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Uma crítica à suposta autonomia da razão

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Escrito por Daniel Ponick Botke, estudante do Programa de Tutoria Filosófica 2021

Francis Schaeffer em seu livro A Morte da Razão atribui a Tomás de Aquino o início do que chamamos de mundo ou era moderna. Segundo Schaeffer, em Tomás o processo de independência da razão humana ganha mais força e notoriedade, desenvolvendo-se para o que experimentamos hoje em nossa sociedade pós-moderna. Diferente do que comumente é dito, a modernidade não foi um movimento de ruptura puro e simples, mas um desenvolvimento orgânico e demorado do pensamento humano, como ocorreu durante toda a história, não sendo diferente na era moderna. Afinal, por que seria? O homem moderno em nada difere [dos] seus antecessores, não é mais iluminado do que a escura idade das trevas, como nos querem fazer acreditar. Mas uma coisa é fato: o pensamento comum mudou na era moderna em relação aos tempos passados, a religião perdeu seu posto para a razão, mudança esta que não é livre de consequências para a fé, e consequentemente, para a vida cotidiana (SCHAEFFER, 2002).

Mesmo Tomás de Aquino vivendo na chamada Baixa Idade Média, no auge da Escolástica, cerca de 200 anos antes do chamado início da Idade Moderna, Schaeffer atribui a Tomás o início da Idade Moderna, a qual diz se iniciar no ano de 1453. Schaeffer apoia seu argumento no fato de que “Tomás de Aquino (1225–1274) abriu caminho para a discussão do que convencionalmente é designado de ‘natureza e graça’” (SCHAEFFER, 2002, p. 13). Por natureza e graça ele refere-se à ideia de que a realidade é dividida em dois níveis, o nível natural, aquilo que podemos tocar, ver, e estudar cientificamente, e o mundo da graça, o mundo das coisas divinas, insondável para o ser humano, a menos que por meios revelacionais.

Em Tomás de Aquino encontramos a ideia de que o homem pode saber e conhecer todas as coisas independente do auxílio divino. Pode até mesmo ter conhecimento da existência de Deus, e provar sua existência por meios naturais, usando unicamente sua razão, sem o auxílio transcendental, nem mesmo revelacional. A razão mostra-se insuficiente, porém, para conhecer e perscrutar os atributos divinos (nível da graça), tendo à sua frente um muro que divide o mundo material do transcendente. Devendo a partir de então fazer uso da fé para crer naquilo que “o ser do outro lado do muro” revela a cada um de nós (TOMÁS DE AQUINO, 2020).

Este argumento que num primeiro momento parece inofensivo foi o fundamento ideal para a construção da ideia de independência da razão. Assim como em [Tomás de] Aquino, Descartes na sua busca por fundamentos firmes e sólidos para o edifício do seu pensamento, diz se desligar de todo e qualquer pressuposto. Buscando assim construir um modo de pensar fundado e desenvolvido pela razão supostamente livre de dogmas e crenças pressupostos. Mas em semelhança a [Tomás de] Aquino, Descartes precisa chamar Deus como um argumento ex machina para se livrar da possibilidade de estar sendo enganado por um Deus mal. Ele precisa lançar mão de um Deus bom para que possa confiar em sua razão “independente”.

Dooyeweerd vai nos dizer que esta divisão da realidade entre natureza e graça evoluiu para o que ele chama de natureza e liberdade. Em suas próprias palavras:

O quarto motivo religioso básico que adquiriu influência central no pensamento ocidental foi aquele do humanismo moderno, que surgiu na Renascença Italiana do século XV. Desde Immanuel Kant, tem sido em geral designado como o tema natureza e liberdade. Sob a influência do pensamento filosófico, seu sentido religioso foi camuflado. (DOOYEWEERD, 2018, p. 88)

A revelação bíblica da criação do homem à imagem de Deus foi implicitamente subvertida na ideia da criação de Deus à imagem idealizada do homem. A concepção bíblica do renascimento do homem e de sua liberdade radical em Jesus Cristo foi substituída pela ideia da regeneração do homem por sua própria vontade autônoma, sua emancipação do reino medieval das trevas, enraizado na crença na autoridade sobrenatural da Igreja. (Ibid., p. 89)

