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O Banquete, de Sofia!

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Escrito por Lucas Vasconcellos Freitas, estudante do Programa de Tutoria Filosófica 2022

“‘Aí está um comilão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores’. Mas a sabedoria é comprovada pelas obras que a acompanham.”

(Mateus 11:19, NVI)

Parece haver uma conexão especial entre o estômago e a alma das pessoas, pois a mesa de um banquete costuma ser uma ocasião especialmente boa para falar de coisas mais profundas. Afinal, este é o convite que a Sabedoria nos faz em Provérbios 9:4-5: “Venham, todos os inexperientes! (…) Venham comer a minha comida e beber o vinho que preparei”. É igualmente n’O Banquete que Platão destila sua definição final do filósofo como o amante do conhecimento (ANTISERI; REALE, 2017, p. 153)1. Este ensaio busca comparar o cardápio de ideias destes dois banquetes: o banquete oferecido pela amorosa e generosa Sabedoria bíblica versus o banquete em que Platão apresenta seu elogio derradeiro a Sócrates.

O Banquete, de Platão

O Banquete pode ser considerado, ao lado de Apologia, um “monumento literário à memória de Sócrates” (HADOT, 2002, p. 39). De tão importante, este diálogo inaugura a “ceia” como um estilo literário, sendo emulado por figuras tão importantes quanto Dante Alighieri, Soren Kierkegaard, e T .S. Elliot (PINHEIRO, 2018, p. 23). É também inegável a influência que esta obra tem em Plotino, na filosofia medieval e no desenvolvimento da psicologia moderna (PINHEIRO, 2018, p. 23–5), estabelecendo-se como um parceiro de diálogo indispensável para toda e qualquer discussão a respeito do amor. Diante de tamanha importância, propõe-se aqui um simples resumo do relato da festa e dos discursos proferidos.

O Banquete apresenta-se como um relato de segunda mão, narrado por Apolodoro, a respeito de um banquete oferecido para festejar a vitória de Agatão em um concurso literário (Banquete, 172A–173E). Logo de partida, temos uma cisão tripla: o texto de Platão registra o relato oferecido por Apolodoro que ouviu de Aristodemo, este sim presente, os discursos proferidos pelos demais convidados da festa (PINHEIRO, 2018, p. 29). A narrativa da festa em si começa com a esperada chegada de Sócrates, já no segundo dia dos festejos. A maior parte da história se desenrola na porção noturna desta celebração, dedicada ao vinho e ao debate (PINHEIRO, 2018, p. 27). A fim de compensar os exageros da noite anterior, Pausânias propõe manter a bebida a um mínimo e Erixímaco sugere que o tempo seja dedicado a honrar o deus Eros (176A–177A). Ambas as propostas são aceitas pelos presentes. Sócrates ironicamente confessa “não entender de nada mais, senão de amor (gr.: erōtiká)” (177D).

Posto o cenário, aos discursos. Fedro inicia, apresentando Eros como “o mais autorizado para levar os homens à posse da virtude e da felicidade” (179E). Segue-se Pausânias, diferenciando entre um Eros vulgar e outro perfeito, este associado exclusivamente ao masculino (180C–185C). Erixímaco replica, discursando em favor de uma busca ponderada pelos dois tipos de Eros (185E–188E), seguido de Aristófanes, que afirma que a felicidade só é possível quando “cada um de nós encontrar seu verdadeiro amado” (193C). Vem o poeta Agatão e afirma que Eros não apenas busca, mas é a própria causa da existência da beleza. Diante da habilidade de Agatão, a festa explode em aplausos (194E–198A).

