, o ideal seria preencher essas lacunas que o mundo está sentindo com os valores bíblicos, para a construção de novos heróis, histórias para futuros comics, filmes, seriados, games, livros, etc. Não se trata de fazer isso para simplesmente ir contra a onda atual. É representar o evangelho da melhor maneira: criando.

O Senhor é o maior criador que existe. Ele entregou Jesus para tornar a cada artista cristão parte deste projeto, com a direção do Espírito Santo para que, em conjunto, seja feita uma verdadeira diferença com grandes narrativas inspiradas no cânon bíblico. Em suma, todo cristão é chamado a manifestar sua criatividade em favor do reino, procurando edificar a igreja e levar salvação mediante uma cosmovisão cristã que flui por meio da cultura pop. 


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Referências

NAUGLE, David K. Cosmovisão: a história de um conceito. Tradução de Marcelo Herberts. Brasília: Editora Monergismo, 2017. E-book. 535 p.

BÍBLIA SAGRADA: Nova Versão Internacional. São Paulo: Editora Vida, 2003. 1390 p.