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Drama moral: o homem em desordem

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Escrito por João Uliana Filho, estudante do Programa de Tutoria – Turma Avançada 2020

INTRODUÇÃO

Segundo o teólogo americano John Frame, “o pecado é a disrupção de um relacionamento pessoal [com Deus] e causa disrupções adicionais [na criação]; uma tentativa de reverter a ordem da criação“[1]. A ideia central é que a ordem relacional criada por Deus teve seu curso interrompido e desviado de seu eixo original. A partir dessa disrupção, que em teologia chamamos de Queda, outras surgem, e a criação entra em desordem.

A tradição reformacional[2], especialmente na pessoa de Herman Dooyeweerd, traz uma proposta antropológica. Remontando até as raízes do cristianismo primitivo e da tradição filosófica, avalia a condição humana desde a perspectiva mais fundamental do seu ser. Ao revisitar esses passos encontramos na filosofia do pensador francês Blaise Pascal elementos ressonantes que se fundem, guardadas todas as suas distinções. Eles nos ajudam a compreender a desordem causada pela Queda, bem como nossa atual condição diante de Deus e do mundo.

1. O LOCAL DA RAZÃO TEÓRICA

Herman Dooyeweerd trabalha em “No Crepúsculo do Pensamento Ocidental” com a ideia de coração como o “centro religioso de nossa existência […] a raiz espiritual de todas as manifestações temporais de nossa vida”[3]. Essa é a direção tomada pela revelação bíblica para iniciarmos a análise de questões últimas como, o que é o ser humano, como conhecemos e o que nos define.

Claro que essas questões podem assumir diversas direções, mas podemos considerá-las aqui como uma busca pelo centro existencial do Homem, por aquilo que nos define como seres humanos. Na linguagem de Dooyeweerd, no coração está o ponto arquimediano do ser humano, que unifica e direciona todas as nossas atividades. Nesse sentido, entendemos que o coração guarda nossos compromissos mais íntimos, a partir dos quais se desenvolvem todas as nossas perspectivas.

O trabalho de Dooyeweerd não surge no vácuo, mas em diálogo e antítese com a tradição filosófica que assumiu também seus pressupostos. Hans Rookmaaker, herdeiro da tradição reformacional, ao se referir à filosofia de seu antecessor, Dooyeweerd, aponta que “esta filosofia começa pela refutação do ponto de vista básico das filosofias mundanas, a saber, que o conhecimento é pretensamente neutro, não influenciado pela fé do estudioso”[4]. A filosofia moderna, humanista, desde o Renascimento assumiu como seu pressuposto o postulado da neutralidade, como se a razão humana operasse diretamente sobre o mundo e por si mesma produzindo conhecimento. A crítica transcendental operada por Dooyeweerd sobre o pensamento teórico, porém, compreenderá que não há pensamento neutro, visto que a razão não existe e não atua como um fim em si mesma ou uma entidade separada do ser humano, mas como produto de algo que lhe é anterior — seus compromissos religiosos em seu coração. A razão não pode referenciar-se a si mesma, mas atua sustentada sobre uma base que é anterior a ela.

Portanto, “o pensamento teórico não pode fornecer, a partir de si mesmo, essa direção concêntrica. Somente o ego central pode fazê-lo, desde um ponto de vista suprateórico”[5], ou seja, para além da atitude teórica que é conduzida pela razão, existem compromissos suprateóricos e pré-teóricos que dão sentido e direção.

2. O PECADO DO CORAÇÃO

Identificamos o coração como centro de toda atividade humana. Do conhecimento teórico à ação prática, tudo se equilibra sobre ele, centro da vontade moral e psíquica. Mas este é só primeiro passo. A reflexão se afunila porque se o problema concernente ao ser humano não é a razão em si, visto que é produto e não causa, e que do contrário poderia ser solucionado com um mero ajuste teórico, nos perguntamos, então, o que há no coração humano que constitui nossa desordem.

Partindo da estrutura criacional, saímos de um estado de ordem para um estado de desordem como consequência do pecado, como dito na Introdução. Em termos teológicos podemos afirmar que “a queda no pecado pode ser resumida como uma ilusão surgida no coração humano, segundo o qual o eu humano tem a mesma existência absoluta que o próprio Deus”[6].Essa inversão moral e hierárquica que buscou igualar criatura e Criador, motivada pela ilusão orgulhosa de ser igual a Deus [7], desorientou a estrutura original da criação, tornando o Homem inimigo de Deus.