Contudo, os discursos até aqui são apenas um pretexto para a intervenção de Sócrates (198A–212C). Como de praxe, Sócrates inicia seu discurso questionando seu interlocutor imediato: Agatão. Demonstrada a inadequação da proposta deste, prossegue com sua fala de forma diversa dos demais: ao invés de discursar em nome próprio, relata o que ouviu da sacerdotisa Diótima, em Mantineia. Eros, conforme ouviu, não é um deus, mas um daimon, uma espécie de semideus, filho de um relacionamento ilícito2 entre Penia (pobreza) e Poros (expediência). Eros é, nas palavras de Diótima, alguém nem belo nem feio, nem bom nem mau, mas algo “entre esses dois extremos” (202B). Sempre desejando a beleza, ele herda um sentimento de falta de sua mãe mortal e a sagacidade de seu pai divino, apresentando-se como o mediador ideal entre os homens e os deuses (202E).

À luz disto, Diótima propõe uma espécie de escada do amor, que começa amando um único corpo belo. Após vem ao amor a todos os corpos belos, então às almas belas, à beleza em todas as coisas, e, enfim, ao ápice que é amar a sabedoria. Esta, inevitavelmente, conduz a amar o belo em si mesmo (211C). Encerrado o discurso de Sócrates, irrompe Alcibíades pela porta, já embriagado, e propõe-se a elogiar Sócrates. Em seu discurso, ele atribui ao filósofo as características do daimon Eros (212D-223A), que Sócrates acabara de descrever. Entrando outro grupo de bêbados, a “algazarra tornou-se geral, e na maior desordem viram-se todos forçados a beber em profusão” (223B)3.

Isto posto, a atmosfera geral do banquete é de auto-adulação. Muitos dos discursos soam como justificativas: do amor lascivo por Pausânias, das paixões naturais pelo médico Erixímaco, dos sofismas pelo poeta Agatão, com tudo culminando na apresentação de Eros como um autorretrato de Sócrates (PINHEIRO, 2018, p. 60). “O Banquete não só registra o intervalo entre fazer amor e falar de amor, mas indica que elevá-lo ao nível de reflexividade discursiva é um modo erótico de celebrá-lo e justificá-lo” (PINHEIRO, 2018, p. 38, meu itálico). A impressão final é que todos queriam apenas falar de si mesmos e justificar os próprios atos.

Ademais, a história insere tantos graus de separação com o leitor que se torna difícil chegar a conclusões firmes. Ficção ou não, há uma tentativa clara de tornar o evento inalcançável ao leitor. A narrativa é guiada por alguém que não foi testemunha ocular do evento, um artifício que tenta blindar o relato contra qualquer alegação de inconsistência4. O próprio discurso de Sócrates, ápice do texto, é um relato de uma conversa tida em outra ocasião, acrescentando ainda mais distância entre o leitor e a fonte original. O resultado é um texto (de Platão) que narra um relato (de Apolodoro) de um relato (de Aristodemo) de um relato (de Sócrates) de uma conversa (com Diótima)! Além disso, como ignorar o retrato quase mítico de Sócrates apresentado no texto? É possível enxergar por trás dessa “máscara socrática” criada por Platão5? Ademais, se restava qualquer certeza, a aparição do bêbado Alcibíades deixa a impressão de que tudo não passou de uma piada de mal gosto.

Se o parto da ideia não aconteceu, é conveniente alegar que a mente do interlocutor nunca esteve grávida. Contudo, dizer isto é zombar da inteligência de todos aqueles que se recusem a participar da farsa. O rei está nu, exceto, talvez, para quem se julgue inteligente o bastante para ver uma roupa que não existe.

Uma mesa na presença dos meus inimigos

Quão diferente é o banquete oferecido pela Sabedoria em Provérbios! A discussão não é restrita a um grupo aristocrático, e o banquete é para ser desfrutado por todos aqueles que atenderem ao convite (Pv 9:4). Ao contrário da insensatez, que “é pura exibição, sedução e ignorância” (Pv 9:13), a Sabedoria apresenta-se como uma mulher prudente e capaz (Pv 31, e.g.). O cardápio da conversa também inclui o amor erótico, mas o conselho é unânime no sentido de fugir dos laços da lascívia e amar apenas a mulher de sua juventude (Pv 5, entre outros)6.

