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Por uma hermenêutica abrangente: o fazer hermenêutico aplicado às crianças

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Escrito por Vanessa Soeiro Carneiro, estudante do Programa de Tutoria Essencial 2022

Hermenêutica é, de modo resumido, “a disciplina que lida com os princípios da interpretação” (KAISER; SILVA, 2014, p. 15). Ela pode ser utilizada em diferentes situações já que, como seres humanos, estamos constantemente interpretando tudo o que nos cerca. Em outras palavras, usamos a interpretação para compreendermos o mundo ao nosso redor. Portanto, faz-se necessário ressaltar que, para o contexto deste artigo, trabalharemos a hermenêutica como uma ferramenta de interpretação bíblica. 

Sendo assim, precisamos esclarecer alguns pontos sobre o processo hermenêutico e ressaltar que ele busca interpretar o texto respeitando a intenção do autor. Para tanto, o intérprete considera o contexto no qual o texto foi escrito, quem o escreveu e o que ele significava para o seu público-alvo original. Apenas ao fim desse processo, e a partir dele, é que o hermeneuta “recontextualiza” a mensagem aplicando-a, sem desrespeitá-la, ao contexto do seu próprio público.

A princípio, essa disciplina pode parecer algo complexo demais e voltado apenas a um público específico de cristãos, porém, segundo o teólogo Moisés Silva (2014), todos nós precisamos de hermenêutica. Esse “nós” se refere aos cristãos e inclui as crianças, porque elas fazem parte da Igreja e percebem o mundo à sua volta de modo diferente dos adultos. Por isso, defendemos neste artigo a importância e a necessidade de se trabalhar a hermenêutica nos estudos com as crianças – seja na EBD, seja no culto infantil.

Em seu livro Você no ministério infantil, a teóloga Francine Walsh (2017) explica que quando pensamos no termo “pessoas” tendemos a visualizar apenas adultos e a excluir as crianças da nossa mente. Além disso, temos o hábito de tratar as crianças como se elas “fossem o futuro” e, ao fazermos isso, esquecemo-nos de que elas também “são o presente”. Ou seja, as crianças não precisam crescer para se tornar alguém, elas não são pessoas em formação. Elas já são alguém e também são pessoas. Logo, elas também são pecadoras.

A Bíblia é clara ao afirmar em Romanos 3.23, por exemplo, que “todos pecaram”. Esse ensinamento é ratificado por meio de diversas outras passagens, mas em nenhuma delas é possível encontrar uma exceção para as crianças. Percebemos então que os pequenos precisam ser valorizados, pois são pessoas e, como tais, são imagem e semelhança de Deus, mas como todo ser humano eles também são pecadores e precisam de Cristo.

Segundo uma pesquisa publicada por Lionel A. Hunt, em seu livro Handbook of children’s evangelism, 85% das conversões ocorre na faixa etária de 4 a 14 anos (apud HERSHEY, 2014). Essa é a chamada janela 4/14 e revela o quão necessários e urgentes são a evangelização e o discipulado de crianças. Dentro desse panorama, a hermenêutica se mostra uma ferramenta imprescindível para auxiliar as crianças a entenderem corretamente a mensagem das Escrituras.

Outro fator que deve ser considerado é a questão da linguagem. Segundo Silva (2014), a Bíblia é um livro tanto divino quanto humano porque ele é a Palavra de Deus escrita com o vocabulário dos homens e é importante ressaltar que esse vocabulário muitas vezes é dúbio e aberto a ambiguidades e má interpretação. Isso acontece porque a nossa língua, ou melhor, as nossas línguas também são caídas. Em outras palavras, a linguagem humana é fragmentada e corrompida pelo pecado, como podemos observar em Gênesis 11 (o relato sobre a torre de Babel). Por consequência, muitas vezes temos dificuldade em entender corretamente o que o texto bíblico quer dizer e esse é um dos motivos pelo qual o processo hermenêutico é tão necessário quando interpretamos a Bíblia.

Se já é difícil para um adulto, com total domínio da linguagem, compreender o que a Bíblia diz, imagine o quão mais complicado esse processo é para uma criança, cuja linguagem ainda está em desenvolvimento. Acrescente a isso as verdades já mencionadas de que a criança é pecadora e de que sua linguagem (a mesma que ela ainda está aprendendo a dominar) está corrompida pelo pecado e você começará a perceber que a hermenêutica é tão importante para uma criança quanto para um adulto. 

Além da linguagem, a hermenêutica também se preocupa com a questão da cultura. Para o teólogo Walter Kaiser Jr,

Se desejamos compreender o significado dentro da intenção original dos autores que, antes de tudo, foram aqueles que estiveram diante de Deus e receberam dele a mensagem que escreveram, devemos começar a entender o que eles queriam dizer por meio de suas alusões culturais. Isso não significa que esse é o fim do processo, pois ainda precisamos ligar essa compreensão com a cultura para a qual desejamos anunciar essas palavras, sem esquecer ainda que é necessário levar em consideração nossa própria bagagem cultural como intérpretes. (KAISER; SILVA, 2014, p. 169)

Em outras palavras, a hermenêutica deve respeitar tanto a cultura dos autores do texto quanto a do intérprete e a do leitor. Considerando que as crianças apreendem o mundo ao seu redor de forma diferente das pessoas mais velhas, é possível afirmar que elas experienciam a cultura de modo diferenciado que os adultos e que esta também é geracional. Logo, faz-se necessário acrescentar a questão da idade ao fator cultural. Ou seja, ao se fazer a hermenêutica de um texto, o intérprete também deve considerar a faixa etária do seu público-alvo porque a compreensão e a bagagem cultural das pessoas divergem de acordo com suas idades. 

