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Guias cegos: Tomás, Dante e a influência de pensadores pagãos no período escolástico

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Escrito por Lucas Vasconcellos Freitas, estudante do Programa de Tutoria Filosófica 2022


“Pois, conforme o Filósofo…”

Tomás de Aquino, Compêndio de Teologia, I, II, §1


“Oh! Virgílio, tu és aquela fonte

Donde em rio caudal brota a eloquência?”

Dante Alighieri, Inferno, Canto I, 79-80


O período escolástico é bastante criticado em círculos Reformados devido ao seu esvaziamento da autoridade escriturística em favor de fontes extra-bíblicas e pagãs. Não por acaso um dos cinco princípios basilares da Reforma é justamente o retorno às Escrituras como fonte primordial do conhecimento de Deus e do mundo. Contudo, até que ponto isto é observável nas obras produzidas durante o período escolástico? Este ensaio propõe avaliar a validade ou não desta crítica por meio de um aspecto específico da obra de dois luminares do pensamento medieval: Tomás de Aquino e Dante Alighieri. Analisaremos a questão por meio do amplo uso das ideias de Aristóteles em Tomás de Aquino e do poeta Virgílio em Dante Alighieri, com foco especial em duas obras: o Compêndio de Teologia1, uma espécie de sumário da teologia tomasiana2, e A Divina Comédia3, obra-prima do poeta italiano.

Pontos Focais

A dificuldade que imediatamente se impõe é a imensurável importância de Tomás de Aquino e Dante Alighieri para a história do pensamento humano. Tomás e Dante viveram e escreveram em um período importante: a virada do século XIII para o XIV. A importância de ambos se dá por agirem como uma espécie de ponto focal de toda produção intelectual humana conhecida até ali. Como pontos focais da filosofia e da literatura, respectivamente, ambos representam o ponto em que a luz está mais concentrada. Porém, ultrapassado este ponto, a luz volta a difundir-se em várias direções, com desdobramentos perenes, que exploraremos mais adiante.

Começando por Tomás, temos que ele atuou em um momento em que a translação dos estudos árabes atingia o seu ápice. Após séculos sendo digeridos filosoficamente nas entranhas do mundo árabe, os escritos de Aristóteles finalmente chegavam à Europa4. Dado o pH monoteísta em que as obras do filósofo estagirita estiveram imersas, as traduções do árabe para o latim destas obras foram rapidamente incorporadas ao pensamento cristão escolástico medieval5, encontrando em Tomás de Aquino um de seus maiores defensores. É reducionista dizer que Tomás é um pensador puramente aristotélico. Mesmo no Compêndio de Teologia, proposto como uma síntese de seu pensamento, Tomás cita pensadores gregos de outras matizes6. No entanto, a presença de Aristóteles é tão forte que Tomás, seguindo a prática acadêmica de sua época, refere-se a ele apenas como “o filósofo”7. Assim, apesar de não ser exclusiva, a influência de Aristóteles no pensamento tomasiano é absolutamente inegável8.

Dante atua nos calcanhares de Tomás, que morreu enquanto o poeta ainda era adolescente, mas legou-lhe boa parte da teologia que inspirou a Divina Comédia9. Seria exagero dizer que a Comédia é uma espécie de versificação das Sumas tomasianas10, mas a influência da teologia tomista é bastante evidente. Aqui, basta citar que Dante coloca Tomás no círculo solar do Paraíso (Canto X), reservado a teólogos, e que o doutor angélico é quem apresenta ao poeta os demais luminares do conhecimento teológico. Esta aparição simboliza que Dante conheceu a teologia dos demais pela voz de Tomás. Porém, a influência de Tomás vai além de apresentar a Dante, literal e figuradamente, o conhecimento teológico das eras passadas. Assim como Tomás aceita ser conduzido pelo pensamento de Aristóteles ao longo da maior parte de sua jornada teológica, Dante tem o poeta romano Virgílio como guia ao longo dos dois primeiros livros da Comédia11, a saber, o Inferno e o Purgatório. A metodologia de exploração por meio de guias pagãos é compartilhada por ambos.

Aqui, é necessário cuidado para não exagerar. Ambos tinham plena convicção de que o trabalho dos pagãos era incompleto. No entanto, o local em que Dante posiciona os grandes pensadores pagãos em sua geografia do pós-vida é um indicativo forte da simpatia oferecida naqueles tempos aos grandes filósofos e poetas da antiguidade greco-romana. O poeta italiano tem plena consciência de que estes homens não foram iluminados pela revelação divina e que, portanto, estão inaptos a participar da vida eterna desfrutada pelos santos. No entanto, ele posiciona poetas como Homero e Virgílio, além de filósofos como Aristóteles, chamado apenas de “O Mestre”, Platão, Sócrates, Anaxágoras e Avicena no primeiro círculo do Inferno dantesco, o limbo12. Dante fica extasiado de vê-los ali e honrado de ser convidado a permanecer na companhia dos poetas que tanto admira13, o que faz o primeiro círculo do inferno parecer quase uma “colônia de férias” eterna para aqueles que não alcançaram a fé salvífica, mas viveram uma vida virtuosa. Tais homens jamais alcançariam o objetivo que Tomás afirma ser o mais importante para os seres humanos, qual seja, a contemplação de Deus14. No entanto, para Dante, nenhum deles mereceria uma vida de danação eterna, afinal foram virtuosos15. Por isso, o melhor que se pode oferecer a eles é uma existência eterna privada da contemplação de Deus, mas imune aos sofrimentos infligidos aos maus nos demais círculos do inferno16.