A imagem de mundo mecanicista construída sob a primazia do motivo da natureza, visando a dominação soberana do mundo, não deixou espaço para a liberdade autônoma da personalidade humana em sua atividade prática. Natureza e liberdade pareciam ser motivos opostos baseados no ponto de partida humanista. (Ibid., p. 92)

Como fica claro nesta descrição, a liberdade da razão humana não é mais discutida, não é necessário mais defender a liberdade e a independência da razão no mundo moderno, esta é adotada em caráter ingênuo pela sociedade moderna. Este fato é reforçado por Charles Taylor em sua obra Uma era Secular. De acordo com Taylor, a principal marca da era secular não é a separação rígida entre igreja e estado, visto que ainda existem padrões religiosos nos governos, nem mesmo o afastamento das pessoas da igreja. Sua proposta é que a principal marca da era secular é que a fé não é mais inquestionável e uma realidade da nossa experiência ingênua da realidade, mas passa a ser uma fé opcional, uma experiência reflexiva da realidade, a fé torna-se uma opção dentre outras (TAYLOR, 2008).

A fé, por não fazer parte da natureza, mas ser parte da subjetiva liberdade humana, é cada vez mais marginalizada, com a justificativa de que a fé, dentre elas principalmente o cristianismo, aleija a liberdade humana, visando a dominação do homem. Com rotineiras referências aos erros e abusos cometidos pelo cristianismo medieval, a fé foi cada vez mais empurrada para a vida privada, sendo respeitada em virtude da liberdade humana de cada um poder escolher a sua fé, mas mal vista quando trazida ao debate público. A religião parece vestir-se do vestido rasgado que antes era a vestimenta da filosofia, a qual passou a vestir-se dos mais belos ornamentos da razão autônoma. Enquanto esta é bem quista e aceita nos altos cargos e na discussão pública, aquela deve se esconder e observar de longe o mundo se desenvolvendo.

Junto a esta marginalização da religião fortaleceu-se e expandiu-se o movimento iconoclasta existente desde o século XIII, perseguindo e banindo as imagens e objetos ditos sacros dos ambientes públicos.

Os desenvolvimentos artísticos, no período da Renascença, poderão ser considerados bem completos – pelo menos, mais completos que o desenvolvimento científico – pois os maiores pintores italianos terminaram suas obras no século 13: Leonardo da Vinci (1452–1519), Rafael (1438-1520) e Ticiano (1477-1576). A mudança na forma é de grande importância para a história da arte, enquanto que a filosofia está preocupada com a mudança de conteúdo. Os fundos dos cenários que representavam os céus foram substituídos por paisagens. Histórias bíblicas e contos da religião medieval deram lugar a temas clássicos e contemporâneos; e nas pinturas cristãs, às vezes, João Batista não podia ser diferenciado de Baco e a prostituta preferida do artista podia servir de modelo para a virgem Maria. (CLARK, 2012 p. 255)

Não é preciso uma mente muito aguçada para perceber que tudo isso resultou num enfraquecimento da fé, e obviamente no acovardamento da presença cristã no ambiente público. Não apenas isso, mas de acordo com Gilles Lipovetsky, a falta de elementos litúrgicos no cotidiano, junto a busca por espontaneidade e autenticidade – quanto mais novo melhor – tornaram a atual sociedade hipermoderna subjetiva e fragmentada em vários clãs cada vez menores (LIPOVETSKY, 2005).

Neste ponto é necessário analisarmos o fundamento do pensamento que resultou na suposta autonomia da razão. Faz-se necessário analisar os pressupostos destes pensamentos para que se possa definir a validade do atual pressuposto da autonomia racional do homem. Dooyeweerd mais uma vez nos ajuda ao demonstrar que:

O desenvolvimento da filosofia ocidental tem sido governado por quatro motivos básicos religiosos principais, que adquiriram um poder sociocultural na história da civilização ocidental. O primeiro é o motivo grego matéria-forma […]. O segundo é o motivo básico bíblico radical [da] criação, queda no pecado e redenção por Jesus Cristo na comunhão do Espírito Santo; o terceiro é o motivo escolástico natureza e graça; e o quarto é o motivo moderno humanista natureza e liberdade. (DOOYEWEERD, 2018, p. 78)