O tema da Queda é caro à teologia cristã desde os pais da Igreja, especialmente Agostinho, e fundamental para toda a tradição cristã. Especialmente retomado na Reforma por Calvino e Lutero, e posteriormente pelo neocalvinismo holandês. Compreender a condição humana neste estado de pecado é crucial para o desenvolvimento teórico e prático do ser humano, seja na tarefa apologética ou mesmo no discipulado. Não se pode ignorar a raiz do problema.

Para Pascal, filósofo francês do século XVII de tradição agostiniana e jansenista [8], esta matéria também se constitui de elevada importância. Enquanto matemático, físico e inventor, era alguém especialmente ligado às categorias da razão e seu notável alcance. Contudo, religioso e dedicado à teologia, sabia que a condição humana padecia de algo grave, que a razão não é capaz de sobrepor-se em todos os aspectos da existência, ainda que tenha grande importância.

O filósofo italiano N. Abbagnano descreve Pascal da seguinte forma:

Na luta pela razão […] a voz de Pascal é discordante. […] Pascal aceita e torna seu o racionalismo do domínio da ciência, embora reconhecendo que o racionalismo possa estender-se à esfera da moral e da religião. Pascal considera que nesse campo a primeira e fundamental exigência é uma compreensão do ‘homem’ como tal, e que a razão é incapaz de alcançar essa compreensão”. [9]

Pascal tem em alta estima a razão. Segundo ele, a razão coloca o ser humano na mais alta consideração de toda a criação, contudo ela permanece limitada, visto que a insuficiência constitui um dado da criação. De fato, mesmo antes da Queda, o ser humano não constituía-se pleno, mas insuficiente, limitado, finito e dependente de Deus. Mas a partir da Queda, tornamo-nos além de insuficientes, voltados para o mal, e essa condição, “a(s) miséria(s) da vida humana” [10] nos acompanha desde então.

Nossa condição ontológica, portanto, sofre com as consequências do pecado. Assim como Dooyeweerd demonstrou que a razão não partia de uma neutralidade que a tornava absoluta porque era incapaz disso, Pascal descreveu que “aquilo que está fundamentado na sã razão está bem mal fundamentado”[11], visto que todos os seres humanos, em seu estado pós Queda, são “incapazes tanto para a verdade quanto para o bem”[12].

Então, para Pascal, a condição do Homem é de insuficiência em si mesmo, em todos os sentidos possíveis. Diz ele:

“Porque afinal, se o homem nunca tivesse sido corrompido, gozaria, em sua inocência, tanto da verdade como da felicidade com segurança. E, se o homem nunca tivesse sido senão corrompido, não teria nenhuma ideia da verdade, nem da beatitude. Mas desgraçados que somos, e mais do que se não houvesse grandeza em nossa condição, temos uma ideia da felicidade e não podemos chegar a ela. Sentimos uma imagem da verdade e não possuímos senão a mentira. Incapazes de ignorar de modo absoluto e de saber de modo certo, tão manifesto está que já estivemos num grau de perfeição do qual infelizmente decaímos”.[13]

Dessa maneira, para Pascal, qualquer tentativa ou expectativa de autonomia ou neutralidade da razão será infundada. Não há segurança alguma da razão, apenas contradições e incertezas, visto que “nada existe tão conforme a razão quanto desmentir a razão” [14] e não é justamente este o método científico?

3. O CORAÇÃO EM ORDEM

Nas palavras de Dooyeweerd: “o pecado original não poderia destruir o centro religioso da existência humana com seu impulso religioso inato de buscar sua Origem absoluta”[15]. Assim como Pascal expôs que possuímos uma ideia de felicidade que não podemos alcançar por nós mesmos, Dooyeweerd conscientemente sabia que o coração empenhava-se nessa busca pela Origem de todas as coisas, e este é o ponto crucial de todo o nosso desenvolvimento. É pelo coração que apreendemos os dados da realidade, como apresentamos no primeiro capítulo, dado que podemos ressoar também em Pascal: “Conhecemos a verdade não apenas pela razão, mas também pelo coração. É desta última maneira que conhecemos os primeiros princípios, e é em vão que o raciocínio, que não toma parte nisso, tenta combatê-los”.[16]

Como isso pode ser operado? Decerto que não por nossos próprios impulsos ou faculdades, mas tão somente pela graça, segundo os méritos de Jesus Cristo, capazes, suficientes e eficientes para reordenar o coração desordenado pelo pecado. Dizendo com Dooyeweerd:

“a ideia de que um verdadeiro autoconhecimento possa ser restabelecido por meio de uma filosofia existencialista, à parte da ‘Palavra-revelação’ divina, nada mais é do que a velha ilusão de que o ‘eu’ é algo em si mesmo, independente do Deus que se revelou como Criador”[17].