Porém, apesar da enorme estatura, nem Tomás, nem Dante estão acima do espírito de seu próprio tempo. Treinados na tradição escolástica medieval beneditina, ambos receberam as artes liberais como prolegômenos aos estudos teológicos. É inevitável que o instrumental aprendido de autores pagãos ao longo dos vários anos dedicados à retórica, à lógica e à ética pagãs fosse empregado livremente no estudo da teologia. Para quem só tem um martelo, tudo vira prego. Munidos deste martelo proverbial, Tomás e Dante afixaram firmemente nas portas da igreja as cores da bandeira pagã.

Luz Refratada

Se esta é a perspectiva assumida pelos luminares mais importantes dos séculos XIII e XIV, é natural que esta abordagem ganhasse corpo com o passar dos anos. No seio da igreja, Tomás de Aquino é canonizado em 1323 pelo papa João XXIII, recebendo a alcunha de “doutor angélico”. Suas obras, notadamente a Suma Teológica, tornam-se livros-texto do monasticismo beneditino, com o Compêndio de Teologia agindo como uma espécie de sinopse17. O Doutor Angélico permanece até hoje como o modelo máximo da teologia católica. Do lado das artes, a escolha de Dante pelo idioma florentino, dialeto derivado do latim amplamente falado em sua região de origem, mostrou-se acertada. O poeta não apenas demonstrou que a língua franca do povo era capaz de ser usada de maneira sublime, como também possibilitou que sua obra fosse imensamente popular18. Por tabela, a teologia tomasiana, ao menos como interpretada por Dante, tornou-se igualmente conhecida. Considerando que a Vulgata, em latim, era a versão oficial das Escrituras Sagradas à época, é natural que uma obra que traduzisse conceitos teológicos bastante áridos em linguagem viva, eloquente e vernacular eventualmente suplantasse o conteúdo bíblico no imaginário popular19. Daí a ampla penetração das imagens apresentadas por Dante em sua Divina Comédia até os dias de hoje.

Debaixo da influência dupla da teologia de Tomás e da poesia de Dante, as Escrituras acabaram inevitavelmente deixadas de lado em detrimento de fontes pagãs. Quando apelamos para guias cegos, é grande o risco de cairmos em um barranco (Mateus 15:14). Não por acaso, após Tomás e Dante, a teologia fica cada vez mais hermética e o povo torna-se cada vez mais dependente das autoridades eclesiásticas para estabelecer em que consiste a fé20. O Doutor Angélico certamente protestaria dizendo que a teologia é um complemento absolutamente necessário à filosofia21. Pode ser, mas a que preço convidamos os pagãos a pregar na igreja? A postura de Dante, por outro lado, é mais difícil de imaginar. Ficaria ele chocado ou lisonjeado com a recepção quase canônica de sua obra? Difícil saber, mas poucas obras influenciaram tanto o imaginário popular quanto a Divina Comédia.

Fato é que, debaixo da luz refratada por Tomás e Dante, revelam-se as cores pagãs que adornavam a porta da frente da igreja e delineia-se no horizonte o vulto de uma necessária reforma teológica e eclesiástica. Em breve ressoariam nas portas as batidas de outro martelo…


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1 TOMÁS DE AQUINO, Compêndio de Teologia, Sertanópolis, PR: Calvariae, 2020. Todas as demais citações neste ensaio mencionarão apenas o nome da obra, o número do tratado, o capítulo, o parágrafo e a subdivisão. Alternativamente, o número da página, se for o caso.

2 MOURA, Dom Odilão, Prefácio à Tradução, in: Compêndio de Teologia, Sertanópolis, PR: Calvariae, 2020, 17.

3 ALIGHIERI, Dante, A Divina Comédia, São Paulo: Atena, 1955. Todas as demais citações neste ensaio indicarão apenas o nome da obra, o livro (Inferno, Purgatório, Paraíso), o canto e o verso.

4 ANTISERI, Dario; REALE, Giovanni, Filosofia: Antiguidade e Idade Média, rev. e ampl. São Paulo: Paulus, 2017, p.555-6.

5 Alberto Magno, mentor direto de Tomás de Aquino, foi um dos principais responsáveis pelo acolhimento de Aristóteles no escolasticismo medieval (ANTISERI, Dario; REALE, Giovanni, Filosofia: Antiguidade e Idade Média, rev. e ampl. São Paulo: Paulus, 2017, p. 558-60).

6 A título de exemplo, os primeiros a serem mencionados por nome, antes mesmo de qualquer citação às Escrituras, são Boécio (Compêndio, I, I, §6-3) e Anaxágoras (Compêndio, I, I, §14-3). O primeiro tem inclinações neoplatônicas; o segundo é um pré-socrático.

