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O lugar da imaginação na compreensão do drama das Escrituras

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Escrito por Joyce Medeiros de Melo, estudante do Programa de Tutoria Avançada 2022

Não existe canteiro mais fértil para o imaginário social do que o teodrama do evangelho cristão. A teologia precisa de mais imaginação, não menos. 

Kevin Vanhoozer

“A imaginação e a poesia salvam o homem, não por lhe transportar ao mundo dos sonhos, mas porque lhe abre os olhos para este mundo”, foi o que Arthur Grupillo disse1, comentando as contribuições de G. K. Chesterton para a filosofia. E disse ainda mais: “O que falta ao racionalista é o sentido para as coisas maravilhosas, como de fato elas são”2. Não só filósofos, como também poetas, escritores e artistas, tais como J. R. R. Tolkien, provavelmente concordariam com essas afirmações: só lembrar o conto do Ferreiro do Grande Bosque do autor de Senhor dos Anéis para recordar a importância que a imaginação tinha na vida ordinária dos personagens3 — e do próprio autor.

A explosão de obras ficcionais, principalmente em suas versões cinematográficas de qualidade duvidosa, não ajuda os defensores da imaginação. Muitos observam os efeitos do excesso de entretenimento nas novas gerações como uma dificuldade em lidar com a vida como ela é, e atribuem à imaginação em suas formas artísticas, uma fuga irresponsável da realidade da vida. Situar o lugar da esfera imaginativa, não apenas em suas contribuições artísticas, mas também no mundo da ciência e da teologia, torna-se uma obra de arte – com o perdão do trocadilho.

Gilbert Durand assinala que o século da luzes foi marcado por uma rejeição do aspecto simbólico e imagético na formulação de conceitos, já que a ciência positivista pretendia ser completamente verificável e desmistificada. Essa herança se perpetuou com a crença de que o apelo à razão era necessário e suficiente, traçando uma hierarquia entre os diferentes elementos da cognição humana. A teologia católica, conhecida por seus cerimoniais e símbolos, era algo do que se distanciar na medida em que o mundo das imagens poderia ser nebuloso demais, desconhecido e carente de doutrina bíblica (DURAND, 1998).

Embora os excessos existam, tanto em relação à profusão simbólica na teologia que comunica erroneamente, quanto na ficção do entretenimento que é uma oportunidade para a fuga, a imaginação humana é parte integrante do que Deus criou e da forma como ele se utiliza para comunicar suas verdades ao mundo. Na ocorrência da queda, tanto razão quanto emoção, tanto imaginação como ação humana foram afetados pelo pecado e precisam da redenção de Cristo para figurarem novamente no ordenamento desenhado por Deus. Nossa tarefa, portanto, não é deixar de lado qualquer um deles, mas como bons mordomos, fazermos o uso adequado a partir daquilo que as Escrituras nos mostram a respeito. É com esta visão que avançaremos adiante.

Vozes da imaginação

Imaginação no seu sentido individual aponta para uma capacidade de ver o todo conectado às partes, produzindo ligações de semelhança e diferença. Ela se utiliza de símbolos, como as figuras de linguagem, e de imagens, como as que vivemos pela memória e pelos desejos, pelos anseios últimos. No seu sentido coletivo, a imaginação é capaz de compartilhar valores e identidades, sendo forte o suficiente para movimentar grandes grupos de pessoas unidos pelo mesmo ideal (CASTORIADIS, 2003).

Para Mircea Eliade, a capacidade de comunicação da esfera imaginativa é muito grande porque apela à totalidade do indivíduo, deixando transparecer sua existência enquanto ser espiritual. Os símbolos são complexos e ricos de sentido, falando a diferentes pessoas em diferentes épocas; eles são compreensíveis ao que é local e podem ser revisitados muitas vezes durante a vida. Na mesma relação, eles têm um aspecto de revelação, de profundidade adquirida conforme experiência, conforme muda a própria visão do indivíduo. Não são achatados e exatos, discerníveis feito máquinas, e por isso falam à complexidade do próprio ser humano, apontando para uma realidade mais rica. É nesse sentido que o autor destaca,

ter imaginação é ver o mundo na sua totalidade; pois as Imagens têm o poder e a missão de mostrar tudo o que permanece refratário ao conceito. Isso explica a desgraça e a ruína do homem a quem ‘falta imaginação’: ele é cortado da realidade profunda da vida e de sua própria alma (ELIADE, M. 1991, p. 16, grifo do autor).