Esse humanismo suficiente é rejeitado insistentemente em Pascal. Nessa questão, o filósofo e professor L. F. Pondé traz o pensamento de Pascal nas seguintes palavras: “Adão pecou porque foi o primeiro dos humanistas. O humanismo é antes de tudo uma suposição de que o homem pode ser pensado como um ser suficiente [18].

É do coração que procedem todas as nossas ações. Um coração comprometido consigo mesmo, ligado ao reino do eu, rejeita a Deus, repete o que houve no Éden, e encontra-se em sua miséria. Um coração regenerado pela graça que jamais mereceu, olha para o Senhor Jesus com humildade, reconhece sua insuficiência e, saindo do amor próprio lança-se no amor de Deus.

CONCLUSÃO

O drama moral do ser humano, portanto, é antropológico, e só será abordado suficientemente a partir da compreensão de que o seu centro unificador — inclusive moral — é o coração. E a partir disso, reconhecer a condição do coração humano, que seu afastamento de Deus em direção a si mesmo constitui em uma desordem que o prende na ilusão de uma vida nada mais que miserável. Qualquer tentativa humana, ainda que bem intencionada, redundará em idolatrias, angústias, incertezas e fracassos. Só uma ajuda externa pode reorientá-lo em direção à verdade; só a Palavra-revelação, Jesus Cristo, tem esse poder, que nos permitirá encontrar com o Criador ao final do dia.


[1] Frame, John. Teologia Sistemática, 2019, p. 198. Grifo nosso.

[2] Especialmente a teologia e filosofia desenvolvidas na Holanda a partir de Abraham Kuyper, importante teólogo e estadista, no início do século XX.

[3] Dooyeweerd, H. No Crepúsculo do Pensamento Ocidental. 2018, p. 236.

[4] Rookmaaker, Hans R. Filosofia e Estética. 2018, p. 21.

[5] Herman Dooyeweerd, op. cit. p 68.

[6] Ibidem, p. 240.

[7] cf. Gn 3:5.

[8] Referente às doutrinas teológicas elaboradas por Cornelius O. Jansenius, bispo católico romano do século XVII.

[9] N. Abbagnano apud Antiseri D. e Reale G. Filosofia: idade moderna, vol 2. Trad. José Bortolini. Edição Revista e Ampliada. São Paulo, SP: Paulus, 2017.

[10] B. Pascal. Pensamentos, Laf. 10.

[11] B. Pascal. Pensamentos, Laf. 26.

[12] B. Pascal. Pensamentos, Laf. 28.

[13] B. Pascal. Pensamentos, Laf. 131.

[14] B. Pascal. Pensamentos, Laf. 182.

[15] H. Dooyeweerd. op. cit. 240–241.

[16] B. Pascal. Pensamentos, Laf. 110.

[17] Herman Dooyeweerd. op. cit. 241

[18] Pondé, L.F. O Homem Insuficiente: comentários de antropologia pascaliana. São Paulo, SP: EDUSP, 2014.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANTISERE, Dario e REALE, Giovanni. Filosofia: idade moderna, vol. 2. Edição Revista e Ampliada. Tradução José Bertolini. São Paulo/SP: Paulus, 2017.

BÍBLIA SAGRADA: Nova Versão Transformadora. São Paulo/SP: Mundo Cristão, 2016.

DOOYEWEERD, Herman. No Crepúsculo do Pensamento Ocidental: estudos sobre a pretensa autonomia do pensamento filosófico. Tradução Guilherme de Carvalho e Rodolfo Amorim Souza. Brasília/DF: Editora Monergismo, 2018.

FRAME, John. Teologia Sistemática. Tradução Jonathan Hack, Markus Hediger. São Paulo: Cultura Cristã, 2019.

PASCAL, Blaise. Pensamentos. Edição, apresentação e notas Luis Lafuma; tradução Mario Laranjeiras. São Paulo/SP: Martins Fontes, 2005.

PONDÉ, Luiz Felipe. O Homem Insuficiente: comentários de antropologia pascaliana. São Paulo/SP: Editora da Universidade de São Paulo, 2014.

ROOKMAAKER, Hans R. Filosofia e Estética. Tradução William Campos da Cruz. Brasília/DF: Editora Monergismo, 2018.

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