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Uma lição para o século 21

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Escrito por Pedro Rendeiro, estudante do Programa de Tutoria Avançada 2022

Introdução

Jean-François Lyotard, em sua obra magna, A condição pós-moderna (1979), defende que a principal marca da pós-modernidade é a incredulidade em relação às metanarrativas1 (WATSON, 2012). De fato, essa tem sido a postura de inúmeros acadêmicos contemporâneos de peso. Dentre eles, tem se destacado, na última década, o historiador israelense Yuval Harari, que já vendeu mais de 35 milhões de cópias em 65 idiomas2. Independente da opinião sobre o autor e seus livros, sua enorme popularidade justifica uma análise cuidadosa de seu conteúdo.

Em seu livro 21 lições para o século 21 (2018), Harari deixa claro seu ceticismo em relação ao uso de “estórias” abrangentes como ferramenta para compreender a realidade. Tal postura é produto da desilusão gerada pelas grandes narrativas que regiam a interpretação do mundo no século passado, as quais foram incapazes de responder satisfatoriamente aos grandes dilemas da vida. Cabem, no entanto, duas perguntas. Primeiro, é possível escapar completamente desse tipo de narrativa? Além disso, será mesmo que não existe nenhuma narrativa satisfatória? O presente artigo tem por objetivo responder a essas perguntas e, com isso, apresentar não vinte e uma, mas uma única e valiosa lição para o século 21.

Começando do começo

Antes de partir para a análise proposta, é necessário esclarecer o entendimento deste autor sobre o conceito de cosmovisão, o qual será basal para todos os raciocínios a seguir. Afinal,

[s]e nós esperamos […] entender, o turbilhão cultural em que vivemos no presente, temos de nos tornar mais familiarizados com a perspectiva intelectual de um conceito central que elucida bem a situação – a saber, a cosmovisão, com sua ênfase nas diferentes formas que os seres humanos têm procurado descrever a realidade. (NAUGLE, 2017, p. 17)

O autor supracitado, David Naugle, é reconhecido como um dos maiores estudiosos em cosmovisão. Sua obra Cosmovisão: a história de um conceito (2017) apresenta o desenvolvimento histórico desse termo, que tem sido transformado enquanto passa pelas mãos de grandes pensadores desde o final do século 18. Atualmente, a definição mais refinada do conceito é atribuída ao cristão James Sire:

Cosmovisão é um compromisso, uma orientação fundamental do coração, que pode ser expresso como uma estória ou num conjunto de pressuposições (suposições que podem ser verdadeiras, parcialmente verdadeiras ou totalmente falsas) que sustentamos (consciente ou subconscientemente, consistente ou inconsistentemente) sobre a constituição básica da realidade, e que fornece o fundamento no qual vivemos, nos movemos e existimos. (SIRE, 2019, p. 179)

Destrinchar todas as nuances dessa definição foge ao escopo deste artigo. Entretanto, sempre que convier, faremos referência a ela e explicaremos o que for necessário. Dito isso, podemos seguir para a análise.

As narrativas são inevitáveis

Por mais atraente que seja a proposta de Yuval Harari, seu raciocínio é ingênuo, pois lhe falta entendimento sobre o caráter inevitável das metanarrativas. O autor encerra de maneira enfática seu capítulo sobre o sentido da vida: “A verdade não é uma história” (HARARI, 2018, p. 377). Conforme mencionado na introdução, tal incredulidade se harmoniza com o “espírito” da pós-modernidade. O teólogo Glenn Watson, em diálogo com a obra de Lyotard, oferece um entendimento mais preciso do que reside por trás desse tipo de afirmação:

A palavra original em francês “incredulité” carrega uma nuance ligeiramente mais forte do que a palavra “incredulidade” ou “descrença”, e chega mais perto de descrever a suspeita e a resistência total presente na cultura contemporânea com relação a qualquer afirmação da verdade absoluta. (WATSON, 2012, p. 77)

Os pensadores pós-modernos se colocam contra as metanarrativas porque se incomodam com as afirmações de verdade que elas carregam. Contudo, enquanto grande energia é gasta na tentativa de se livrar das narrativas, James Sire coloca a seguinte questão:

Na medida em que os estudiosos pós-modernos tentam rejeitar todas as metanarrativas, eles ilustram uma metanarrativa através de sua rejeição. Pois a noção de que todas as metanarrativas são suspeitas é em si mesma uma “estória” abrangente sobre outras estórias abrangentes. (2019, p. 147)

Harari admite que as narrativas assumem um papel central na vida da maior parte das pessoas (HARARI, 2018, p. 331), mas ainda acredita ser possível evitá-las. A pergunta que fica é esta: se devemos abandonar as estórias, o que ficará em seu lugar? A resposta do autor a essa pergunta é curiosa. Para ele, a forma mais eficaz de se conhecer o mundo em que vivemos é por meio da prática da meditação. Sobre sua experiência com a meditação vipassana, o autor afirma: “aprendi mais sobre mim mesmo e sobre os seres humanos em geral […] E para isso eu não tive de aceitar nenhuma narrativa, teoria ou mitologia. Tive apenas de observar a realidade tal como ela é” (HARARI, 2018, p. 382, grifo nosso). Novamente, é James Sire quem ajuda a enxergar a fraqueza desse raciocínio, como mostraremos a seguir.

No trecho citado, Harari faz uma afirmação sobre como podemos conhecer a realidade – por meio da meditação. Note, porém, que por trás disso está pressuposto um entendimento sobre o que a realidade é. James Sire deixa claro que, na formação de uma cosmovisão, a primeira pergunta deve ser: “qual é a realidade primordial – o realmente real?” (SIRE, 2019, p. 78). Aquilo que – de todo o coração, de toda a alma, de todas as forças e de todo o entendimento – alguém assume como sendo o “realmente real” limita as formas como essa pessoa pode enxergar o mundo. Yuval Harari pressupõe a não existência de Deus e, por isso, está limitado a cosmovisões materialistas. Nesse caso, parece razoável afirmar que ele está comprometido com uma estória em que o cosmos é puramente material. O problema da humanidade é sua incapacidade de conhecer a realidade, de modo que a solução é experimentar a realidade prescindindo de qualquer metanarrativa.

Em outra parte do livro, o historiador curiosamente reconhece o risco de “nenhuma história” se transformar em alguma história (HARARI, 2018, p. 372). Todavia, ele não percebe que ele mesmo incorre nesse erro. Ademais, o próprio autor fornece uma explicação interessante para a dificuldade das pessoas de questionar sua própria metanarrativa. “Quando você inflige sofrimento a si mesmo em nome de [sic] alguma narrativa, isso lhe dá uma escolha: ‘Ou a narrativa é verdadeira ou eu sou crédulo e tolo’” (HARARI, 2018, p. 353-354). Desde o ano 2000, Yuval Harari tem dedicado duas horas por dia à meditação (HARARI, 2018, p. 382-383). Uma conta rápida demonstra que, ao longo de aproximadamente 18 anos até o lançamento de 21 lições para o século 21, o escritor investiu pelo menos 13.870 horas meditando – isso sem considerar seus retiros anuais de 1 a 2 meses. Em seus próprios termos, admitir que sua empreitada não o levou para mais próximo da verdade e da realidade equivaleria a emitir um certificado de tolice para si mesmo.

Tudo isso está de acordo com a definição refinada de cosmovisão. Nela, o conceito é posto como um compromisso fundamental de todo ser humano – por isso, extremamente difícil de ser questionado – sobre a constituição básica da realidade e que pode ser expresso de forma narrativa. Com isso, construímos o seguinte silogismo: cosmovisão é inevitável, e toda cosmovisão pode ser expressa como narrativa; logo, as narrativas são inevitáveis.

A narrativa cristã é subversiva

É possível dar um passo atrás e perguntar por que o pensador israelense se tornou incrédulo quanto às metanarrativas. Com isso, pretendemos esclarecer que a narrativa cristã atende aos grandes anseios de nossa época, mas não necessariamente da forma esperada. A própria história de Yuval ajuda a trazer luz sobre essa questão.

“Eu fui um adolescente perturbado e inquieto. O mundo não fazia sentido para mim, e eu não obtinha respostas para as grandes perguntas que fazia sobre a vida” (HARARI, 2018, p. 378). Tudo que ele encontrava eram mitos políticos ou religiosos que não lhe eram convincentes. Ao entrar na faculdade, o desapontamento se manteve: “O mundo acadêmico me proveu de ferramentas poderosas para desconstruir todos os mitos humanos jamais criados, mas não ofereceu respostas satisfatórias para as grandes questões da vida” (HARARI, 2018, p. 379).