Esse cuidado deve ser predominante na última etapa do processo hermenêutico: a aplicação. Um adulto e uma criança dificilmente aplicarão um texto bíblico da mesma maneira. Por isso, cabe ao intérprete fazer essa diferenciação intencionalmente. Em outras palavras, não basta simplesmente aplicar a hermenêutica aos estudos bíblicos com crianças, o fazer hermenêutico em si precisa ser voltado para os infantes.

Outro motivo que reforça a importância do trabalho exegético focado nas crianças é a preferência dada às passagens que são histórias bíblicas no ensino destas. Fato este que pode ser comprovado empiricamente por meio de uma rápida observação dos materiais de ensino bíblico infantil disponíveis em diferentes livrarias, ratificado pelas análises feitas por Katherine Hershey em seu livro Ensinando com êxito crianças (2014).

Literariamente falando, histórias são narrativas e, segundo Kaiser (2014), esse é o gênero literário mais comum na Bíblia, constituindo um terço de sua estrutura. Elas abrangem a maior parte do Antigo Testamento e se prolongam até o Novo (abrangendo os Evangelhos e o livro de Atos). A linguagem narrativa é descritiva e não prescritiva, ou seja, a mensagem que o autor quer passar é declarada indiretamente. Por esse motivo, a interpretação desses textos requer uma atenção extra. 

De acordo com Kaiser (2014), existem dois principais erros que podemos cometer ao interpretarmos as narrativas bíblicas. O primeiro é nos envolvermos tanto com a história a ponto de nos esquecer de sua mensagem tratando-a como um fim em si mesma. O segundo é fazermos uma interpretação puramente moralista. Sobre isso ele explica que

Sob esse método de lidar com o texto, cada narrativa tende a ser cortada da história redentora de Cristo e resulta em uma série de fragmentação da mensagem bíblica.  (…) Um processo de seleção assim tende a ser arbitrário, subjetivo e, geralmente, não está relacionado ao contexto total da narrativa, muito menos à mensagem total da Bíblia. (KAISER; SILVA, 2014, p. 68)

Ou seja, ambos os erros deturpam a mensagem do texto bíblico. Quando interpretamos as narrativas bíblicas por um desses vieses, estamos tratando-as como meras histórias, mas elas são muito mais que isso. São relatos de acontecimentos reais e, ao contrário das narrativas humanas, são a Palavra de Deus. Logo, elas devem ser tratadas como tais.

Infelizmente, não é incomum que tais erros sejam cometidos no ensino de crianças. Além disso, eles são ainda mais perigosos nesse cenário porque em nada diferenciam lugares fora do ambiente eclesiástico. Dessa forma, afastam as crianças da noção que a Bíblia é a Palavra de Deus e de sua verdadeira mensagem e, consequentemente, de Cristo. O uso adequado da hermenêutica auxilia justamente a evitar que tais situações ocorram. 

As parábolas contadas por Jesus também são histórias que costumam ser trabalhadas com crianças. Apesar de também serem narrativas, elas se diferenciam por não serem relatos de fatos reais e por serem símiles (figuras de comparação entre seres de universos completamente diferentes) estendidas ao longo de uma história. Por ser uma figura de linguagem, a parábola requer algumas precauções adicionais ao ser interpretada. Em primeiro lugar, é necessário não confundi-la com a alegoria (a extensão de uma metáfora) e, em segundo lugar, deve-se cuidar para não criar comparações e significados além daqueles pretendidos pelo autor (KAISER; SILVA, 2014). A boa hermenêutica ajuda justamente a se prevenir contra esses erros. 

Por último, não podemos ignorar o fato de que vivemos em sociedades pós-modernas e pós-estruturalistas que consideram a verdade como algo relativo. Em contrapartida, de acordo com Kaiser e Silva (2014, p. 9), aquilo que caracteriza os dias atuais é a “busca por significado”. É nesse mundo, e em meio às suas contradições, que as crianças estão crescendo. Diante de tal cenário, cabe a nós, adultos, usarmos uma hermenêutica boa, intencional e voltada às crianças e ensiná-las, por meio da Bíblia, a encontrarem em Cristo o significado pelo qual nossa sociedade tanto anseia e que elas tanto precisam.


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Referências

BÍBLIA. Português. Bíblia de estudo de Genebra. Tradução de João Ferreira de Almeida. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil; São Paulo: Cultura Cristã, 2009. 1985 p.

HERSHEY, Katherine. Ensinando com êxito crianças: causando impacto na próxima geração. Tradução. São Paulo: APEC, 2014.

KAISER, Walter C Jr.; SILVA, Moisés. Introdução à hermenêutica bíblica: como ouvir a Palavra de Deus apesar dos ruídos de nossa época. Trad. Paulo C. N. dos Santos; Tarcízio J. F. de Carvalho; Susana Klassen. 3ª ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2014. 288 p.

WALSH, Francine. Você no Ministério Infantil. Disponível em: << https://gracaemflor.com/voce/ >> Acesso em 02 de fevereiro de 2022.