Esgotamento infantil: sinais de um progresso capitalista?

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Escrito por Ana Ester Correia Madeira de Souza, estudante do Programa de Tutoria – Turma Avançada 2020

INTRODUÇÃO

Falar sobre esgotamento infantil não parece ser um tema para um artigo da área de teologia, mas os últimos trinta dias revelaram um conhecimento completamente novo: o momento atual da nossa sociedade está muito longe de ser um progresso como Deus sonhou, porque em suas raízes fez promessas que não pode cumprir. Nesse processo, muitos foram atingidos, mas o foco desse artigo são as crianças: o que aconteceu com elas? O que aconteceu com a infância?

A cultura ocidental enfrenta problemas que, infelizmente, não são novidades para a sociedade. De acordo com Goudzwaard (2019) são muitos, como problemas ambientais gerados pela industrialização, e o desemprego por conta da quebra da economia ocidental. Mas a grande questão não são eles em si, mas o fato de se acumularem e se tornarem cada vez mais complexos.

Quando se trata de infância o problema que se instala é ainda mais profundo, porque se trata de uma condução da criança para ser o resultado de um progresso e não um ser humano integral que vive sua vida por completo sem a influência de uma sociedade focada numa promessa de avanço que ignora as razões mais profundas de alguém: suas raízes religiosas, aquilo que o impulsiona.

Tudo isso gerou um esgotamento, não somente aquele fisiológico onde o ser humano se cansa de “correr atrás do vento”, mas também um esgotamento de um tempo cheio de promessas vazias, com respostas simples e sem sensibilidade a uma sociedade plural e complexa.

A PÓS-MODERNIDADE E A INFÂNCIA

Quando falamos da infância, não nos referimos a um momento de transição, mas um espaço dentro da sociedade que tem a sua importância. Falamos de pessoas que têm a infância comprometida com tantos compromissos de “futuros profissionais”, sempre pensando num momento a acontecer, vivendo pouca infância como algo natural.

Compromissos intensos na escola: aulas de música, esportes, idiomas, horários totalmente comprometidos, além do próprio período escolar. Na igreja? Compromissos com inúmeros eventos (longe de efetivamente “crescer com Cristo”). E a tentativa para resolver todos os problemas gerados por esse esgotamento é trocar uma estrutura, como se isso em si fosse a solução.

No entanto, conforme afirma Goudzwaard (2019), todo tipo de argumento estrutural tem uma falha porque pensa somente nisso: na estrutura pairando sobre nós como se ela não fosse fruto de nós mesmos e nossos compromissos últimos. O autor vai nos ajudar a identificar onde está a “fé, esperança e amor” dos compromissos últimos da nossa cultura ocidental. Assim como Dooyeweerd (2018), Goudzwaard vai se preocupar com o motivo base de uma sociedade: a capitalista, que trouxe um arranjo cultural orientado por um instrumental técnico, tecnológico e econômico, relacionando-se uma fé religiosa no progresso.

Goudzwaard (2019) afirma que, para o progresso acontecer, a sociedade precisava se organizar horizontalmente porque a hierarquização não dava lugar para o desenvolvimento, para o progresso, uma crença virada pra natureza do ser humano tirando a hegemonia da igreja como se Deus “não se envolvesse” em questões econômicas.

Desta forma, Goudzwaard (2019) afirma que a fé no progresso coloca no futuro todas as expectativas, onde Deus não mais intervém, mas o homem “toma as rédeas” da situação, focando na ação do homem. Momento este que começa a revelar as falhas desse progresso com raízes reducionistas, uma luta por algo desde que a criança nasce com promessas que não são cumpridas ao longo da vida: uma infância dedicada a compromissos meramente sociais que não respondem aos anseios mais profundos do coração dela. Na tentativa de responder a essas questões, criam-se soluções que apenas arranham a superfície dos problemas, conforme Goudzwaard, uma incapacidade do sistema de nos levar a pensar no que realmente importa.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nessa pequena reflexão não pretendo trazer uma resposta, porque ela já está na Bíblia, Salomão que passou por essa busca deixou registrado que tudo era vaidade, era “correr atrás do vento” (Eclesiastes 2.11). Portanto, enquanto professora e se Deus permitir futura mãe, quando vamos ensinar propósito às crianças sem comprometer cada momento da sua caminhada? Goudzwaard (2019) fala da nossa postura pública de presença fiel, que precisamos de resposta à altura dessa natureza.

E a resposta é um resgate de prioridades dos compromissos últimos do nosso coração, revelar mais de uma norma que vem de Deus para mais de uma esfera, todas com as suas funções, todas com o seu propósito: uma família, uma igreja que sinaliza para questões para além dessa fé no progresso. Trata-se de uma renovação do coração para então mudar a sociedade como um todo e respirar diante deste esgotamento.


REFERÊNCIAS

DOOYEWEERD, Herman. No crepúsculo do pensamento ocidental. Trad. Guilherme de Carvalho e Rodolfo Amorim de Souza. Brasília, DF: Editora Monergismo, 2018.

GOUDZWAARD, Bob. Capitalismo e progresso: um diagnóstico da sociedade ocidental. Trad. Leonardo Ramos. Viçosa, MG: Ultimato, 2019.

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