7 Conforme, por exemplo, Compêndio, I, II, §1.

8 Este aspecto é reforçado pelo tradutor do Compêndio de Teologia ao português, que recorrentemente explica conceitos aristotélicos para esclarecer termos e conceitos difíceis na obra de Tomás. Ver, por exemplo, nota 30, p.72, e nota 33, p.75, do Compêndio.

9 WICKSTEED, Phillip H.; OELSNER, Herman, Notes to The Paradiso of Dante Alighieri, London: J.M. Dent and Co., 1904, p. 126.

10 Divine Comedy. in: Wikipedia, [s.l.: s.n.], 2022. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Divine_Comedy. Acesso em 05 jun. 2022.

11 O papel de Virgílio na Divina Comédia é tão complexo quanto a interação de Tomás com Aristóteles. Ainda assim, a obra do pagão Virgílio é tratada quase como um texto sagrado provisório que seria suplantado pela obra do cristão Dante (JACOFF, Rachel; SCHNAPP, Jeffrey T., Introduction, in: The Poetry of Allusion: Virgil and Ovid in Dante’s “Commedia”, Stanford: Stanford University Press, 1991, p.4).

12 Inferno, Canto IV, 88-90 e 131-144.

13 Inferno, Canto IV, 100-102.

14 Compêndio, I, III, §82. Este privilégio é concedido, momentaneamente, a Dante no final do Paraíso (Canto XXXIII).

15 É impossível dizer com certeza se Tomás concordaria com este destino límbico destinado a estes pensadores. No entanto, a interpretação dantesca da doutrina do limbo é plausível.

16 O próprio julgamento das almas, que Dante coloca nas mãos de Minos, figura mitológica pagã que era vista como o juiz do inferno, acontece abaixo do primeiro círculo e às portas do segundo. É quase como se os grandes pensadores greco-romanos estivessem acima de qualquer julgamento.

17 MOURA, Dom Odilão, Prefácio à Tradução, in: Compêndio de Teologia, Sertanópolis, PR: Calvariae, 2020, 19-23.

18 O interesse foi tamanho que menos de 100 anos depois de sua publicação já havia pelo menos 14 comentários dedicados à Divina Comédia. (QUINONES, Ricardo J., Dante, Encyclopedia Britannica, disponível em: <https://www.britannica.com/biography/Dante-Alighieri>. Acesso em: 6 abr. 2022.)

19 Em uma ironia inegável, muitos afirmam que Divina Comédia teve papel fundamental no desenvolvimento do idioma italiano moderno (Italian language, in: Wikipedia, [s.l.: s.n.], 2022. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Italian_language. Acesso em 05/06/2022).

20 Para uma exploração ficcional bastante interessante deste período, ver a obra O Nome da Rosa, de Umberto Eco. A história se passa em 1327 (Dante morre em 1321) em um monastério beneditino (tradição à qual Tomás era afiliado) e o enredo gira ao redor de uma controvérsia teológica que esteve bastante viva durante os séculos XII e XIV: o antagonismo entre franciscanos e beneditinos. Enquanto o monastério arde em chamas (literal e figuradamente), o povo ao redor deseja apenas um pouco de comida.

21 ANTISERI, Dario; REALE, Giovanni, Filosofia: Antiguidade e Idade Média. Trad. José Bortolini. rev. e ampl. São Paulo: Paulus, 2017, p. 566-7.


Referências bibliográficas

ALIGHIERI, Dante. A Divina Comédia. Trad. José P. X. Pinheiro. São Paulo: Atena, 1955.

ANTISERI, Dario; REALE, Giovanni. Filosofia: Antiguidade e Idade Média. Trad. José Bortolini. rev. e ampl. São Paulo: Paulus, 2017. 3v.

JACOFF, Rachel; SCHNAPP, Jeffrey T. Introduction. In: The Poetry of Allusion: Virgil and Ovid in Dante’s “Commedia”. Stanford: Stanford University Press, 1991.

MOURA, Dom Odilão. Prefácio à Tradução. In: Compêndio de Teologia. Sertanópolis, PR: Calvariae, 2020.

QUINONES, Ricardo J. Dante. In: Encyclopedia Britannica. Disponível em: <https://www.britannica.com/biography/Dante-Alighieri>. Acesso em: 6 abr. 2022.

TOMÁS DE AQUINO. Compêndio de Teologia. Trad. Dom Odilão Moura. Sertanópolis, PR: Calvariae, 2020. Número de páginas.

WICKSTEED, Phillip H.; OELSNER, Herman. Notes to The Paradiso of Dante Alighieri. London: J.M. Dent and Co., 1904.

Divine Comedy. In: Wikipedia. [s.l.: s.n.], 2022. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/w/index.php?title=Divine_Comedy&oldid=1089405589>. Acesso em: 5 jun. 2022.

Italian language. In: Wikipedia. [s.l.: s.n.], 2022. Disponível em: <https://en.wikipedia.org/w/index.php?title=Italian_language&oldid=1091704656>. Acesso em: 5 jun. 2022.