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Vida virtuosa: necessidade e suficiência

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Escrito por Débora Soares de Oliveira Coelho, estudante do Programa de Tutoria Filosófica 2022

Introdução

Uma das mais antigas inquietações do ser humano é a distinção entre o bem e o mal, o certo e o errado. Nesse sentido, um conceito majoritariamente aceito sobre a moralidade é que esta deve possuir uma autoridade suprema, ser prescritiva, universal, referente à dignidade e ao progresso humano. Assim, as verdades morais que nos caracterizam como humanos não são, em última análise, objetos que retemos, mas convicções consumadas e constantemente praticadas.

Para os antigos gregos, a lei moral derivava da própria natureza (physis). Nesse contexto, a virtude (areté) de um indivíduo seria aquilo que faz com que a sua alma seja tal como a natureza determina, fazendo-o ser aquilo que deve ser. Outrossim, o pensamento ético de Sócrates alicerçava-se na máxima de que o conhecimento seria condição necessária para o homem fazer o bem e, quando este faz o mal, de fato não o faz porque deseja o mal, mas por enganar-se e esperar conseguir a partir deste um bem.

Entretanto, a principal contestação do pensamento socrático reside no fato de o conhecimento ser condição necessária, mas não suficiente para fazer o bem. À vista disto, para os filósofos gregos, o pecado se reduziria a um erro da razão, uma consequência natural da ignorância acerca do verdadeiro bem. Todavia, um ponto central da ética cristã é o concurso da vontade, mediante a graça divina, para a escolha das virtudes. Assim, embora ligadas e pertencentes ao mesmo espírito humano, a vontade é uma qualidade diferente da razão, possuindo uma autonomia própria. Pode-se conhecer o bem por meio da razão, mas tal bem poderá ser rejeitado pela vontade. 

Ademais, o homem não pode inferir o bem a partir do seu próprio ser, mas apenas nos mandamentos divinos, a saber, o bem é aquilo que Deus deseja e ordena. Portanto, as virtudes devem originar-se meramente da vontade do Criador, pois são reflexo do Seu justo caráter, além de derivarem do entendimento divino da natureza humana. Deste modo, saber o que fazer é um passo na direção correta, porém insuficiente sem a vontade divinamente direcionada.

O conhecimento e a vontade

Segundo Abbagnano (2007, pág. 380), as doutrinas éticas, tanto de Platão quanto de Aristóteles, podem ser consideradas “como a ciência do fim para o qual a conduta dos homens deve ser orientada e dos meios para atingir tal fim, deduzindo tanto o fim quanto os meios da natureza do homem”. Porém, em Platão encontramos uma ética transcendente, cujos critérios não se encontram na realidade empírica do mundo, mas no conhecimento das verdades essenciais que definem a realidade, fundamentados na concepção da ideia perfeita, boa e justa.

Assim, nessa perspectiva, as ideias dão forma ao mundo e a partir delas o homem estabelece sua conduta, valores, moralidades e leis. Ainda, para Platão, a reflexão ética significa a busca do bem, cuja ideia situa-se no topo da hierarquia das ideias perfeitas, sobre as demais, sendo que o sentimento de justiça é o valor ético fundamental na orientação das condutas. Portanto, a conclusão é que a justiça favorece quem a busca, sendo um tipo de saúde psíquica, fato que corresponde a tese socrática de que o conhecimento é suficiente para a busca do bem, sendo o erro uma mera questão de ignorância.

Contrapondo-se a isso, a fé cristã acrescenta considerável participação da vontade no alcance das virtudes. Agostinho de Hipona foi um dos primeiros a definir em termos a oposição da vontade: “Estava a ponto de agir, mas não agia […] a paixão, arraigada em mim, ainda me dominava mais que o bem que jamais praticara”. (AGOSTINHO, 2002, p. 224). Nesse sentido, a razão poderia conhecer o bem, porém caberia à vontade escolhê-lo ou não, podendo, mesmo, optar pelo irracional, ou seja, preferir aquilo que não está em conformidade com a reta razão. Tal fato apresenta-se em contraste direto com o paradigma socrático de que seria impossível, conhecendo-se o bem, fazer o mal.