As ideias contra as quais Eliade se opunha, de engessamento do ser humano pela supressão do aspecto simbólico e imaginativo, vão cedendo espaço às conclusões da nova virada linguística da filosofia, a partir da valorização das narrativas locais, das identidades individuais e coletivas e do sentido de pertencimento. Neste novo contexto, o homem já não dispensa a imaginação e seus elementos: ele abraça todos eles indiscriminadamente na tentativa de não se afogar4, mas sem qualquer critério de sentido — ou pior, usando a si mesmo (sua história e preferências) como referencial último para escolhas existenciais. Um bom exemplo de como não usar os símbolos, que afinal apontam para realidades além do indivíduo.

O lugar da imaginação na compreensão do teodrama

A resposta que Kevin Vanhoozer nos traz na obra O Drama da Doutrina é muito valiosa a esse respeito, tanto quanto ao contorno imaginativo, tanto quanto à proposta de teologia que utiliza o cânon como fundamento último de autoridade. Sobre o primeiro, o autor estadunidense faz coro às críticas que apontam o rechaço do imaginário. Ele concorda que muito da modernidade, incluindo a teologia, viu as figuras de linguagem e as relações metafóricas como algo puramente estético e não também didático, afinal, “figuras de linguagem enfeitam, mas não ensinam. O que mais se poderia esperar de um produto da imaginação, uma faculdade não confiável de fantasias que enxerga coisas que não existem?” (VANHOOZER, 2016,p. 295), ironiza o autor.

Reposicionando a imaginação como parte importante do aspecto cognitivo, que apresenta um “excedente de cognição” em relação aos conceitos literais e que é igualmente genuína em relação aos pensamentos histórico e científico, Kevin Vanhoozer diz que “a imaginação é a faculdade cognitiva que nos permite enxergar como conjunto o que pessoas sem imaginação enxergam apenas como peças não relacionadas. A imaginação é a capacidade de inventar ou descobrir ligações” (VANHOOZER, 2016, p. 296, grifo do autor).

Foi por meio, inclusive, deste artifício que o também pianista clássico5 usou a analogia do teatro para elucidar o cenário doutrinário da teologia nos dias atuais, trazendo como proposta uma abordagem canônico-linguística da mesma. Em oposição à perspectiva da teologia narrativa contemporânea, com a proposta linguístico-cultural, Vanhoozer apresenta a palavra de Deus como ato: são os atos de fala divinos, nos quais falar é também fazer na forma de promessa, que estruturam toda a narrativa divina. Esses atos vividos são encenados na história por meio de Jesus Cristo, plenamente revelados nele, ao mesmo tempo que são encenados em todo o cânon. A igreja, portanto, ao assumir as palavras que “Deus realiza no evento Cristo”, por meio do testemunho dos apóstolos (a tradição) e do agir do Espírito Santo, formula doutrinas e sustenta sua fé na Bíblia, em Deus (VANHOOZER, 2016).

Com este pensamento, Vanhoozer se diferencia de uma abordagem proposicionalista-cognitiva, que privilegia a doutrina na forma de proposições (verdadeiro ou falso), esquecendo o aspecto vivido e complexo da narrativa cristã. Ele também se afasta do perigo atual de considerar a comunidade cristã, sua tradição e usos da fala (ou jogos de linguagem, para usar a expressão de Wittgenstein) como definidora do sentido daquilo que é lido nas Escrituras. Usando a metáfora do drama, o autor mostra que é preciso viver, ou encenar, as palavras de Deus na nossa realidade.

Imaginação e vida sábia

Igor Miguel, no livro A Escola do Messias, traz a ideia do mashal, o sábio de provérbios que instrui seus aprendizes por meio do cotidiano e apela à imaginação, memórias e experiências para “formar membros responsáveis de determinada comunidade” (MIGUEL, 2021, p. 143). Ele mostra que a comunidade cristã expressa uma boa compreensão do drama das Escrituras ao experimentar uma vida sábia e concorda com Vanhoozer ao não separar, de forma alguma, autoridade do cânon, doutrina, tradição e sabedoria. Eles também concordam sobre o lugar da imaginação enquanto parte do cognitivo que opera no ser humano de modo a formá-lo para uma vivência real do evangelho, transformando seus amores e moldando sua visão.