Pensando na interação deste texto hebraico com a cultura grega, conforme mediado pela Septuaginta (LXX), é sintomático que a raiz eros apareça apenas 3 vezes em Provérbios, duas das quais na boca da mulher adúltera (Pv 7:18, 24:51)7. No contexto do Antigo Testamento, esta raiz aparece apenas em relação ao adultério (Os 2:5, 7; Je 4:30; Ez 16:33, 36, e.g.) ou referindo-se aos estrangeiros (Et 2:17)8. Esta raiz não aparece nenhuma vez no Novo Testamento. Isto é digno de nota, uma vez que o termo mais comum para “amor” na cultura grega era exatamente eros. Agapē, ao contrário, é uma raiz que é extremamente rara no contexto pagão, ganhando alguma proeminência somente após a LXX (SIMPSON, 2016 n.p.). É possível que os tradutores da LXX tenham deliberadamente preferido a raiz agapē por ser um grupo de palavras menos carregado de paganismo, uma preferência que os autores do NT parecem ter seguido (KLASSEN, 1992, p. 381).

Adentrando ainda mais o mundo do NT, vemos Jesus participando de diversos banquetes, a ponto de ser chamado de “comilão e beberrão” por seus detratores. Limites de espaço permitem apenas pinceladas rápidas a respeito daquele que talvez tenha sido o banquete mais importante de todos os tempos: a santa ceia.

Esta cena é relatada por todos os evangelhos canônicos, com João dedicando consideravelmente mais espaço do que os demais. Partindo de uma posição ortodoxa, que entende que estes documentos foram escritos durante o séc. I d.C, em pleno período apostólico, temos em mãos um relato obtido bastante próximo à fonte9. Fica óbvia a diferença entre a abordagem dos evangelhos e a premissa d’O Banquete: este busca afastar o leitor do evento; aqueles, aproximar. Além disso, a última ceia de Jesus com seus discípulos acontece às vésperas do início oficial das celebrações da Páscoa, talvez o evento mais importante na história do povo de Israel. Isto amarra o banquete de Jesus com uma celebração absolutamente mais profunda do que festejar a vitória de alguém em um concurso qualquer. Por fim, dada a importância desta celebração no calendário judaico, é quase certo que mulheres estivessem presentes na sala10,  formando uma lista de convidados consideravelmente mais inclusiva do que a d’O Banquete, exclusivamente masculina.

Finalmente, o personagem central da conversa assume uma postura bastante diferente: cingindo-se com um pano, Jesus começa lavando os pés dos discípulos (Jo 13:1-17). Na presença de seus inimigos (Sl 23:5, cf. Rm 5:10), ele parte o pão e toma cálice, entregando-os como um símbolo renovado de seu sacrifício (Mt 26:17-29; Mc 14:12-25; Lc 22:7-23). Tendo até aqui usado de parábolas, como faziam os filósofos, agora ensina a seus discípulos claramente: “Eu vim do Pai e entrei no mundo; agora deixo o mundo e volto para o Pai” (Jo 16:28, cf. 16:25-30). Oferecendo-se a si mesmo, torna-se o único mediador entre a humanidade caída e o Deus verdadeiro, que deseja que “todos sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade” (1Tm 2:3-6). Em Jesus, salvação e verdade nunca estão longe.

Ao final, só nos resta decidir qual mediador queremos e em qual mesa sentaremos.


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1 Ver, também, o capítulo 4 de HADOT, 2002.

2  A bem da verdade, de forma anacrônica ou não, nós chamaríamos este ato de um estupro de vulnerável, já que Poros está totalmente embriagado quando Penia se deita a seu lado.

3  A prática de atos sexuais entre os convidados, todos homens, fica subentendida. Afinal, se este era o desfecho esperado em um banquete qualquer (PINHEIRO, 2018, p. 37), quanto mais em uma festa dedicada à honra de Eros? Eis aí um pouco do sangue de Dionisio correndo nas veias de Apolo! (NIETZSCHE apud DULCI, 2022 n.p.).

4 Pinheiro reconhece este ponto, mas conclui que o paradoxo criado por Platão é a condição necessária para superar as dificuldades existentes na relação entre a realidade e a arte mimética (PINHEIRO, 2018, p. 29–31). Pode ser, mas a circularidade do argumento é evidente.