Como resultado, o estudioso abriu mão de coisas que antes ele buscava. Primeiro, desistiu da possibilidade de encontrar verdade em uma narrativa. “Ainda que uma boa narrativa tenha de atribuir a mim um papel, e se estender além de meu horizonte, ela não precisa ser verdadeira.” (HARARI, 2018, p. 345). Além disso, negou a necessidade de consistência no comportamento daqueles que adotam determinada estória-mestre:

As pessoas raramente depositam toda sua fé numa única narrativa. Em vez disso, mantêm um portfólio com várias narrativas e diversas identidades, passando de uma para outra quando surge necessidade. […] Às vezes várias de minhas identidades puxam-me para diferentes direções, e algumas de minhas obrigações entram em conflito uma com a outra. Mas quem disse que a vida é fácil? (HARARI, 2018, p. 357-358)

Diante disso, passamos a questionar se a narrativa cristã também padece da falta de verdade e se ela exige consistência no comportamento de seus seguidores.

Em primeiro lugar, é importante destacar que o cristianismo não fornece a “verdade” que muitos procuram. Se no crivo da “verdade” só passa aquilo que pode ser comprovado pela razão autônoma, então a fé cristã jamais será considerada verdadeira3. Contudo, pressupondo que a “verdadeira realidade” é constituída pelo Deus bíblico e por sua criação, deve-se assumir que a narrativa cristã é verdadeira.

Em segundo lugar, não há dúvidas de que a fé bíblica exige comprometimento exclusivo por parte de seus seguidores, afinal, “ninguém pode servir a dois senhores” (Mateus 6:24, NVT). Entretanto, os cristãos vivem na intersecção entre a narrativa bíblica e a cultural. Como ser completamente fiel à Bíblia nesse ambiente? “Tudo depende de qual dessas narrativas for considerada básica, inegociável, a verdadeira narrativa de nosso mundo” (GOHEEN e BARTHOLOMEW, 2016, p. 32).

É dessa forma que a narrativa cristã atende mas também subverte os anseios de nossa geração. Atende, pois lhe oferece a verdade. Subverte, porque a verdade não assume o formato racionalista que muitos desejariam.

Conclusão

Fica evidente, portanto, que o projeto da filosofia pós-moderna – incorporada na obra de Yuval Harari – é impraticável, pois se esforça em vão para eliminar as inevitáveis metanarrativas. Com isso, concluímos que a lição mais importante para o século 21 vem em forma de história: “Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (João 3:16, ARA).


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1 Utilizamos os termos metanarrativa, estória-mestre e estória – ou narrativa – abrangente de forma intercambiável neste texto.

2 Segundo as informações disponíveis em seu site, https://www.ynharari.com/pt-br/about/. Acesso em 06/03/2022.

3 É claro que esse tipo de afirmação é complexo e gera controvérsias mesmo entre os cristãos mais comprometidos. Para um estudo detalhado sobre o papel das pressuposições na apresentação da fé cristã, v. FRAME, John. Apologética para a glória de Deus. Tradução: Wadislau Gomes. 1 ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. 224 p.


Referências bibliográficas

GOHEEN, Michael W.; BARTHOLOMEW, Craig G. Introdução à cosmovisão cristã: vivendo na intersecção entre a visão bíblica e a contemporânea. Tradução: Marcio Loureiro Redondo. 1 ed. São Paulo: Vida Nova, 2016. 272 p.

HARARI, Yuval N. 21 lições para o século 21. Tradução: Paulo Geiser. 1 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. 446p.

NAUGLE, David K. Cosmovisão: a história de um conceito. Tradução: Marcelo Herberts. 1 ed. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2017. 488 p.

SIRE, James W. Dando nome ao elefante: cosmovisão como um conceito. Tradução: Paulo Zacharias e Marcelo Herberts. 2 ed. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2019. 246 p.

WATSON, Glenn. Proclamado o Evangelho como metanarrativa aos ouvintes pós-modernos. Tradução: João Ricardo Morais. Revista Batista Pioneira v. 1, n. 1, junho/2012, páginas 75-88.