Se, como nos diz Miguel, “o sábio não subestima o poder analógico e sua capacidade de atingir memórias, lembranças e experiências, alcançando, dessa forma, níveis mais profundos das faculdades intelectuais e afetivas de seus aprendiz” (MIGUEL, 2021, p. 146), e se, como coloca Vanhoozer, “a teologia canônico-linguística emprega uma ‘abordagem cognitivo-poética’, na qual a cognição em questão faz pleno uso não só do intelecto, mas também da imaginação” (VANHOOZER, 2016, p. 293), podemos falar sem receio que a imaginação ocupa um lugar privilegiado no alcance de uma vida sábia, a partir das Escrituras.

Conclusão

Em louvor a Deus podemos expressar gratidão por sua criação perfeita e cheia de sentido e reiterar o seu senhorio em todo o nosso ser. Recuperando o comentário de Arthur Grupillo sobre G. K. Chersteston6, é possível enxergar que a imaginação, seja no seu aspecto criativo, seja no seu aspecto de visão de mundo, nos possibilita ver o mundo com outros olhos e talvez seja mesmo por isso que o autor salienta: “aquele que não se faz criança não só não entra no reino dos céus como não entra nem mesmo no reino da Terra.” Sejamos adultos maduros que encenam diariamente a vontade de Deus nas nossas vidas, enquanto indivíduos e na forma de comunidade.


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1 GRUPILLO, Arthur. G. K. Cherterton, ou como não filosofar com o porrete. In: Estado da Arte: revista de cultura, artes e ideias. São Paulo, 22 de janeiro de 2022. Disponível em: estadodaarte.estadão.com.br. Acesso: 09 de fevereiro de 2022.

2 Ibidem.

3  No conto, o Ferreiro do Bosque Grande se deslocava magicamente para um mundo diferente, e quando voltava, preenchia de alegria renovada os seus dias comuns.

4 Paralelo invertido com a metáfora de Chesterton em A Ortodoxia, onde o autor apresenta a humanidade como sobrevivente de um naufrágio, sem saber o que aconteceu, apenas com vestígios de objetos espalhados pela praia.

5 Como bem coloca Wesley Hill, localizando a veia artística de Vanhoozer. HILL, Wesley. Kevin Vanhoozer, o rei do drama. In: Teologia Brasileira. São Paulo, 7 de agosto de 2018. Disponível em: teologiabrasileira.com.br. Acesso: 06 de fevereiro de 2022.

6 GRUPILLO op. cit., 2022.


Referências

CASTORIADIS, Cornelius. La instituición imaginaria de la sociedade. v. 1. Barcelona: Tusquets editores, 2003.

DURAND, Gilbert. O imaginário: ensaio acerca das ciências e da filosofia da imagem. Rio de Janeiro: DIFEL, 1998.

ELIADE, Mircea. Imagens e símbolos: ensaio sobre o simbolismo mágico-religioso. Trad. Sonia Cristina Tameri. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

HILL, Wesley. Kevin Vanhoozer, o rei do drama. In: Teologia Brasileira. São Paulo, 7 de agosto de 2018. Disponível em: teologiabrasileira.com.br. Acesso: 06 de fevereiro de 2022.

GRUPILLO, Arthur. G. K. Cherterton, ou como não filosofar com o porrete. In: Estado da Arte: revista de cultura, artes e ideias. São Paulo, 22 de janeiro de 2022. Disponível em: estadodaarte.estadão.com.br. Acesso: 09 de fevereiro de 2022. 

MIGUEL, Igor. A escola do Messias: fundamentos bíblico-canônicos para a vida intelectual cristã. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2021.

VANHOOZER, Kevin J. O drama da doutrina: uma abordagem canônico-linguística da teologia cristã. Trad. Daniel de Oliveira. São Paulo: Vida Nova, 2016.