5  Para uma análise de duas das “máscaras de Sócrates” presentes n’O Banquete, ver OLIVEIRA, 2016.

6 Vale dizer que as relações homossexuais são expressamente proibidas na lei mosaica (Lv 18:22) e por isso ficam de fora do escopo de trabalho da literatura de sabedoria israelita.

7  Uma exceção notável é Provérbios 4:6, em que o filho é aconselhado a amar (gr.: erasthēti) a sabedoria. É claro que a tradução da LXX não é inspirada e cheia deste tipo de inconsistências. No entanto, colocar agapē e eros em oposição absoluta tem sido a posição mais comum desde que foi proposta por Anders Nygren, em 1953, mesmo que rejeitada na academia (KLASSEN, 1992, p. 385) e por autores como C. S. Lewis (LEPOJÄRVI, 2015, p. 41–6). Seria possível redimir eros? É esta pergunta que planejo explorar no próximo ensaio.

8  É digna de nota a ausência de Cântico dos Cânticos, possivelmente o livro do AT mais interessado no amor romântico entre um homem e uma mulher.

9  De acordo com a posição ortodoxa, ao menos dois evangelhos foram escritos por testemunhas oculares: Mateus e João, ambos discípulos. Marcos e Lucas foram escritos debaixo da supervisão de outros dois apóstolos, respectivamente Pedro e Paulo. Mesmo Lucas, talvez o evangelista mais distante dos fatos, tem como objetivo declarado oferecer um relato ordenado para que seu leitor tenha “certeza das coisas que foi ensinado” (Lc 1:1-4). Esta preocupação com um relato confiável parece ter passado longe de Platão ao escrever sobre Sócrates.

10 Embora os evangelhos não sejam explícitos a este respeito, as mulheres eram presença constante à mesa de Jesus, inclusive na semana da páscoa (cf. Mt 26.6-13, Mc 14:3-9 e Jo 12:1-2, para citar eventos ocorridos apenas durante a semana santa). Ademais, sendo a ceia de páscoa uma celebração familiar, é esperado que as mulheres tomem parte (ver O’TOOLE, 1992 para uma discussão mais detalhada).  Em todo caso, a celebração da Ceia do Senhor nas igrejas, conforme instaurado por Jesus neste evento, é, sem dúvidas, uma celebração que inclui as mulheres.


Referências Bibliográficas

ANTISERI, D.; REALE, G. Filosofia: Antiguidade e Idade Média. Tradução: José Bortolini. rev. e ampl. ed. São Paulo: Paulus, 2017. v. 1.

DULCI, P. L. Motivos Religiosos Básicos nas Raízes da Cultura Ocidental: História da Filosofia Antiga.Goiania, GO, 2022. Disponível em: <https://vimeo.com/user117331417/download/496539793/276a4c0ca5>. Acesso em: 6 mar. 2022.

HADOT, P. What Is Ancient Philosophy. Tradução: Michael Chase. Cambridge, MA: Belknap Press, Harvard University, 2002.

KLASSEN, W. Love: NT and Early Jewish LiteratureThe Anchor Yale Bible Dictionary. New York: Doubleday, 1992.

LEPOJÄRVI, J. God is Love But Love Is Not God. Helsinki: University of Helsinki, 2015.

OLIVEIRA, L. A Figura de Sócrates Segundo Pierre Hadot. Archai, n. 18, dez. 2016. 

O’TOOLE, R. F. Last SupperThe Anchor Yale Bible Dictionary. New York: Doubleday, 1992.

PINHEIRO, V. S. Introdução. In: O Banquete. Belém: Editora da Universidade Federal do Pará, 2018. 

PLATÃO. O Banquete. Tradução: Carlos Alberto Nunes. Belém: Editora da Universidade Federal do Pará, 2018.

SIMPSON, B. I. LoveThe Lexham Bible Dictionary. Bellingham, WA: Lexham, 2016..