Por meio da historiografia destes motivos básicos religiosos – religioso por sua dominação e direcionamento do coração/pensamentos – Dooyeweerd demonstra que a origem da ideia de natureza e graça que evoluiu para o motivo humanista natureza e liberdade, nasce no motivo básico grego matéria e forma. Este por sua vez tinha em alta conta o mundo imaterial, e o mundo das ideias, e em baixa estima o mundo material e corporal. Esta ideia por sua vez nasce na mitologia grega:

Os deuses olímpicos deixaram a mãe terra com seu fluxo perene de vida orgânica e sua inescapável anangke [morte]. Eles adquiriram o Olimpo como sua residência e assumiram uma forma pessoal e imortal, imperceptível pelos sentidos, uma forma ideal de perfeita e esplêndida beleza, o protótipo genuíno da ideia platônica, como a forma imperecível do verdadeiro ser. (DOOYEWEERD, 2018 p. 83)

Ou seja, o pressuposto da autonomia da razão humana, livre de todo e qualquer dogma religioso em sua dita maturidade tem seu nascedouro no mito dogmático da religião grega pagã, uma realidade um tanto quanto contraditória. E se não bastasse isso, Dooyeweerd ainda lança luz sobre outro aspecto histórico:

Essa visão [autonomia teórica] implica que o ponto de partida último da filosofia deveria ser encontrado no próprio pensamento. Porém, devido à falta de um sentido unívoco, a pretensa autonomia não pode garantir uma base comum a correntes filosóficas diferentes. Pelo contrário, constantemente parece que este dogma impediu um contato real entre escolas e correntes filosóficas, que se mostram divergentes em suas pressuposições profundas, supra teóricas. (DOOYEWEERD, 2018, p. 44)

Em outras palavras, o que Dooyeweerd está nos dizendo é que se houvesse de fato um pensamento teórico autônomo originado no próprio pensamento humano, esse deveria ser a base de todo pensamento filosófico. E por estarem todos baseados na mesma origem, deveria existir convergência nos diversos pensadores e escolas filosóficas, o que evidentemente não é o que a realidade nos mostra.

Qual é então a solução? Ora, uma vez que provamos que a razão de fato não é autônoma, mas sempre influenciada por dogmas que aceitamos como verdades de níveis religiosos em nossas mentes e corações, Dooyeweerd vai nos sugerir que ao invés de nos iludirmos com esta falácia, sejamos intelectualmente honestos e, apresentando nossos pressupostos dogmáticos, ou crenças religiosas, passemos a desenvolver nosso raciocínio.

Tendo isso posto, nós, como cristãos, devemos nos encorajar para deixar claro nosso pressuposto básico religioso: criação, queda e redenção, o qual só brota em nossos corações mediante o lavar regenerador do Espírito Santo. Isso nos levará em primeiro lugar identificar armadilhas ideológicas do presente século com suas vãs filosofias, identificando suas liturgias seculares, como nos ensina Smith, que buscam nos doutrinar nos anseios pagãos do presente século. E em segundo lugar, nos permitirá estabelecer o edifício dos nossos pensamentos sobre a pedra angular que os construtores rejeitaram, reestabelecendo uma liturgia do ordinário – marginalizada pela modernidade – que educa nosso regenerado coração (SMITH, 2017).

Que Deus nos ajude, amém.


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BIBLIOGRAFIA

CLARK, Gordon Haddon. De Tales a Dewey: Uma história da filosofia. Trad. Wadislau Gomes. São Paulo: Cultura Cristã, 2012.

DOOYEWEERD, Herman. No crepúsculo do pensamento ocidental: estudo sobre a pretensa autonomia do pensamento filosófico. Trad. Guilherme de Carvalho e Rodolfo Amorim de Souza. Brasília : Editora Monergismo, 2018.

LIPOVETSKY, Gilles. Os tempos Hipermodernos. Trad. Mario Vilela. São Paulo: Barcarolla, 2005.

SCHAEFFER, Francis. A Morte Da Razão. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.

SMITH, James K. A. Você é aquilo que ama: o poder espiritual do hábito. Trad. James Reis. São Paulo: Vida Nova, 2017.

TAYLOR, Charles. Uma era Secular. Trad. Nélio Schneider e Luiza Araújo. São Leopoldo: Unisinos, 2008.

TOMÁS DE AQUINO. Compêndio de Teologia. Trad. Dom Odilão Moura. Campinas: Calvariae Editorial, 2020.