Tal como a passagem da queda do homem em Gênesis demonstra, o primeiro desvio da vontade foi o pecado original. A vontade foi corrompida e tornou-se a condição natural do indivíduo, fazendo-se necessário a intervenção da graça divina. Assim, munido unicamente de seu próprio conhecimento e suas forças, o homem é vencido pelo pecado. Para libertar-se de tal dissociação interior deverá crer na graça que o salva. Ademais, Deus é a fonte do bem maior e o sentido de uma vida alicerçada nas virtudes. Negar isso é entregar-se ao intelectualismo moral e ser consumido pela inquietação e ansiedade.

Deus, fonte infinita do Bem

A questão do summum bonum é um assunto que, sem dúvida, intriga o homem, independente da cultura ou época da sociedade. Para os gregos, é o fim ideal pelo qual o homem se dirige por sua essência, ou seja, sua natureza. As virtudes seriam funções da alma e o caminho para a felicidade na forma da conduta humana a partir da sua natureza racional. Assim, o indivíduo só encontraria propósito ao distinguir essa natureza, orientando suas ações em direção a ela.

Não obstante, a filosofia cristã define Deus como a fonte do Bem maior e o sentido da vida. Deus, sendo livre ao criar, formou seres distintos em sua individualidade. Assim, “a contingência não diz respeito apenas à origem do mundo, mas também ao próprio mundo e a tudo o que está nele, não excluindo sequer as leis morais”. (REALE; ANTISERI, 2005, pág. 287). Deste modo, no contexto moral, a ideia de bem não é inferida a partir do ser, mas somente do Deus infinito e transcendente.

Ademais, o intelectualismo pagão é superado pelo conceito de um Deus que provê a lei moral. Logo, o bem moral supremo reveste-se da obediência aos mandamentos de Deus, “Ensina-me, ó Senhor, o caminho dos teus estatutos, e guardá-lo-ei até o fim. Dá-me entendimento, e guardarei a tua lei, e observá-la-ei de todo o meu coração” (Salmos 119:33-35). Portanto, o pecado é o mal moral supremo, pois é a própria desobediência a Deus, ou seja, transgressão aos mandamentos divinos.

Para João Duns Escoto (ESCOTO apud REALE; ANTISERI, 2005, pág. 285), “o mal é derivado da vontade do homem e distinto do intelecto”. Um aspecto, assevera Escoto, seria o pecado, outro, o erro. O intelecto assimila a verdade dos preceitos divinos, porém, sua obrigatoriedade advém da vontade legisladora de Deus. Assim, toda lei moral é tal quando estabelecida pela vontade transcendente de Deus. Destarte, tal condição supera manifestadamente as posições helenistas. 

Portanto, não só a superação da consciência acerca das virtudes — o reducionismo do bem moral a um dado de conhecimento —, mas também a volição humana divinamente regenerada, são necessárias para a eudamonia por meio das virtudes.

Conclusão

Perante uma deterioração dos valores morais e o desprezo pelas virtudes com impactos em todas as áreas do indivíduo e sociedade, cada vez mais é necessário um direcionamento que oriente o homem na sua busca pela felicidade e propósito. Para contrapor esse cenário, a posição grega que preconiza que bastar ao homem o pleno conhecimento das virtudes para uma vida satisfatória, demonstra-se insuficiente, pois a vontade muitas vezes suplanta a racionalidade e escraviza o ser em seus vícios. Não obstante, a volição humana deve estar subjugada à graça divina libertadora, pois Deus é a fonte definitiva das virtudes, sendo o dever do homem obedecer aos Seus decretos.

Por fim, tal reflexão permite demonstrar que a busca pelas virtudes é não só um dever, mas um propósito que confere ao indivíduo o caminho para a felicidade, a realização como ser humano e a exaltação de Deus como a fonte suprema do Bem. “Porque Dele, e por meio Dele, e para Ele são todas as coisas. A Ele, pois, a glória eternamente. Amém” (Romanos 11:36).


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Referências Bibliográficas

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. Trad. Ivone Castilho Benedetti. 5ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2007. 1014 p.

AGOSTINHO, Santo. Confissões. Tradução: Maria Luiza Jardim Amarante; introdução de Roque Frangiotti. São Paulo: Paulus, 2002. 446 p.

BÍBLIA SAGRADA. Almeida, Revista e Atualizada. 2ª ed. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 1993. 1710 p.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia: filosofia pagã antiga. 3ª ed. São Paulo: Paulus, 2007. 385 p.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia: patrística e escolástica. 2ª ed. São Paulo: Paulus, 2005. 335 p.